Querido diário

| sábado, 30 de outubro de 2010 | |
       Parece que a noite sabe o que aconteceu comigo. Ela está tão silenciosa, muito quieta. Apenas as gotas lá de cima caindo no chão. Ele grita como se sentisse dor.
       Não sei como começo a contar esse meu dia que parece não existir no calendário. Ou eu não queira vê-lo. Talvez ele exista agora, novamente...
       Um novo dia começou e eu tinha que ir à aula. Não sei o que me acordou, se foram os empurrões rotineiros da minha mãe ou o sorriso que estava desenhado em meu rosto ainda preguiçoso. Eu não me lembrava do que sonhei, sabia apenas que tinha sido com ele. Ele poderia saber disso quando eu o visse. Não com esse sorriso inteiro no rosto, mas com um certo brilho no olhar. Somente o cheiro daquilo que eu guardava para ele.
       Então fui tomar banho e me arrumei depressa. Não comi nada, tomei o suco entre a cozinha e a sala. Deixei o copo com a minha mãe, a abracei e corri para o carro. Entrei e o olhar serio do meu pai me fez rir por dentro, era sempre assim, apesar da finalidade dele ser uma advertência para o meu atraso.
       O céu estava calmo. As nuvens vestidas de branco e cinza pareciam querer chorar. Não sei a razão. Elas ficavam tão lindas vestidas daquele jeito. Elas me acompanharam até a chegada. E foi mais rápido do que eu esperava; acho que olhar as nuvens me distraiu um pouco.
       Eu corri direto para o lugar onde sempre nos encontrávamos. Ele ainda não tinha chegado e eu tentava não ouvir as infinitas explicações para um "desaparecimento". O Sol já estava aparecendo tímido detrás das nuvens quando não pude mais esperar. Tive que entrar para a sala de aula.
       Quando entrei fui perguntando para os meus amigos se não tinham visto ele mais cedo, antes de eu chegar. Todos negaram e voltaram para a suas vidas. Como eles não achavam isso estranho? Como?
       Esperei até o intervalo. Nada dele. Voltei para a sala, já preocupada. Tentei prestar atenção nas aulas e nada adiantou. E finalmente tocou o sinal para ir embora. Quem sabe assim ele não apareceria, me libertando dessa angústia.
       Ao sair da sala, as pressas, senti uma mão um tanto nervosa segurar o meu ombro. A diretora me pediu que a acompanhasse até a sua sala.
       Ela começou com perguntas comuns de uma pessoa educada. Depois passou para as mais intimas, todas envolviam ele. Qual era a minha relação com ele. Como eu o tinha conhecido. Respondi todas, com um medo irracional dela ler a minha mente. Dela ver, não o primeiro sonho, mas a primeira sensação de sonho que tive com ele.
       Como aconteceu com as nuvens, me distrai com os livros que repousavam atrás dela. Eles eram menos perigosos do que as palavras dela. Era como se eu soubesse o que ela ia me dizer. Eu ouvia o que ela dizia, mas não compreendia por completo. Até que ouvi duas palavras que ela jogou sobre mim: "ele" e "morto". Ao ouvir essas duas palavras, perdi o sentido de mim mesma. Eu sentia apenas algo escorrendo em meu rosto e minhas pernas fazendo o caminho de volta para casa. Hoje eu percebi que decorrei esse caminho não por tê-lo feito repetidas vezes, mas porque ele me acompanhava o tempo inteiro ao percorrê-lo.
       Não sei o que aconteceu depois que cheguei em casa. Acordei agora, nessa madrugada, e senti vontade de dizer a você que sonhei com ele, mesmo você sendo apenas um diário. Ele nunca saberá disso. E eu nunca vou saber se algum dia ele sonhou comigo. Ou se ele teve alguma sensação de sonho dedicada a mim. Porque todos os dias que passei com ele, eu estive sonhando. E agora estou desperta sem ele.

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