Ninguém

| domingo, 17 de dezembro de 2017 | 0 comentários |
Um dia, sem pretensão, perguntei a mim mesmo
Qual era o sabor que tinha em ser o meu nome?
Não obtive resposta. Resolvi, então, pensar na razão do silêncio
E não obtendo pensamentos, quis então senti-la,
Assim, talvez, conseguisse algo. Não senti, nem consegui nada.
Deixei essa bobagem de lado, esqueci dela como quem lembra.

Descobri, depois de um tempo, que muito mais do que frasal,
As palavras eram físicas: o meu corpo, sem som e sem esforço,
Era a única resposta para aquela pergunta boba.
O que isso significa, eu não sei; mas pensei, senti e consegui algo.

Talvez por isso não podemos dialogar ou casar,
Nem sentar de frente a nós mesmos no jantar, com olhos nos olhos
E alternância dos barulhos no manuseio com os talheres.
Nossa companhia é verdadeiramente solitária.

Ali

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Faz mil anos que ouço de mim mesmo que vou mudar,
Mas o que muda são as coisas e não, não eu:
Os ponteiros do relógio se sedimentam em areia,
Transformando o tic-tac em ampulheta –– silêncio.
O copo alçado preenchido de água negra se esvazia
E novamente, e de novo, e outra vez, se enche.
Os gostos tornam-se vícios; os amores, dias atrás.

E eu ali, assistindo a tudo isso acontecer.
Tudo se esvaindo, na minha espera, sei lá do que.
Parece que nada aprendi dos momentos anteriores
Em que percebi o real brilho de uma preciosidade chamada calma;
O verdadeiro significado daquilo que tanto amo: perfeição!

(Perfeição é saber o nome de cada coisa que se tem,
Seus lugares e rostos; é saber usar as palavras que carrega,
Sem pressa de aprender outras, ainda que também as busque.
É a tranquilidade de desenhar nuvens, guarda-chuvas, casas,
Mesmo sabendo que elas serão precisas apenas no mês seguinte.
–– “Moço, falta muito para a época de chuvas fortes!”)

Aparentemente, os mortos não voltam à vida comum,
Logo, também não retornarão os séculos que eu já derramei.
E eu ali, em minha imperfeição, dizendo não mais entender as pessoas
Em seus desesperos forjados, acabo também confuso e me perco...
Ainda que eu soubesse costurar os retalhos passados,
Não saberia fazer deles uma colcha para as noites mais compridas.

Engraçado que há tempos penso nos maus-tatos de um antigo amor,
Mas, no fim, acabei por dizer sobre um problema mais meu
Do que de outra coisa. Preocupar-me com o que realmente importa:
Finalizar os nós soltos e cobrir os sonhos por mais longos que sejam,
Porque isso tudo dito deveria estar aqui há mais de mil anos
E o aprender a mudar parece estar justo ali, onde eu estou.

Insonícula rouxinol

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       Eu me acostumei há tanto tempo em adormecer tarde da noite que sinto como se eu não conseguisse mais fechar os olhos antes. Fico sem saber o que fazer, quando tento: procuro luzes que possam estar ligadas, portas mal-trancadas, torneiras pingando incansavelmente a serem fechadas; invento até uma fome que não está lá e aproveito para procurar insetos que estejam vagando pela casa. Assim, caso encontre, eu poderia dizer a alguém que me questione: “eu dormi tarde, porque tinha um rouxinol voando aqui dentro e me atrapalhava o sono”. É como se meu corpo transpassasse um diálogo em que o adulto diz à criança: “Vá logo para a cama! Essa não é a hora para os pequenos estarem acordados”. Aliás, talvez, nessa troca de frases silenciosas em que meu corpo é apenas retrato, quem fala não é o adulto, mas eu mesmo, ainda criança, porém crescido: “Durma mais cedo! Já se passaram os dias de diversão. Agora é hora do dever de casa...”. Tão difícil é deixar as brincadeiras na rua e voltar para casa; largar o livro e olhar o mundo; lavar os pés, as mãos, para que não se sujem nunca mais.
       Algo em mim mudou. Algo em mim não está o mesmo. Os ponteiros se adiantaram algumas casas; o ciclo girou mais uma vez. Círculos não têm inícios, nem fins, por isso não sei onde tudo começa e onde tudo termina: alguns diálogos, sejam pelas palavras, sejam pelos corpos, parecem obedecer a mesma lei. Talvez a concordância seja mais viciosa do que as discordâncias; talvez a continuidade esteja mais na criança do que no adulto. Quem sabe essa mudança, esse não estar o mesmo seja...
       “É momento de aprender um novo jeito de brincar”, disse o adulto para a criança. E eu, insistindo em escrever tudo isso, acabei por ficar acordado bem tarde outra vez.

