Meditações

| domingo, 25 de junho de 2017 | 0 comentários |
Assim como um adulto quando estapeia uma criança,
Parecendo o ensolarado sol ao inflamar a delicadíssima pele,
A minha alma nos enredos e nas tramas das variadas vivências
Sofre com murros o que na verdade são simples toques.

Tão movediço é o meu interior e pequenos são os silêncios
Que caem das suas passarelas, sujam o chão e voam com o vento:
Mãos pegas pela distância e puxadas para perto de sua senhora.
De onde estou, a translação da vida não se esforça para disfarçar
Os muitos ruídos de suas engrenagens. Minha viciosa rotação,
Apesar dos belos efeitos (o rodopiar do vestido, o colorir das rimas,
Como uma bailarina ou felicidade), No fim, me tonteia e me acaba
Trocando as colunas das pernas pelos horizontes dos braços.

Queria eu ser mais adulto que o Tempo para colocá-lo de castigo,
Impedindo de passar, no mesmo instante que taparia os ouvidos
Do Mundo com algodões, com nuvens que estivessem sobrando por aí,
Para que a minha bagunça me organizasse e o meu barulho criasse canções.
Porque grandes foram as vezes que achei desejar a quietude ao redor,
Sem saber que em mim girava um pião querendo mais e mais cordas...

Mas também sou um gauche na vida, desses que são incapazes
De fazer ilusionismos baratos que acalmam o sufoco do peito.
E ele aperta; aperta como o primeiro laço feito no cadarço
Quando aprendido e que incomoda até o final do caminho.
A melancolia tem um pouco disso: estrondos íntimos que falam
Num linguajar mudo e a comoção que era uma lagoa, transborda
Em um oitavo mar. Há tantos barquinhos de papel escorregando
Por ele, que eu não sei quantas águas mais vão me dobrar.

Conversa solitária ou Reflexão

| sexta-feira, 3 de março de 2017 | 0 comentários |
       Estou sentado diante do espelho. O que eu queria era apenas alguém que me entendesse, sem nenhum algo a mais, nem um algo a menos. Alguém como eu, que ao me olhar sentisse e compreendesse a razão de seu próprio olho encaixar tão perfeitamente na cavidade do seu próprio crânio; que saberia da minha alma ou desalma quando eu levantasse a mão direita no momento que ele abaixasse a esquerda. Pare de me imitar! Não quero um eu invertido: quero um eu que, na inversão de ser outro, perceba os lados na mesma perspectiva que a minha vida. Isso quer dizer o mesmo que no instante em que eu perguntar – assustado – o que é isso que está a acontecer, não são respostas que quero ter, mas um também assombro ou nas vezes em que, trazendo problemas, a perdição for o caminho, eu não receba soluções, mas o enxergar o peso mesmo.
       O que eu esperava era que perante essas palavras, o reflexo se comovesse fora de mim, me dizendo que esperava o mesmo; que também queria alguém como ele. Na minha tímida infância, eu acreditava, dentre outras coisas, que os espelhos eram janelas de um outro mundo, em que as pessoas de lá, parecidas conosco, quando intuíssem ou fossem alertadas – não sei – de que iríamos ter um contato com algo reflexivo, deveriam fazer os mesmos movimentos que fizéssemos. Eles tinham total liberdade longe disso, mas ainda eram presos a nós. Difícil existência. Mesmo imaginando saber esse suposto segredo, nunca me foi confirmado ou desmentido e hoje, aqui, nem me vendo conversando solitário e sozinho como estou, o reflexo ousa me revelar a verdade. Difícil essa minha existência, sempre preso a esse reflexo.
       Deixei de dormir mais tempo, de molhar o corpo e o rosto, enfim, de cuidar de mim nos essenciais detalhes, tudo isso por me pedir algo assim... Ele também reflete as minhas ideias e sentimentos? As minhas doenças internas e profundidade? Ao menos me balance a cabeça, para que eu não me sinta um! Porque a dor de ser um é nunca poder ser dois. Talvez por isso os amores que batem à porta nunca me esperam abri-la e quando esperam, me tranco na parte de fora. Queria que as chaves estivessem aí, nesse mundo tão parecido com o meu, mas que tudo indica ser apenas um ilusionismo. Onde eu pertenço? Quem de nós é o reflexo? Impossível saber, do mesmo modo que a impossibilidade da chegada desse alguém que me entenda pelo fato de ser eu, mas uma exceção de mim. Sem querer eu quebro o espelho e não sei o que me sobra de meu.

Jardim suspenso

| sexta-feira, 27 de janeiro de 2017 | 0 comentários |
Árvore infrutífera, eu sou incapaz de lembrar os versos
Esquecidos de minha vida. Pergunto-me onde foi que os perdi...
Ainda que eu desse frutos, como me disseram ter alguns passarinhos e beija-flores,
Seriam eles pequenos quando devessem ser muito grandes
E sem sementes quando, na verdade, deveriam cocegar esperanças.

