Belisco

| sábado, 28 de dezembro de 2019 | 0 comentários |











Uma lasca de felicidade
se desprende da vida:
as crianças descascam as árvores
como se fossem comida,
sempre em busca do sabor
mais sem fim
que por último termina.

Frutas exóticas também têm seus pomares

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Imagem: (Título desconhecido) do artista Miles Johnston.

Eu bato duas vezes na porta
para tratar de assuntos seríssimos,
mas na terceira, o som que sai do material,
que agora está de baixo das minhas mãos
e não mais diante de mim como antes,
é de um tambor festivo que me pisa.

Vivo coisas que não quero ver,
como pássaros que rasgam o fundo do céu,
esparramando a nudez das estrelas que,
envergonhadas, usam das línguas do sol
como esconderijos até o fim dos tempos.
Ainda que desviados todos os olhares,
o meu inteiro olhar sempre me olha:
é assim que se faz um jogo de tabuleiro
e as peças e as linhas e o livreto.

E eu, que busco as moscas
como a morte ronda os calores,
tenho no peito uma lâmpada acessa.
Muitas vezes, ela falha em me iluminar
os caminhos, ou seja, em me contar
as histórias d’aonde estou tentando seguir.

Um amigo me disse que os dias lhe disseram
que estavam com muita saudade de mim.
Diga a eles que eu sou apenas saudades,
mas estou perdido desde o primeiro respiro.

Eu sento, então, sob a árvore invertida
(em que os únicos galhos são as suas únicas raízes
e as únicas raízes são os seus únicos galhos)
e experimento das frutas mais exóticas:
há algo indecente na revolta dos sabores,
é casa que ninguém quer ser morador.

Porém, anarquizo o meu próprio estado;
eu nunca fui dono de mim, mas agora é real.
As visitas, ainda que cheguem e vão,
aqui permanecem, se hospedam por dentro:
cada franzino pensamento é cortado
com as mais altas e graves lâminas de ímã.
São vozes que me sonham para eu nada sonhar.

Novembro

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"A Grande Onda de Kanagawa" de Katsushika Hokusai

Eu tomei todas as águas do mundo
Para acalmar os tremores de dentro de mim.
A sede nunca passa:
Uma boca e uma garganta em meus sertões
E há ventos por demais em meu estômago,
Tanto que nem vi quando trouxeram novembro.

Novembro não é o fim,
Mas o findando-se;
Não é a morte, mas o enquanto se morre;
Não é a brancura,
Mas o habituando-se dos olhos à todas as cores.
Enfim, novembro não é o lar,
Mas sim, a avenida que corta toda a cidade,
Misturando idas e vindas com manhãs e noites.

Todos e cada um dos passarinhos daqui
Cantam como as teclas de um piano
–– Calor que me forja uma paz em forma de coração.
Ao longe, as vidas vizinhas me perguntam
Notícias sobre as paisagens argentinas,
Enterradas nas sombras dos lodos dos muros goianos.
Ainda recém-nascido, eu fui obrigado a mentir:
“Porque as minhas guerras irão acabar,
É que poderei tocar todos os instrumentos,
Isso em meados de novembro”.

Tudo parece, nada é certo

| terça-feira, 24 de dezembro de 2019 | 0 comentários |
"Before Two" (2004), do artista Antony Gormley

Há um corpo em mim
Que parece me tomar conta:
Ele treme; eu tremo
E ele toca com trombetas
De um juízo final particular.
Quando ele pesa, eu peso
E o pensamento corre
Como criança sem medo,
Enquanto ele, lento,
Parece estar ainda lá,
Onde não lhe deram a vida.
Ele se desfaz; eu desperto
Pelo cutucar de seus dedos
Que não parecem se sentir
Mais como os mesmos.
É meio bom se jogar alto
Com os pés fundos no vão.

Acordado, de olhos fechados

| domingo, 20 de outubro de 2019 | 0 comentários |
"Le pèlegrin" de René Magritte

Os meus dias seguintes são sempre melhores
nas noites anteriores,
quando minha cabeça pende no fio fino e quente
de um travesseiro velho e costumeiro.

Lá, quem me acorda é o sol
com o seu jeito afeminado que,
pela fome de todos os lugares e de todas as coisas,
naturalmente faz as vezes de mim aqui.

