Botão caído

| terça-feira, 17 de fevereiro de 2015 | 0 comentários |
Dedicado à musicalidade scalênica

Quando eu cheguei, tão timidamente como uma criança
Que teme o castigo de voltar para a casa ao dia seguinte,
Os corpos borbulhantes já dançavam na superfície da noite.
Por esses lados da cidade, as cerimônias começam muito cedo:
As geladas poções se misturam com as fumaças xamanistas
Formando, assim, uma grande ondulação aonde o vindo, retorna;
E agora indo, segue igual caminho, mas é além do antes e vice-versa

Diversificadas orquestras desfilariam dentro do festivo recinto
No entanto, somente de uma eu queria conhecer a marcha;
Com tanto apetite instrumentivo, eu me permiti voar até lá.
Dias atrás, o convite já me tinha permitido adentrá-lo
Semelhante a uma profecia improferida por tamanha incerteza.
Eu vendi a minha presença e os meus ouvidos e simplesmente fui...
Se o meu sono não cobrisse o sol com negros e espessos cílios
Talvez eu estivesse de pé a ver a multidão à luz do cair vespertino

Desatados os obstáculos divinos à porta do suposto paraíso
(Nenhuma pouca idade, nem metais impreciosos e afins),
Tive como companheira inseparável a fluorescente liberdade
Em seu verde que se atava, para sempre, ao direito braço.
Então, me foi revelado o pequeno mundo dentro do mundo,
Onde o preto é branco e onde o pandemônio é melodia;
Eu quis ficar, mesmo com o anúncio, entregue a prévias horas,
De que a banda que eu esperava já teria marchado o carnaval

Desacreditei o destino e me esqueci do que haveria perdido
E descobri que eram felizes aqueles que não culpam os amigos.
Logo, ao serem abertos os sons, me ancoraram que quem cantava
Era o esperado que eu já nunca mais esperançava visitar:
Eu avistei a terra que nunca me fora prometida ser cumprida
Diante dos meus olhos. E diante dos meus olhos eu a tinha!

Enquanto as guitarras ressonavam na caixa óssea que me guardo,
A minha pele servia de tambores para as inquietas baquetas.
Cada entoar contrabaixo me tornava, de longe, o mais alto
Sendo que a voz ruiva, ah, parecia quase cantar só para mim
 –– Parecia quase cantar só para o todo do mundo ouvir!

As despedidas me pousaram feito um inesperado puxão
Que me arrancou o botão do caríssimo terno que eu vestia
E, também, do peito que eu carregava na queridíssima rosa.
Da mesma forma que me inclinei a encontrar o botão no chão,
Achei a coragem profunda na superfície do instante presente
Rendendo-me a encarar o rosto ruivo da voz ruiva que fez de mim, aceno.

Roda das dores

| domingo, 1 de fevereiro de 2015 | 0 comentários |

Que saudades tenho, eu, de abrir o círculo no chão
E de me sentir, assim, quase um embrião
No núcleo de um ventre que é real como o vento,
Tendo lá a escrita de todo o meu intento

Gritar aos céus em fórmula de oração,
Aos deuses à restauração de tudo que eu invento.
Milagre é quando o homem se torna o convento
Unindo profano e sacro em comunhão

Quisera, eu, sentir novamente aquela esperança,
Ter as fieis mãos preenchidas pelos pais,
Igual fui nos tempos que me chamavam de criança.

Crescem-se as épocas, perde-se a plena paz:
E doídos por todos os mundanos que nos vêm
Esquecemos que doemos para o Mundo também!