Conversa solitária ou Reflexão

| sexta-feira, 3 de março de 2017 | 0 comentários |
       Estou sentado diante do espelho. O que eu queria era apenas alguém que me entendesse, sem nenhum algo a mais, nem um algo a menos. Alguém como eu, que ao me olhar sentisse e compreendesse a razão de seu próprio olho encaixar tão perfeitamente na cavidade do seu próprio crânio; que saberia da minha alma ou desalma quando eu levantasse a mão direita no momento que ele abaixasse a esquerda. Pare de me imitar! Não quero um eu invertido: quero um eu que, na inversão de ser outro, perceba os lados na mesma perspectiva que a minha vida. Isso quer dizer o mesmo que no instante em que eu perguntar – assustado – o que é isso que está a acontecer, não são respostas que quero ter, mas um também assombro ou nas vezes em que, trazendo problemas, a perdição for o caminho, eu não receba soluções, mas o enxergar o peso mesmo.
       O que eu esperava era que perante essas palavras, o reflexo se comovesse fora de mim, me dizendo que esperava o mesmo; que também queria alguém como ele. Na minha tímida infância, eu acreditava, dentre outras coisas, que os espelhos eram janelas de um outro mundo, em que as pessoas de lá, parecidas conosco, quando intuíssem ou fossem alertadas – não sei – de que iríamos ter um contato com algo reflexivo, deveriam fazer os mesmos movimentos que fizéssemos. Eles tinham total liberdade longe disso, mas ainda eram presos a nós. Difícil existência. Mesmo imaginando saber esse suposto segredo, nunca me foi confirmado ou desmentido e hoje, aqui, nem me vendo conversando solitário e sozinho como estou, o reflexo ousa me revelar a verdade. Difícil essa minha existência, sempre preso a esse reflexo.
       Deixei de dormir mais tempo, de molhar o corpo e o rosto, enfim, de cuidar de mim nos essenciais detalhes, tudo isso por me pedir algo assim... Ele também reflete as minhas ideias e sentimentos? As minhas doenças internas e profundidade? Ao menos me balance a cabeça, para que eu não me sinta um! Porque a dor de ser um é nunca poder ser dois. Talvez por isso os amores que batem à porta nunca me esperam abri-la e quando esperam, me tranco na parte de fora. Queria que as chaves estivessem aí, nesse mundo tão parecido com o meu, mas que tudo indica ser apenas um ilusionismo. Onde eu pertenço? Quem de nós é o reflexo? Impossível saber, do mesmo modo que a impossibilidade da chegada desse alguém que me entenda pelo fato de ser eu, mas uma exceção de mim. Sem querer eu quebro o espelho e não sei o que me sobra de meu.

Jardim suspenso

| sexta-feira, 27 de janeiro de 2017 | 0 comentários |
Árvore infrutífera, eu sou incapaz de lembrar os versos
Esquecidos de minha vida. Pergunto-me onde foi que os perdi...
Ainda que eu desse frutos, como me disseram ter alguns passarinhos e beija-flores,
Seriam eles pequenos quando devessem ser muito grandes
E sem sementes quando, na verdade, deveriam cocegar esperanças.

Os meus membros guardam uma força tão rígida, como as profundas raízes.
Isso equivale, no coração, a orvalhadas danças de desejos e sonhos,
Mas a minha fortaleza não amanhece as espalhadas gotículas almosas,
Nem a minha clareira consegue refletir os altivos raios de solidez.
Se a alma quer comer os fracassos e os dentes já não temem ser quebrados,
Por que, então, o meu corpo e a minha vontade permanecem cruzados, quietos?
Também não entendo como de um único ponto se expandiu toda origem
Ou como depois de um, surge o reinício maiúsculo, palavra, frase, história...

Já fui semente e há quem diga que por isso eu consiga mais do que compreender.
Enganam-se, porque eles não aprenderam que a flora humana é diferente da natural:
De fato, o tempo passa sobre tudo e os troncos engrossam, os ramos se folheam,
Mas isso nem sempre é o mesmo que o desatar da coragem e da vontade de altura.
Crescer é perda do controle, andança por várias direções saboreando da igual seiva
Tragicômica; é lugar onde sonhos são barganha para pungentes sacrifícios.