Os meus membros guardam uma força tão rígida, como as profundas raízes.
Isso equivale, no coração, a orvalhadas danças de desejos e sonhos,
Mas a minha fortaleza não amanhece as espalhadas gotículas almosas,
Nem a minha clareira consegue refletir os altivos raios de solidez.
Se a alma quer comer os fracassos e os dentes já não temem ser quebrados,
Por que, então, o meu corpo e a minha vontade permanecem cruzados, quietos?
Também não entendo como de um único ponto se expandiu toda origem
Ou como depois de um, surge o reinício maiúsculo, palavra, frase, história...

Já fui semente e há quem diga que por isso eu consiga mais do que compreender.
Enganam-se, porque eles não aprenderam que a flora humana é diferente da natural:
De fato, o tempo passa sobre tudo e os troncos engrossam, os ramos se folheam,
Mas isso nem sempre é o mesmo que o desatar da coragem e da vontade de altura.
Crescer é perda do controle, andança por várias direções saboreando da igual seiva
Tragicômica; é lugar onde sonhos são barganha para pungentes sacrifícios.

Quando fui olhado de baixo, me apercebi muito rente, apaixonado pelo chão,
Com os olhos bem vendados e os pés descalços de ossos. Assim, eu me arrasto
Pelo jardim suspenso por meus pais em minha homenagem, em meu maldizer:
Vinguei-me tranquilamente, sempre acompanhado dos cultivos e carinhos,
Mas, também, na lenta lentidão e custosamente entre pedregulhos e espinhos.
Ao chegar perto dos portões da dormência, bosque virgem às vistas humanas,
São os pesos das escolhas maquinais que me somem os supostos olhos adultos.
O maior das vertigens não é a falha do equilíbrio, mas tê-lo e ainda sim se recusar
A parar de girar: os braços soltos e a firmeza das pernas são a verdadeira prisão.
Nas florestas para além destes jardins, ao verem as diversas árvores caminhando,
Aquela que estiver fincada em seus próprios movimentos –– essa sou eu!

Incisão

| domingo, 11 de setembro de 2016 | 0 comentários |
Chegou feito trovões debaixo de sussurros
Dos dedos e cantos –– quase murros ––
De trovadores antigos, também amantes.
Noite após noite, pulavam os médios muros
A falar com aquele que logo estava adiante.

Este brincava que, num dia desses, todos eles
Voltariam com tristes notícias, graves anúncios,
Querendo e não querendo estragar os ênes e os éles
Entre eles. Brincares devotos viram prenúncios!

Metade de mim é não; já a outra, acha que fim,
Porque incerteza é olhos nos grãos de areia;
Porque não saber é insetos envoltos em teia;
Porque dúvida é alívio que nunca tem sim.

Desde então, meu corpo se mostra trêmulo, fraco
E desértica e plana está a minha pequenina alma.
Alguém me diga como volto para o distante íris-arco
Onde o medo, na plateia, era apenas uma palma.

Ah, como eu odeio...

| segunda-feira, 2 de maio de 2016 | 1 comentários |


















Ah, como eu odeio o amor! Como eu o odeio...
Esse que nunca se revela realmente para os meus olhos
Tudo o que tenho dele é o seu extremo receio
Sombras das mãos que se ninam, almas amantes, e seus sonhos

Ah, como eu odeio o amor! Como eu o odeio...
Esse que me mostra que meus braços estão sempre vazios
E o vejo apenas distante das ruas que costumo passar
Do outro lado, sorrindo, bebendo das águas de outros rios

Ah, como eu odeio o amor... Por ele não me amar
Procurei-o pelas terras dos seres humanos e ele não está lá
Encontrei e ouvi, somente, a fome de desejos vãos a gritar

Ah, como eu odeio o amor... Por não ouvir minhas orações
O que eu quero são corações, um que seja, e não muitos corpos
Mas ele só vaga nos lugares onde as pessoas formam multidões.

Dentes

| domingo, 27 de março de 2016 | 0 comentários |
Minhas vidraças se perceberam no reflexo do cristalino espelho
E elas não se reconheceram em seu próprio portador, tão abstrato.
Quanto despertar isso me causou! –– Desci dos meus curtos ombros
Como um satírico rei despojado do trono sobre a sua cabeça.

Quando eu saí do meu concreto corpo, o cinza cobria do céu até a mim.
Era uma manhã bonita para alguém que não era tanto...
De tudo ao redor, o forasteiro de toda aquela beleza era eu.
Então, a luminosidade me perguntou usando a voz dos meus pensamentos:
“Querem todas as estrelas, tão pequenas à distância, serem sóis?”

