Descarnação

| sábado, 3 de março de 2018 | 0 comentários |
O que será que há por baixo da carne do corpo,
Da carne dos ossos e da carne da alma?
De alguma forma, no fundo, todos nós sabemos:
Alguns com certos conhecimentos; outros, com contrários,
Mas acabamos sempre tecendo as estrelas com as linhas do sentido.

Às vezes, finjo esquecer o significa de qualquer palavra,
Para ter o sabor e a vibração de aprendê-la outra vez.
O mesmo faço com a vida: a esqueço de seu fim
(Tanto do meu, quanto dos meus),
Me fazendo rir junto com a finitude, que gosta da ideia.
Quando lembro de pronunciá-la, a vida, o vestido da noiva
Que era bastante para recobrir toda a noite, já não o é mais.
Então, eu sinto o gosto de me resignar ou de agradecer...
Mas, talvez, eu realmente nunca tenha aprendido a dizê-la.

Na imprecisão do tímido balbuciar e da rudeza de entender,
Enquanto os sons dos gostosos risos continuam,
É que acho que sentimos que uma morada nos espera:
O coração tanto se acalma que poderia parar.

Ainda sou o infante que sonha em voar
Para além das próprias carnes, sejam elas quais forem,
Apesar dos anos e de também saber – e de também saber!