Quando fui olhado de baixo, me apercebi muito rente, apaixonado pelo chão,
Com os olhos bem vendados e os pés descalços de ossos. Assim, eu me arrasto
Pelo jardim suspenso por meus pais em minha homenagem, em meu maldizer:
Vinguei-me tranquilamente, sempre acompanhado dos cultivos e carinhos,
Mas, também, na lenta lentidão e custosamente entre pedregulhos e espinhos.
Ao chegar perto dos portões da dormência, bosque virgem às vistas humanas,
São os pesos das escolhas maquinais que me somem os supostos olhos adultos.
O maior das vertigens não é a falha do equilíbrio, mas tê-lo e ainda sim se recusar
A parar de girar: os braços soltos e a firmeza das pernas são a verdadeira prisão.
Nas florestas para além destes jardins, ao verem as diversas árvores caminhando,
Aquela que estiver fincada em seus próprios movimentos –– essa sou eu!

Incisão

| domingo, 11 de setembro de 2016 | 0 comentários |
Chegou feito trovões debaixo de sussurros
Dos dedos e cantos –– quase murros ––
De trovadores antigos, também amantes.
Noite após noite, pulavam os médios muros
A falar com aquele que logo estava adiante.

Este brincava que, num dia desses, todos eles
Voltariam com tristes notícias, graves anúncios,
Querendo e não querendo estragar os ênes e os éles
Entre eles. Brincares devotos viram prenúncios!

Metade de mim é não; já a outra, acha que fim,
Porque incerteza é olhos nos grãos de areia;
Porque não saber é insetos envoltos em teia;
Porque dúvida é alívio que nunca tem sim.

Desde então, meu corpo se mostra trêmulo, fraco
E desértica e plana está a minha pequenina alma.
Alguém me diga como volto para o distante íris-arco
Onde o medo, na plateia, era apenas uma palma.

Ah, como eu odeio...

| segunda-feira, 2 de maio de 2016 | 1 comentários |


















Ah, como eu odeio o amor! Como eu o odeio...
Esse que nunca se revela realmente para os meus olhos
Tudo o que tenho dele é o seu extremo receio
Sombras das mãos que se ninam, almas amantes, e seus sonhos

Ah, como eu odeio o amor! Como eu o odeio...
Esse que me mostra que meus braços estão sempre vazios
E o vejo apenas distante das ruas que costumo passar
Do outro lado, sorrindo, bebendo das águas de outros rios

Ah, como eu odeio o amor... Por ele não me amar
Procurei-o pelas terras dos seres humanos e ele não está lá
Encontrei e ouvi, somente, a fome de desejos vãos a gritar

Ah, como eu odeio o amor... Por não ouvir minhas orações
O que eu quero são corações, um que seja, e não muitos corpos
Mas ele só vaga nos lugares onde as pessoas formam multidões.

Dentes

| domingo, 27 de março de 2016 | 0 comentários |
Minhas vidraças se perceberam no reflexo do cristalino espelho
E elas não se reconheceram em seu próprio portador, tão abstrato.
Quanto despertar isso me causou! –– Desci dos meus curtos ombros
Como um satírico rei despojado do trono sobre a sua cabeça.

Quando eu saí do meu concreto corpo, o cinza cobria do céu até a mim.
Era uma manhã bonita para alguém que não era tanto...
De tudo ao redor, o forasteiro de toda aquela beleza era eu.
Então, a luminosidade me perguntou usando a voz dos meus pensamentos:
“Querem todas as estrelas, tão pequenas à distância, serem sóis?”

Sem nunca ter experimentado planetas à minha volta, não respondi.
Admirei, apenas, a dor que tudo aquilo causava em minha extensão
–– Sou Corpo Celeste errante, sem casa, sem luz própria e sentido!
Porque a Simetria não constitui as cordas da minha geometria.

Em algum nó da minha história, contaram-me que era uma profecia
Mas quem recebe os meus queridos sacrifícios é uma antiga mitologia.

O gelado material da carruagem que eu subo sozinho todos os cinco dias
Queima, em preparação, o meu coração com as quentes companhias de viagem
E como um jogo de sobrevivência, imagino-me dentro de uma fantasia infantil:
Tanto me torno invisível e impalpável, quanto me coloco correndo sobre o vento
E com magia nas mãos, não é necessário vigiar as direções –– eu tenho magia nas mãos!