Meditações

| domingo, 25 de junho de 2017 | 0 comentários |
Assim como um adulto quando estapeia uma criança,
Parecendo o ensolarado sol ao inflamar a delicadíssima pele,
A minha alma nos enredos e nas tramas das variadas vivências
Sofre com murros o que na verdade são simples toques.

Tão movediço é o meu interior e pequenos são os silêncios
Que caem das suas passarelas, sujam o chão e voam com o vento:
Mãos pegas pela distância e puxadas para perto de sua senhora.
De onde estou, a translação da vida não se esforça para disfarçar
Os muitos ruídos de suas engrenagens. Minha viciosa rotação,
Apesar dos belos efeitos (o rodopiar do vestido, o colorir das rimas,
Como uma bailarina ou felicidade), No fim, me tonteia e me acaba
Trocando as colunas das pernas pelos horizontes dos braços.

Queria eu ser mais adulto que o Tempo para colocá-lo de castigo,
Impedindo de passar, no mesmo instante que taparia os ouvidos
Do Mundo com algodões, com nuvens que estivessem sobrando por aí,
Para que a minha bagunça me organizasse e o meu barulho criasse canções.
Porque grandes foram as vezes que achei desejar a quietude ao redor,
Sem saber que em mim girava um pião querendo mais e mais cordas...

Mas também sou um gauche na vida, desses que são incapazes
De fazer ilusionismos baratos que acalmam o sufoco do peito.
E ele aperta; aperta como o primeiro laço feito no cadarço
Quando aprendido e que incomoda até o final do caminho.
A melancolia tem um pouco disso: estrondos íntimos que falam
Num linguajar mudo e a comoção que era uma lagoa, transborda
Em um oitavo mar. Há tantos barquinhos de papel escorregando
Por ele, que eu não sei quantas águas mais vão me dobrar.

Conversa solitária ou Reflexão

| sexta-feira, 3 de março de 2017 | 0 comentários |
       Estou sentado diante do espelho. O que eu queria era apenas alguém que me entendesse, sem nenhum algo a mais, nem um algo a menos. Alguém como eu, que ao me olhar sentisse e compreendesse a razão de seu próprio olho encaixar tão perfeitamente na cavidade do seu próprio crânio; que saberia da minha alma ou desalma quando eu levantasse a mão direita no momento que ele abaixasse a esquerda. Pare de me imitar! Não quero um eu invertido: quero um eu que, na inversão de ser outro, perceba os lados na mesma perspectiva que a minha vida. Isso quer dizer o mesmo que no instante em que eu perguntar – assustado – o que é isso que está a acontecer, não são respostas que quero ter, mas um também assombro ou nas vezes em que, trazendo problemas, a perdição for o caminho, eu não receba soluções, mas o enxergar o peso mesmo.
       O que eu esperava era que perante essas palavras, o reflexo se comovesse fora de mim, me dizendo que esperava o mesmo; que também queria alguém como ele. Na minha tímida infância, eu acreditava, dentre outras coisas, que os espelhos eram janelas de um outro mundo, em que as pessoas de lá, parecidas conosco, quando intuíssem ou fossem alertadas – não sei – de que iríamos ter um contato com algo reflexivo, deveriam fazer os mesmos movimentos que fizéssemos. Eles tinham total liberdade longe disso, mas ainda eram presos a nós. Difícil existência. Mesmo imaginando saber esse suposto segredo, nunca me foi confirmado ou desmentido e hoje, aqui, nem me vendo conversando solitário e sozinho como estou, o reflexo ousa me revelar a verdade. Difícil essa minha existência, sempre preso a esse reflexo.
       Deixei de dormir mais tempo, de molhar o corpo e o rosto, enfim, de cuidar de mim nos essenciais detalhes, tudo isso por me pedir algo assim... Ele também reflete as minhas ideias e sentimentos? As minhas doenças internas e profundidade? Ao menos me balance a cabeça, para que eu não me sinta um! Porque a dor de ser um é nunca poder ser dois. Talvez por isso os amores que batem à porta nunca me esperam abri-la e quando esperam, me tranco na parte de fora. Queria que as chaves estivessem aí, nesse mundo tão parecido com o meu, mas que tudo indica ser apenas um ilusionismo. Onde eu pertenço? Quem de nós é o reflexo? Impossível saber, do mesmo modo que a impossibilidade da chegada desse alguém que me entenda pelo fato de ser eu, mas uma exceção de mim. Sem querer eu quebro o espelho e não sei o que me sobra de meu.