Ladrão de almas

| segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018 | 0 comentários |

Seus ouvidos identificaram sons que indicavam que o telefone tocava. Era um dia como outro qualquer, com a diferença que justamente hoje ele havia decidido acordar um pouco mais tarde; seria um presente dele para ele mesmo já que era feriado. Levantou confuso, mais para lá do que para cá, como se ainda sonhasse, como se ainda despertasse, e logo foi em direção ao barulho, que se tornava mais e mais alto na medida que se aproximava. “Será um dia proveitoso”, pensava, mas primeiro deveria dar atenção aquela maldita ligação, até porque agora ele queria saber quem é e para que estaria ligando naquele início de tarde.
Atendeu. A confusão da sonolência foi dando lugar, na medida que a outra pessoa da ligação falava, a um outro tipo de confusão, aquela que nasce quando você simplesmente cai como um estrangeiro em uma conversa onde as línguas, elas sim, são as verdadeiras estrangeiras. Inicialmente, do seu lado só ouve silêncio; em dois ou três segundos tudo se passa em sua cabeça: se conseguiram o número do seu telefone, certamente poderiam ter, se é que já não tivessem, o seu endereço, o seu nome, como também um jeito de reconhecerem o seu rosto, ou seja, nessa lógica associativa delicada que o nervosismo traça, o raciocínio buscava razões para o dito “eles” terem posse de todas as privilegiadas informações sobre a sua simplória e nada especial pessoa. Depois dessa viagem, que foi do fim ao início de sua origem e da própria humanidade, ele tenta explicar que o que estava acontecendo era um engano, que haviam errado o número ou qualquer coisa do gênero; as suas mãos tremiam e sua voz, apesar de firme, deixava derramar um pouco de inquietação entre uma frase e outra. Ele, acreditando que havia deixado claro todos os mal-entendidos, avisa que desligaria o telefone, mas antes que o batesse em sua base, ele conseguiu ouvir, tão nítido como uma incerteza, uma ameaça.
Passam-se alguns bons minutos até ele se perceber sentado de frente ao telefone, fazendo e refazendo os loucos trajetos da viagem que ele conheceu enquanto era uma das linhas que sustentavam a terrível, tenebrosa, a assombrosa e miserável, ligação; de cima a baixo, da direita à esquerda, construindo toda uma geometria paranoica, uma arquitetura do futuro.
Ergue-se de supetão e decidiu que não dará mais atenção a isso, porque o seu dia estava apenas começando e havia milhares de coisas a serem feitas, mais importantes e necessitadas de seu cultivo. E essas coisas, do início da tarde até quase o seu final, foram brilhantemente cuidadas, semelhante a um bom jardineiro que traz consigo um radiante sol, uma maciez à terra e cristaliníssima água para as suas flores. Como nem tudo nelas são delicadezas, nem nos céus são luzes e não somente a sede que é morta pelas águas, uma hora ou outra ressurgia no horizonte a seca, as nuvens cinzentas e tempestuosas –– a ameaça. Mesmo silenciosa e quieta, as suas formas desestabilizavam a alma do rapaz, como um colosso ou a um leviatã dentro de uma formiga, alastrando por meio de suas veias solidão e solitude. Mas a formiguinha vigilante, com os pés no chão, cantarolava desculpas e esperanças que acalmavam os monstros: eles blefaram, jogaram néctar para colher mel, não sabendo eles que ele não se trata de uma abelha; uma armadilha que deu errado e ainda que não tivesse dado, não haveria um jeito de chegar até ali; ou pode ser um equívoco que certamente seria reparado antes deles precisarem ir atrás do rapaz.
Os instantes em que a força do seu corpo espiritual falha, empalidecendo o seu rosto, o fazendo suar frio, as mãos outra vez sentindo um frio inexistente naquela época do ano, se tornam cada vez mais frequentes desde o momento que ele próprio decidiu não se importar com isso. De repente, ele ouve quebrarem o seu portão, vê entrarem pela porta aberta e lhe matarem; pulando os muros da casa, entrarem pela porta aberta e lhe matarem; baterem no portão, ele abrir e lhe matarem... Não faz diferença estar de olhos abertos ou fechados, nem olhar para fora pelas janelas ou ir à rua ver se tem alguém observando; o mínimo som, o menor movimento, as conversas corriqueiras do dia-a-dia e as gritarias e os tráfegos de um feriado agitado, tudo lhe dizia que a morte se aproximava e o mais triste, uma morte por conta de um erro bobo que ele nem havia cometido. O fim da tarde chega e sua luta se torna menos uma conquista do que qualquer outra coisa –– simples tentativas de vencer o inevitável; de acalmar o silêncio com uma canção que tem fim, arranjando desculpas para as figuras sólidas da geometria da certeza e esperanças de não serem construídas os palácios subidos por outros. O corpo do rapaz treme tanto ao ver sua casa sendo violada na calada da madrugada resultando em sua última destruição que ele precisa fazer algo para acabar com isso.
A lua cheia já desponta radiante na sopa de estrelas. Por ser feriado, o caos urbano se concentra em pontos específicos e espalhados pela cidade, um tanto longe da casa do rapaz. Sem pensar mais de duas vezes, ele calça os sapatos e sai da casa, sem se preocupar em trancar ou, no mínimo, fechar as portas e janelas. Corre pelas ruas vazias se distanciando da sua, os passos ecoando e agitando o asfalto; já não sente o corpo, alimentado até o último canto pelo colosso, pelo leviatã. Vai para além, pensando em chegar lá o mais rápido que conseguia. Seja qual for aquilo que eles planejaram para ele, nada adiantaria mais, porque enquanto eles vêm com a morte, ele vai com o morto. E os pés do rapaz param diante de uma ponte que fica em cima de um grande viaduto que agora está triste por conta da falta de companhia naquele dia de folga. A formiguinha foi rasgada de dentro para fora pelos gigantes monstros e assim, apesar daquela ligação ter roubado a sua alma, não teriam nada mais dela: o rapaz olha para o viaduto e enxerga as estrelas do céu e ao olhar para cima, ele vê as ameaças, escolhendo então voar.
Na casa do rapaz, o telefone toca novamente.

Ninguém

| domingo, 17 de dezembro de 2017 | 0 comentários |
Um dia, sem pretensão, perguntei a mim mesmo
Qual era o sabor que tinha em ser o meu nome?
Não obtive resposta. Resolvi, então, pensar na razão do silêncio
E não obtendo pensamentos, quis então senti-la,
Assim, talvez, conseguisse algo. Não senti, nem consegui nada.
Deixei essa bobagem de lado, esqueci dela como quem lembra.

Descobri, depois de um tempo, que muito mais do que frasal,
As palavras eram físicas: o meu corpo, sem som e sem esforço,
Era a única resposta para aquela pergunta boba.
O que isso significa, eu não sei; mas pensei, senti e consegui algo.

Talvez por isso não podemos dialogar ou casar,
Nem sentar de frente a nós mesmos no jantar, com olhos nos olhos
E alternância dos barulhos no manuseio com os talheres.
Nossa companhia é verdadeiramente solitária.