Entretanto, se as crianças são casulos para os impérios futuros,
Por que a minha também não haveria de se quebrar ao meio?
Um trópico mais do que imaginário me cruzou em dois átrios,
De um lado, descia arterial inteligência; doutro, dentes venosos subiam
Maltratados, com o mesmo maltrato que o Tempo causa nos Homens:
Tijolos que, perfurados, não guardam segredos ou cartas, mas a voz afeminada;
Estrada de ouro que brilho algum exala, nem coisa alguma compra.
Que admiráveis pés caminharão sobre os secos e trincados lábios?
Que fortes mãos deixarão pegadas nas vilosas florestas que se derrubam nas brisas?

A violência do meu perfume já não basta para ser disfarce à decomposição
Que vagarosamente denuncia o pecado e a santidade do abandono da carne.
Talvez por isso, não sei, o sal dos meus suores tenha se tornado poeira e cinza,
Inventando de fazer da minha pele um móvel quase quieto e insensível aos toques.
Eu que, assim, a mim mesmo me deserto, ainda não me acostumei com as névoas,
Nem com as tempestades, sinto cócegas nos olhos, nas costas e no rosto, que sangram.
São espinhos juvenis que nascem das rosas apertadas lá onde o chorar era falar;
Feridas, estas, que até hoje mais do que parecem que jamais vão se curar.

Sou capital talhada apenas por vielas envidraçadas demais para ambiciosos pés.  
Sou jardim enfermo, bem frágil, sem mérito da colheita por saudáveis mãos.

O mal nomeado

| segunda-feira, 14 de março de 2016 | 0 comentários |













Eram parecidas com gotas de insignificância,
Sobre a minha cabeça, facilmente convertidas em brincadeiras chuvosas.
De igual maneira que não se desconfia que a visita venha morar,
Pensei que os estigmas iriam embora depois das lágrimas.
Ainda permanecem em carne viva, como se sorrissem aos céus e ao sol
Aquele sorriso e aquele penteado que não mais posso fazer com os meus lábios e pensamentos.

É infinito, se eu não me recordo dos segundos em que as estações se transformam,
Apenas não me esqueço dos movimentos despreocupados que antes eu fazia.
Deles, nada mais guardo do que as suas boas noites e os elogios.
Aquém disso, os olhos continuam com as belezas eleitas nos tempos infantis.
Uma sorte dentre vários azares de vida para com este invisível e pobre sujeito;
Riqueza única que a morte, condoída, sentiria compaixão em abandonar sob a terra.

Quis muito que ela viesse: me retirasse de casa, deixasse os outros à vontade...
Eu caminharia pelas fronteiras sem limites e pelas praias de nada e coisa alguma,
Longe dos destinos indemarcados, mas tão logo previsíveis, como as ordens e as leis
Que o todo de muitos membros sente os efeitos das suas imprecisas imperfeições.

Nenhuma revelação me foi entregue com leves batidas na porta,
Também, nenhum recado me foi sussurrado delicadamente aos ouvidos.
Todos falam do meu cadáver como se eu já não soubesse da decadência.
O que está por vir me é sentido na pele, para que, então, queimá-la nos alheios olhos?
Desgastada o bastante para ser um fino tecido encobrindo o meu embaraço.
Não sabendo eu se mais pelos nós abraçados outrora ou por não saber como se abraçaram...

O espelho olha mais para mim do que eu mesmo, porque os olhos são, também, espelhos.
Por essa razão, talvez, os meus passos sejam firmes e os fios bem alinhados
Tento disfarçar com a mesma dor com que tento nomear isso que não sei
E, por não saber, me desfaço com a mesma alegria com que se desfaz o meu corpo.

Acordei por detalhes e por desastres, dei nome àquilo que não tinha.
Só espero que os sonos não demorem a chegar, porque ainda que nomeado,
Eu grito, choro, clamo, despejo o suspiro e tenho medo...