Jardim suspenso

| sexta-feira, 27 de janeiro de 2017 | 0 comentários |
Árvore infrutífera, eu sou incapaz de lembrar os versos
Esquecidos de minha vida. Pergunto-me onde foi que os perdi...
Ainda que eu desse frutos, como me disseram ter alguns passarinhos e beija-flores,
Seriam eles pequenos quando devessem ser muito grandes
E sem sementes quando, na verdade, deveriam cocegar esperanças.

Os meus membros guardam uma força tão rígida, como as profundas raízes.
Isso equivale, no coração, a orvalhadas danças de desejos e sonhos,
Mas a minha fortaleza não amanhece as espalhadas gotículas almosas,
Nem a minha clareira consegue refletir os altivos raios de solidez.
Se a alma quer comer os fracassos e os dentes já não temem ser quebrados,
Por que, então, o meu corpo e a minha vontade permanecem cruzados, quietos?
Também não entendo como de um único ponto se expandiu toda origem
Ou como depois de um, surge o reinício maiúsculo, palavra, frase, história...

Já fui semente e há quem diga que por isso eu consiga mais do que compreender.
Enganam-se, porque eles não aprenderam que a flora humana é diferente da natural:
De fato, o tempo passa sobre tudo e os troncos engrossam, os ramos se folheam,
Mas isso nem sempre é o mesmo que o desatar da coragem e da vontade de altura.
Crescer é perda do controle, andança por várias direções saboreando da igual seiva
Tragicômica; é lugar onde sonhos são barganha para pungentes sacrifícios.

Quando fui olhado de baixo, me apercebi muito rente, apaixonado pelo chão,
Com os olhos bem vendados e os pés descalços de ossos. Assim, eu me arrasto
Pelo jardim suspenso por meus pais em minha homenagem, em meu maldizer:
Vinguei-me tranquilamente, sempre acompanhado dos cultivos e carinhos,
Mas, também, na lenta lentidão e custosamente entre pedregulhos e espinhos.
Ao chegar perto dos portões da dormência, bosque virgem às vistas humanas,
São os pesos das escolhas maquinais que me somem os supostos olhos adultos.
O maior das vertigens não é a falha do equilíbrio, mas tê-lo e ainda sim se recusar
A parar de girar: os braços soltos e a firmeza das pernas são a verdadeira prisão.
Nas florestas para além destes jardins, ao verem as diversas árvores caminhando,
Aquela que estiver fincada em seus próprios movimentos –– essa sou eu!

Incisão

| domingo, 11 de setembro de 2016 | 0 comentários |
Chegou feito trovões debaixo de sussurros
Dos dedos e cantos –– quase murros ––
De trovadores antigos, também amantes.
Noite após noite, pulavam os médios muros
A falar com aquele que logo estava adiante.

Este brincava que, num dia desses, todos eles
Voltariam com tristes notícias, graves anúncios,
Querendo e não querendo estragar os ênes e os éles
Entre eles. Brincares devotos viram prenúncios!

Metade de mim é não; já a outra, acha que fim,
Porque incerteza é olhos nos grãos de areia;
Porque não saber é insetos envoltos em teia;
Porque dúvida é alívio que nunca tem sim.

Desde então, meu corpo se mostra trêmulo, fraco
E desértica e plana está a minha pequenina alma.
Alguém me diga como volto para o distante íris-arco
Onde o medo, na plateia, era apenas uma palma.