Ali

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Faz mil anos que ouço de mim mesmo que vou mudar,
Mas o que muda são as coisas e não, não eu:
Os ponteiros do relógio se sedimentam em areia,
Transformando o tic-tac em ampulheta –– silêncio.
O copo alçado preenchido de água negra se esvazia
E novamente, e de novo, e outra vez, se enche.
Os gostos tornam-se vícios; os amores, dias atrás.

E eu ali, assistindo a tudo isso acontecer.
Tudo se esvaindo, na minha espera, sei lá do que.
Parece que nada aprendi dos momentos anteriores
Em que percebi o real brilho de uma preciosidade chamada calma;
O verdadeiro significado daquilo que tanto amo: perfeição!

(Perfeição é saber o nome de cada coisa que se tem,
Seus lugares e rostos; é saber usar as palavras que carrega,
Sem pressa de aprender outras, ainda que também as busque.
É a tranquilidade de desenhar nuvens, guarda-chuvas, casas,
Mesmo sabendo que elas serão precisas apenas no mês seguinte.
–– “Moço, falta muito para a época de chuvas fortes!”)

Aparentemente, os mortos não voltam à vida comum,
Logo, também não retornarão os séculos que eu já derramei.
E eu ali, em minha imperfeição, dizendo não mais entender as pessoas
Em seus desesperos forjados, acabo também confuso e me perco...
Ainda que eu soubesse costurar os retalhos passados,
Não saberia fazer deles uma colcha para as noites mais compridas.

Engraçado que há tempos penso nos maus-tatos de um antigo amor,
Mas, no fim, acabei por dizer sobre um problema mais meu
Do que de outra coisa. Preocupar-me com o que realmente importa:
Finalizar os nós soltos e cobrir os sonhos por mais longos que sejam,
Porque isso tudo dito deveria estar aqui há mais de mil anos
E o aprender a mudar parece estar justo ali, onde eu estou.

Insonícula rouxinol

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       Eu me acostumei há tanto tempo em adormecer tarde da noite que sinto como se eu não conseguisse mais fechar os olhos antes. Fico sem saber o que fazer, quando tento: procuro luzes que possam estar ligadas, portas mal-trancadas, torneiras pingando incansavelmente a serem fechadas; invento até uma fome que não está lá e aproveito para procurar insetos que estejam vagando pela casa. Assim, caso encontre, eu poderia dizer a alguém que me questione: “eu dormi tarde, porque tinha um rouxinol voando aqui dentro e me atrapalhava o sono”. É como se meu corpo transpassasse um diálogo em que o adulto diz à criança: “Vá logo para a cama! Essa não é a hora para os pequenos estarem acordados”. Aliás, talvez, nessa troca de frases silenciosas em que meu corpo é apenas retrato, quem fala não é o adulto, mas eu mesmo, ainda criança, porém crescido: “Durma mais cedo! Já se passaram os dias de diversão. Agora é hora do dever de casa...”. Tão difícil é deixar as brincadeiras na rua e voltar para casa; largar o livro e olhar o mundo; lavar os pés, as mãos, para que não se sujem nunca mais.
       Algo em mim mudou. Algo em mim não está o mesmo. Os ponteiros se adiantaram algumas casas; o ciclo girou mais uma vez. Círculos não têm inícios, nem fins, por isso não sei onde tudo começa e onde tudo termina: alguns diálogos, sejam pelas palavras, sejam pelos corpos, parecem obedecer a mesma lei. Talvez a concordância seja mais viciosa do que as discordâncias; talvez a continuidade esteja mais na criança do que no adulto. Quem sabe essa mudança, esse não estar o mesmo seja...
       “É momento de aprender um novo jeito de brincar”, disse o adulto para a criança. E eu, insistindo em escrever tudo isso, acabei por ficar acordado bem tarde outra vez.

Meditações

| domingo, 25 de junho de 2017 | 0 comentários |
Assim como um adulto quando estapeia uma criança,
Parecendo o ensolarado sol ao inflamar a delicadíssima pele,
A minha alma nos enredos e nas tramas das variadas vivências
Sofre com murros o que na verdade são simples toques.