Hipermetropia

| sábado, 12 de março de 2016 | 0 comentários |
       Mais um dia igual aos outros, tanto para ele, quanto para elas. Isso não era problema, nem visto como um fardo por eles, ainda mais porque gostavam do que faziam: elas se alegravam de sair todos os dias da bolsinha delicada que sempre eram colocadas para descansar depois de um dia inteiro de trabalho, enquanto ele podia exercer um pouco, primeiramente, do dom lhe dado gratuitamente pelos céus, como também a sua curiosidade terrena de saber da vida das pessoas; além de conseguir com isso, claro, ganhar o seu sustento que, modéstia à parte, estava melhor do que muitos trabalhos ditos sérios por aí. Apesar de alguns clientes serem assíduos, a maioria eram pessoas desesperadas por respostas ou simplesmente céticas-crentes que desejavam ouvir aquilo que esperavam de outro que parecia ser uma autoridade mais apropriada para a tomada de uma escolha; ah, não esqueçamos também do terceiro grupo que seria o dégradé entre o primeiro e o segundo. De todos eles, o prazer das histórias contadas ali, sejam por meio dos diálogos anteriores ou posteriores às jogadas ou nas próprias, era único e era isso que fazia de cada novo dia, por mais rotineiro que fosse, ser importante.
       Naquele dia, as cartas, com seus poderes distantes de seres descobertos pelas nossas pobrezinhas ciências, desde muito cedo, lá pelas três da madrugada, já começaram a mandar suas vibrações ao endereço do companheiro de jornada para alertá-lo. Elas tinham força o bastante para prolongar o sono dele, deixa-lo largado lá dentro da sonolência até que fosse o horário, se estivesse trabalhando, de voltar para a sua casa, mas quem acha que ter força é tudo nesta vida, mal conhece as leis desta mesma vida e as que norteiam os esforços, os conflitos e os repousos: ao tentarem fazer isso, elas perceberam uma força inversa e de intensidade mais forte que as suas. Pensaram entre si e conversaram resolvendo ir pelos caminhos mais sutis para tentar evitar o que estava por vir, por nada lhes impedirem. Começaram pelos sonhos: entraram por aquelas portas doidas e tentaram mandar as mensagens de maneiras mais claras possíveis, porém, como sabemos, os materiais dos sonhos são inconscientes demais, escuros demais para suportarem holofotes tão desavergonhados nos segredos de toda a gente. Acabou, então, delas, as mensagens, aparecerem muito muxoxas e de tão chatos que se tornaram os sonhos, a mente irritadiça já resolveu por acordar o sonhador. Essa jogada de mestre, que na verdade foi mais de sorte, não tinha sido planejada pelas cartas, mas foi talvez a mais bem-sucedida de todas, porque o sonhador, que não era mais sonhador e sim realista, não tinha o costume de acordar no meio da sua noite de sono. Sentou-se na cama, coçou os cabelos e os olhos e procurou o relógio. Quatro e meia. Será que isso quer dizer alguma coisa?, perguntou mentalmente o rapazote sem dar muita atenção às dicas das cartas. Com um pouco de exagero, é admissível quase imaginar pequenas criaturinhas acenando sobre a cômoda que ficava abaixo do marcador de horas, mas ele, não dando a mínima, trocou o lado do travesseiro, a posição da cabeça e voltou a dormir.
       Com toda a certeza, é bem mais fácil abrir os olhos quando se tem muitas coisas a serem feitas e antes mesmo de você ter terminado de ler a primeira parte dessa frase, ele já havia arrumado a cama, o quarto, feito o café e se vestido. Depois de passar a água adocicada com o pó, no momento em que ele jogou o coador de pano na pia, porque iria lavar tudo só minutos últimos de sair de casa, a borra de café formou figuras premonitórias que, se fossem olhadas como partes de um corpo atraente, teriam evitado muitos males do mundo, como logo veremos. Lá da loja, as cartas se chatearam pela segunda tentativa frustrada, mas a esperança, ao contrário do dito popular, não era a derradeira a morrer só para os seres carnais, mas para os etéreos também. Ele entrou no carro e, costumeiramente, ligou permitindo que as músicas de sua preferência tocassem. Por acreditar nos fluídos ectoplasmáticos, ele não gostava de misturar a energia de sua casa, onde circulava diversões, brigas, lamentos e prazeres, com as energias místicas que manuseava em seu trabalho, por isso preferia alugar um pequeno espaço no centro da cidade para isso. Sua casa não ficava muito longe do local, mas por alguma razão, que sabemos ser a quarta tentativa das cartinhas, porque a terceira tem a ver com os assuntos cantarolados nas músicas, o carro não estava andando tão rápido como ele