Lá, os meus ossos não são feitos de pele.
Quanta força eu tenho acordado e de olhos fechados!
Imaginando a dureza dos sonhos gelatinosos
que se cruzam, me tendo como intersecção. Aqui

os compassos se descompassam
debochadamente:
nos manuseios, nos voos, nos batimentos
do coração –– já desidratado lá entre o vigésimo quinto e
o vigésimo sexto andar
desse corpo ––, no balançar dos cabelos –– que
se jogam linha-a-linha por todos os recantos de um abismo sem volta ––, mas

quando minha cabeça pende no fio fino e quente
de um travesseiro velho e costumeiro,
os meus dias seguintes são sempre melhores
nas noites anteriores.

Atraso

| sábado, 10 de agosto de 2019 | 0 comentários |

Imagem: "Unmade bed" (1845) de Adolph Menzel.

Um dia desses em que se acorda tarde,
recebi a notícia de que eu havia me matado.
Assustei-me, porque eu era tão jovem e tão inteligente,
tinha uma longa vida pela frente,
grandes planos e realizações a serem ainda conquistadas.
Tal ato foi tão repentino,
sem aviso prévio, sem sinal aparente.
Quase não parecia fazer sentido,
porque eu apenas não queria acreditar.

Todos me ligavam, me mandavam mensagens,
queriam saber como eu me sentia,
se eu estava em casa, no hospital ou já no necrotério,
se onde eu estava fazia calor, frio ou um clima refrescante.
Eu não soube responder.

Acabei ouvindo os vizinhos na rua:
surpresos, pesarosos, chocados e também curiosos.
Eles diziam sobre a falta de deus, sobre a impulsividade dos jovens;
alguns mais informados, falavam sobre as doenças da mente,
dos efeitos da (pós-)modernidade, da virtualidade das épocas
–– “São os fins dos tempos” ––,
só se esqueciam das dores do coração.

O ocorrido não teve qualquer tinta gasta nos jornais,
voz alguma na frequência dos noticiários das rádios,
nenhum espaço nas programações dos telejornais.
Alguns mortos vivem mais solitária e silenciosamente do que outros.
Por essa razão, a respeito de mim, eu não sabia de nada:
que horas tinha acontecido, de que meios eu me servi,
quem foi a última pessoa que abracei, onde era o lugar,
será que eu usei o meu perfume preferido,
quando seria o cortejo entre o velório e o enterro.

Cada um dos moradores voltou para a sua residência,
retomando os seus cotidianos afazeres;
a maioria dos jornalistas saiu das redações
para, em vez de contar histórias, participar delas;
os meus conhecidos deixaram de me perguntar,
talvez percebendo que eu não poderia ajudá-los.

Então pensei em meus pais e em meus amigos:
tantos anos comigo não devem ter os preparado para isso.
Tanto tempo também não me preparou para soprar todos os ciscos dos meus olhos.
Preocupei-me com os nomes e as cores
que eu tinha dado às datas dos calendários espalhados por aí,
porque ninguém além de mim poderia pronunciá-los, descolori-las,
vencê-los, transluzi-las...
Eu me atrasei demais para a minha própria morte
e a demora também responsabiliza os outros:
a honra do meu pai e a saúde da minha mãe;
o investimento dos meus professores e o tempo dos meus amores;
o pesar dos íntimos, a educação para os que batem à porta,
a simpatia para as visitas e a sala para os parentes.

Nada a ser feito, voltei a dormir.
Amanhã ainda há muita coisa para se fazer.

Ismálio

| sábado, 3 de agosto de 2019 | 0 comentários |

Imagem: "Ophelia" de John Everett Millais.

Eu não sou um corpo, nem uma mente;
O que sou é uma torrente de emoção que se mexe sem cessar.
Tal forma que me assume e que se assume como margens e encostas,
Deve também ser alguma emoção, talvez, coagulada, sem nome
–– Não por inexistir palavras, mas por não haver, em algum lugar, a coragem humana de dizê-lo.
Semelhante é a minha pele, a minha sombra, o que deixo para trás e o que anuncia a minha vinda, quando caminho.
Tudo são emoções, sentimentos ou seja lá como chamam isso que preenchem o oco da carne,
Que são os verdadeiros órgãos, os reais pensamentos,
As únicas coisas que se movem no ócio de tudo.
O que vem de mim, portanto, são apenas bolhas de ar e espumas:
Eu não sei girar com as ondas, nem respirar sob as águas.