Sem nunca ter experimentado planetas à minha volta, não respondi.
Admirei, apenas, a dor que tudo aquilo causava em minha extensão
–– Sou Corpo Celeste errante, sem casa, sem luz própria e sentido!
Porque a Simetria não constitui as cordas da minha geometria.

Em algum nó da minha história, contaram-me que era uma profecia
Mas quem recebe os meus queridos sacrifícios é uma antiga mitologia.

O gelado material da carruagem que eu subo sozinho todos os cinco dias
Queima, em preparação, o meu coração com as quentes companhias de viagem
E como um jogo de sobrevivência, imagino-me dentro de uma fantasia infantil:
Tanto me torno invisível e impalpável, quanto me coloco correndo sobre o vento
E com magia nas mãos, não é necessário vigiar as direções –– eu tenho magia nas mãos!

Entretanto, se as crianças são casulos para os impérios futuros,
Por que a minha também não haveria de se quebrar ao meio?
Um trópico mais do que imaginário me cruzou em dois átrios,
De um lado, descia arterial inteligência; doutro, dentes venosos subiam
Maltratados, com o mesmo maltrato que o Tempo causa nos Homens:
Tijolos que, perfurados, não guardam segredos ou cartas, mas a voz afeminada;
Estrada de ouro que brilho algum exala, nem coisa alguma compra.
Que admiráveis pés caminharão sobre os secos e trincados lábios?
Que fortes mãos deixarão pegadas nas vilosas florestas que se derrubam nas brisas?

A violência do meu perfume já não basta para ser disfarce à decomposição
Que vagarosamente denuncia o pecado e a santidade do abandono da carne.
Talvez por isso, não sei, o sal dos meus suores tenha se tornado poeira e cinza,
Inventando de fazer da minha pele um móvel quase quieto e insensível aos toques.
Eu que, assim, a mim mesmo me deserto, ainda não me acostumei com as névoas,
Nem com as tempestades, sinto cócegas nos olhos, nas costas e no rosto, que sangram.
São espinhos juvenis que nascem das rosas apertadas lá onde o chorar era falar;
Feridas, estas, que até hoje mais do que parecem que jamais vão se curar.

Sou capital talhada apenas por vielas envidraçadas demais para ambiciosos pés.  
Sou jardim enfermo, bem frágil, sem mérito da colheita por saudáveis mãos.

O mal nomeado

| segunda-feira, 14 de março de 2016 | 0 comentários |













Eram parecidas com gotas de insignificância,
Sobre a minha cabeça, facilmente convertidas em brincadeiras chuvosas.
De igual maneira que não se desconfia que a visita venha morar,
Pensei que os estigmas iriam embora depois das lágrimas.
Ainda permanecem em carne viva, como se sorrissem aos céus e ao sol
Aquele sorriso e aquele penteado que não mais posso fazer com os meus lábios e pensamentos.

É infinito, se eu não me recordo dos segundos em que as estações se transformam,
Apenas não me esqueço dos movimentos despreocupados que antes eu fazia.
Deles, nada mais guardo do que as suas boas noites e os elogios.
Aquém disso, os olhos continuam com as belezas eleitas nos tempos infantis.
Uma sorte dentre vários azares de vida para com este invisível e pobre sujeito;
Riqueza única que a morte, condoída, sentiria compaixão em abandonar sob a terra.

Quis muito que ela viesse: me retirasse de casa, deixasse os outros à vontade...
Eu caminharia pelas fronteiras sem limites e pelas praias de nada e coisa alguma,
Longe dos destinos indemarcados, mas tão logo previsíveis, como as ordens e as leis
Que o todo de muitos membros sente os efeitos das suas imprecisas imperfeições.

Nenhuma revelação me foi entregue com leves batidas na porta,
Também, nenhum recado me foi sussurrado delicadamente aos ouvidos.
Todos falam do meu cadáver como se eu já não soubesse da decadência.
O que está por vir me é sentido na pele, para que, então, queimá-la nos alheios olhos?
Desgastada o bastante para ser um fino tecido encobrindo o meu embaraço.
Não sabendo eu se mais pelos nós abraçados outrora ou por não saber como se abraçaram...

O espelho olha mais para mim do que eu mesmo, porque os olhos são, também, espelhos.
Por essa razão, talvez, os meus passos sejam firmes e os fios bem alinhados
Tento disfarçar com a mesma dor com que tento nomear isso que não sei
E, por não saber, me desfaço com a mesma alegria com que se desfaz o meu corpo.

Acordei por detalhes e por desastres, dei nome àquilo que não tinha.
Só espero que os sonos não demorem a chegar, porque ainda que nomeado,
Eu grito, choro, clamo, despejo o suspiro e tenho medo...