gostaria e para piorar, os sinais vermelhos pareciam ficar assim justamente de tanto gargalharem do coitado do proletário. Vai, carrinho, vai que já estou atrasado para a primeira cliente, dizia ele em voz baixa para o automóvel que, nem novo, nem velho, não deveria passar por esse constrangimento, colocando sua potência em dúvida; Vai, cartinhas, vai que vocês conseguem, pensavam os anjinhos da guarda, quase como se meditassem, porque Deus não poderia ver que eles torciam para outras forças que não as do destino, ou seja, as dEle, que ficavam em cima dos veículos protegendo cada um dos seus proprietários. Para quem tem asas, quem senta é rei ou superior: o Altíssimo e o Baixíssimo estão aí para não me fazerem de mentiroso e os anjos e os demônios que me confirmem, sempre a trabalhar e nunca descansando, ajudando ou atrapalhando os humanoides. Ao chegar na loja, estacionou o carro do outro lado da rua e a cliente, aos prantos, já esperava sentada no banco de mármore que ficava ao lado da entrada. Abrindo a porta, ouve-se o tilintar do sininho que serve como despertar dos ânimos: as janelas se abrem, as velas e os incensos são acessos, o copo de água enchido entre os dois e as cartas, aborrecidíssimas, sobre a mesa. O dia finalmente começou, não é mesmo?
       A primeira foi embora depois de uma hora de consulta; veio, então, a segunda, os terceiros, um casal que queria saber o sexo do bebê que esperavam e se ele viria com saúde, o quarto e igualmente a sequência já sabida. Algumas sessões duravam menos de quinze minutos, já outras ultrapassavam por demais as duas horas. Nada fora do normal. Mas decorrendo todas elas, algo estava acontecendo que o fazia, por ainda não conseguir entender, perder a quietude mental necessária para uma boa leitura. Colocadas as cartas para responder as questões dos clientes, as intuições que provinham para a interpretação dos arcanos não pareciam fazer sentido com as respostas anteriores ou com os jogos já abertos sobre a mesa. Isso aconteceu todas as vezes daquele dia. Aqui vai um pequeno desvelamento dos segredos ocultos das adivinharias: as cartas são os instrumentos mais portadores de recados que você pode imaginar, isso quer dizer simples e diretamente que elas são mexeriqueiras natas, porém, quando eu falo isso, quero mesmo é alertar que muito além delas revelarem as respostas das perguntas formuladas, elas revelam também as das perguntas não formuladas como também o que quiser saber das pessoas próximas aos curiosos que perguntaram. E eu tanto diria mais que direi: não é apenas das exposições dos pedintes de respostas que as cartas se solidificam, mas também de seus interpretadores. Está tudo ali, basta saber ler. Esse detalhe escapa dos terceiros olhos mais iniciantes aos mais renomados nomes das artes ocultas; esquecem-se que do mesmo modo para conhecer um objeto perfeitamente é preciso mais do que olhá-lo, mas tocá-lo e girá-lo para pode descrever todos os seus lados, decifrar os traços das cartas é espionar o passado, o futuro e o presente de uma pessoa, de uma família e do mundo. Em uma mesma tiragem, é facilmente visto o sexo do bebê, o primeiro beijo dele, da mãe, do pai, sem precisar dizer do adultério do segundo marido da tia do rapaz que lê as cartas para a mãe do bebê e a situação financeira do país quando ele, já adulto, tiver filhos. Se a leitura ficava difícil demais para ser feita, tirava-se mais cartas da pilha para auxiliar, mas quando nem isso era o bastante, ele usava do conhecimento de psicologia que tinha adquirido na extensa exposição que teve ao gênio humano no decorrer da sua prática profissional para se livrar do cliente. Às vezes ele tinha vontade de jogar na cara dos pais, que lhe exigiam tanto um diploma, isso de quem precisa de formação quando se tem contato real com pessoas reais; é assim que se obtém conhecimento verdadeiro, meus caros, e não em sala de aula. Antes de pensar em começar, terminava sempre deixando de lado e dando risadinhas secas para eles.
