Desfecho

| terça-feira, 20 de setembro de 2011 | 0 comentários |
       Quando comecei a desenhar essa porta em meu coração, eu não tinha a intenção de fechá-la. Mas todos conhecem os dois lados de um monumento feito por dentro: da mesma maneira que ele pode se tornar o início de uma fuga para outro lugar além do cansaço, também pode ser a razão que separa um caído de sua amada altura. E tão longe dos meus rascunhos, as únicas coisas reais que tive de você durante esse tempo, eu quero acreditar que nenhum traço é feito para ser apagado, nem que toda espera está entregue ao desperdício. Porque quando penso no amor, eu lembro de você. E essa lembrança me adormeceu, repetindo muitas vezes que o para sempre descansava em um amanhã inalcançável; ensinado pelo seu nome a dar sentido as letras da minha vida, eu levantei minhas mãos. Você nunca esteve lá, mas das luzes que nunca vi, você foi a que mais me cegou.
       Tantos vazios eu entorpeci com as linhas das manhãs que me traziam os seus cabelos. No entanto, meus dedos nunca brincaram com os seus fios. Meus sonhos se erguiam sobre o seu sorriso que nunca deixava de acreditar; isso é tão triste. Pedras preciosas formavam esse frágil mundo do qual eu conseguia força. Elas eram banhadas no imaginário corpo que eu construía para a sua voz, essa que embalava meus sonos mais relutantes. Às vezes você surgia ao meu lado, como se sempre pertencesse a essa situação. Logo, eu despertava e não te encontrava em lugar algum aonde poderiam se esconder as alegrias; mais um dia a procura de vestígios seus soltos entre os movimentos e silêncios ao redor de mim. Há um segundo atrás isso era divertido, mas hoje os caminhos mudaram.
       As cartas endereçadas a você, que apenas em mim as cores as faziam sobreviventes, morreram depois de serem tocadas pelos seus pensamentos. Você soube muito mais do que meu nome; viu os meses que a insegurança arrancou dos meus calendários, a abertura enfeitava com minhas mortais cinzas e assim tentei dar valor a tudo isso, pela última vez. No meu sussurro estava um convite para nos acharmos aonde os domingos se perdem, mas aquela tarde era longa demais para você atravessá-la. E o amanhecer seguinte nasceu iluminando a história que já se contava ali: eu sempre estive sozinho. Até antes de ler a minha alma foi desse jeito, não seria agora que você começaria a enxergá-la, como algo mais que um fantasma.
       Eu ainda sei as suas músicas preferidas e elas me trazem seu rosto por trás dos meus pesadelos; guardo sua foto junto com as minhas roupas e esses detalhes me fazem sentir que tudo isso foi verdadeiro, por mais que a certeza nunca tenha sido minha amiga. Talvez seja por isso que mantenho essa porta entreaberta, porque fechá-la tornariam falsas as batidas rápidas em meu peito quando eu te confundia com alguém na rua. Esquecer você seria o mesmo que manchar grande parte das minhas palavras; fazer do que acredito pedaços de mentiras descartáveis. Eu destruiria tudo de mais bonito que pensei viver até aqui.
       É verdade, eu nunca me distancio muito do chão que se acostuma com as minhas feridas, mas as coisas não são tão violentas assim. Eu não me decepcionei, apenas coloquei sua resposta em meus bolsos ao dividir com seus olhos a ilusão em que os meus mergulhavam. Porque eu não esperava de você nada mais do que o normal e as lágrimas que engoli foram de dores causadas por mim. Eu estou cansado, me enfraquecendo para salvar o que nunca esteve em perigo. Não há motivos para se agarrar a lascas de algo quebrado; ouvir as despedidas de alguém que nunca teve sua presença distinguida. Dessa vez eu tive que passar pela porta e deixar esse espaço adormecer. Mesmo que seu toque seja necessário para que ela se tranque por inteiro, eu não estarei aqui. Sei que você não se importa, mas eu estou bem como sei que você também está. E apesar de você permanecer em sua calçada, sou eu que estou saindo agora.