Tão movediço é o meu interior e pequenos são os silêncios
Que caem das suas passarelas, sujam o chão e voam com o vento:
Mãos pegas pela distância e puxadas para perto de sua senhora.
De onde estou, a translação da vida não se esforça para disfarçar
Os muitos ruídos de suas engrenagens. Minha viciosa rotação,
Apesar dos belos efeitos (o rodopiar do vestido, o colorir das rimas,
Como uma bailarina ou felicidade), No fim, me tonteia e me acaba
Trocando as colunas das pernas pelos horizontes dos braços.

Queria eu ser mais adulto que o Tempo para colocá-lo de castigo,
Impedindo de passar, no mesmo instante que taparia os ouvidos
Do Mundo com algodões, com nuvens que estivessem sobrando por aí,
Para que a minha bagunça me organizasse e o meu barulho criasse canções.
Porque grandes foram as vezes que achei desejar a quietude ao redor,
Sem saber que em mim girava um pião querendo mais e mais cordas...

Mas também sou um gauche na vida, desses que são incapazes
De fazer ilusionismos baratos que acalmam o sufoco do peito.
E ele aperta; aperta como o primeiro laço feito no cadarço
Quando aprendido e que incomoda até o final do caminho.
A melancolia tem um pouco disso: estrondos íntimos que falam
Num linguajar mudo e a comoção que era uma lagoa, transborda
Em um oitavo mar. Há tantos barquinhos de papel escorregando
Por ele, que eu não sei quantas águas mais vão me dobrar.

Conversa solitária ou Reflexão

| sexta-feira, 3 de março de 2017 | 0 comentários |
       Estou sentado diante do espelho. O que eu queria era apenas alguém que me entendesse, sem nenhum algo a mais, nem um algo a menos. Alguém como eu, que ao me olhar sentisse e compreendesse a razão de seu próprio olho encaixar tão perfeitamente na cavidade do seu próprio crânio; que saberia da minha alma ou desalma quando eu levantasse a mão direita no momento que ele abaixasse a esquerda. Pare de me imitar! Não quero um eu invertido: quero um eu que, na inversão de ser outro, perceba os lados na mesma perspectiva que a minha vida. Isso quer dizer o mesmo que no instante em que eu perguntar – assustado – o que é isso que está a acontecer, não são respostas que quero ter, mas um também assombro ou nas vezes em que, trazendo problemas, a perdição for o caminho, eu não receba soluções, mas o enxergar o peso mesmo.
       O que eu esperava era que perante essas palavras, o reflexo se comovesse fora de mim, me dizendo que esperava o mesmo; que também queria alguém como ele. Na minha tímida infância, eu acreditava, dentre outras coisas, que os espelhos eram janelas de um outro mundo, em que as pessoas de lá, parecidas conosco, quando intuíssem ou fossem alertadas – não sei – de que iríamos ter um contato com algo reflexivo, deveriam fazer os mesmos movimentos que fizéssemos. Eles tinham total liberdade longe disso, mas ainda eram presos a nós. Difícil existência. Mesmo imaginando saber esse suposto segredo, nunca me foi confirmado ou desmentido e hoje, aqui, nem me vendo conversando solitário e sozinho como estou, o reflexo ousa me revelar a verdade. Difícil essa minha existência, sempre preso a esse reflexo.
       Deixei de dormir mais tempo, de molhar o corpo e o rosto, enfim, de cuidar de mim nos essenciais detalhes, tudo isso por me pedir algo assim... Ele também reflete as minhas ideias e sentimentos? As minhas doenças internas e profundidade? Ao menos me balance a cabeça, para que eu não me sinta um! Porque a dor de ser um é nunca poder ser dois. Talvez por isso os amores que batem à porta nunca me esperam abri-la e quando esperam, me tranco na parte de fora. Queria que as chaves estivessem aí, nesse mundo tão parecido com o meu, mas que tudo indica ser apenas um ilusionismo. Onde eu pertenço? Quem de nós é o reflexo? Impossível saber, do mesmo modo que a impossibilidade da chegada desse alguém que me entenda pelo fato de ser eu, mas uma exceção de mim. Sem querer eu quebro o espelho e não sei o que me sobra de meu.