       Gritos silenciosos foi o que as cartas deram quando, ao terminar a última consulta, ele ia em direção a caixinha onde estava a bolsa delicada de término da jornada diária. Elas não se conformavam que das cinco tentativas de avisá-lo, cinco foram as perdas de paciência. Agora chegamos em uma ocasião extrema, de absoluta tensão, em que as cartas precisam pensar ligeiramente para, perdoem-me o trocadilho, tirarem a carta guardada na manga. De imediato já sabiam o que fariam; aliás, apenas uma delas faria alguma coisa ali: em uma atitude suicida e nada egoísta, uma carta específica do baralho se jogaria no meio do caminho para que ele, por favor, tenha piedade de nós, não desentendesse o recado. Solitariamente a carta soltou as mãozinhas das suas irmãs que choravam, porque, imaginem, ficariam elas descompassadas ao faltar uma numeração da sequência de tão bom gosto. Foi-se, querida e pela eternidade lembrada por seu sacrifício, de braços abertos ao encontro do chão. Nenhuma de suas cartas havia caído antes, mas isso é normal, pensou ele, e agachou-se depressa para pegá-la e a limpou na própria camisa, mal compreendendo ele que acabara de limpar um cadáver que tinha dado o seu suspiro espiritual a ele. Porém, péssima notícia, nada disso significava coisa alguma, porque o que ocorreu foi ele colocar a carta-defunta junto às demais e pronto, vamos para casa!
       O copo d’água foi esvaziado, os incensos e as velas apagados e as janelas fechadas, terminando com a entrada sendo trancada depois do tilintar do sininho permitindo o descansar dos ânimos. Mesmo se as cartas não estivessem desistido, elas sabiam, como desde o princípio, que já não tinha mais jeito de evitar o inevitável, mas elas se sentiam na obrigação de tentar ajudar o seu companheiro de encarnação. Não foi dessa vez, por isso decidiram cobrir os olhos, as bocas e os ouvidos, porque não queriam ser noticiadas com aquilo que previram. Quem diria que as cartas, que de tudo sabem e de todos conhecem, também desejariam a custo ter o controle de tudo? No fim da tarde, como a maioria das lojas acabam fechando, aquela parte do centro ficava quase deserta; quando o rapaz estava no meio da rua indo para o carro, o destino, semelhante a uma criancinha travessa, passou correndo por ele e assoprou as chaves que segurava nas mãos. Elas caíram. Agachando-se para pegá-las, as peças soltas durante todo o dia se juntaram em um quadro perfeito: no sonho, os vários corpos desfigurados, comidos pelos corvos, enquanto corujas levavam os muitos esqueletos que se esbarravam; a foice e o expecto formados na borra do café; os temas de despedida das músicas no carro e sua lentidão; as intuições incompatíveis com algumas cartas abertas e o específico arcano XIII deitado no chão da loja. A epifania, que durou no máximo quinze segundos, veio acompanhada da sensação que todas essas coisas foram obras de energias amigáveis, conhecidas. Ele soube que foram as suas companheiras e então o seu corpo foi arremessado metros à frente por um veículo.
       Morrer não era o problema; morrer nunca será o problema. A dificuldade surge para os que ficam. Por exemplo, o homem que atropelou o rapaz é um cidadão de bem, que nunca descumpriu de seus deveres e nunca cometeu, até agora, nenhum delito. Agora ele está estarrecido e com lágrimas escorrendo fluentemente pelo rosto, não conseguirá superar esse ocorrido, perderá o emprego por causa da depressão desenvolvida e sua mulher irá se separar dele pela insustentabilidade da relação. O rapaz, mesmo ganhando razoavelmente bem, gastava mais do que tinha e quem irá resolver essas pendências terá que ser os seus pais que, há muito tempo, já se achavam sofridos por não sustentarem um filho vivo, pensem na estranheza que será amparar os confortos de um filho morto; dolorosa dor essa de perder um filho que não tem nome. Sem contar que uma dessas dívidas é do próprio local onde o rapazinho trabalhava fazendo suas consultas, porque habituado a pagar o aluguel no término do mês, morrendo matematicamente no coração mensal, ao menos os dias usados do lugar tinham que ser pagos. O locatário, o motorista e os pais, vítimas reais da morte do moço vidente que não se apercebeu da própria morte. Resolvendo aparecer de estopim, como os não convidados das festas mais populares fazem, uma fila de carros crescia e crescia mais cada vez que o tempo corria; uma multidão não parava de se formar ao redor do corpo e do carro, que parecia ser o único público que se alegrava com o espetáculo. Eu poderia não contar, mas como não me cabe esconder, um dos passageiros de um táxi congestionado tem um voo que está saindo nesse minuto que iria levá-lo para discutir a descoberta que fez sobre a cura de uma grave doença; na aglomeração, está um pai que, na empolgação de ver o cadáver, perdeu a hora de buscar o filho que chora e se traumatizará. A cura será divulgada daqui dias mais tarde, caso nada de pior aconteça, e o tal filho esquecível poderá desenvolver aptidões artísticas ou psicopáticas, não sabemos, da única coisa que somos sapientes é que tudo isso poderia ser evitado se o jovenzinho tivesse sido mais atento.