Abraços, beijos, silêncio e tragédia

| quarta-feira, 13 de outubro de 2010 | |
        Era certo. Tudo estava diariamente no mesmo lugar; as coisas aconteciam da mesma maneira como todos os dias. Ele e seus sonhos rudes eram trazidos à vida com a ajuda de sua amada. Sempre assim: as mãos carinhosas dela acariciavam os seus pensamentos e depois que a vida abria os olhos dele, beijava em sua boca e dizia que o amava. E com uma rapidez preguiçosa,  ele colocava os pés no chão frio, sorria para ela e ia direto para o banho. Ela havia se acostumado com isso...
        Depois de toda a casa ser preparada para a saída dos dois, a separação era inevitável. Ela trancava a porta, olhava para ele acreditando que aquele dia seria diferente. Ele tomaria a atitude. Não, ele não tomaria a atitude. Então ela de um jeito tímido, mas confiante, o abraçava com muita força. Não ao ponto de deixá-lo sem ar, mas para sentir o coração dele bater perto do seu. De início ela sempre fechava os olhos, mas era forte de mais - e até prazeroso - a curiosidade de ver os braços dele pesando em sua frágil estrutura. Qualquer cansaço era plausível naquela situação. E para terminar, um beijo e um novo "te amo" eram entregues a ele. Ele retribuía com um silêncio.
        Passos separados e estavam todos ocupados. Ela sempre chegava no trabalho atrasada, os abraços e beijos distribuídos pela casa até a entrada lhe ocupava muito tempo. Mas era para o bem dele... Ela já não tinha certeza disso. Sentava às presas em sua solitária mesa e resolvia o que os papéis lhe pediam. E o relógio parecia querer que ela saísse logo dali, mas antes disso tinha que escrever o que suas lágrimas queriam; elas não podiam sorrir ali. Então quando seus amigos vieram chamá-la para mais um almoço de conversas engraçadas, ela disse que podiam ir. Ela precisava apenas de um tempo e depois os alcançaria.
        Pegou papel, caneta, alguns sentimentos e começou a escrever para o portador de seus abraços e declarações. Não sei ao certo o que ela escreveu, lembro apenas das seguintes palavras, que eram as finais de uma folha completa: "Não sei se o que faço para você é o bastante, mas faço o meu melhor. Eu queria apenas que você me beijasse como te beijo e dissesse que me ama como te digo. Mesmo sendo uma mentira, queria ouvir isso de você. Ao menos uma vez; uma vez antes de tudo isso ter um fim. Deixo aqui mais um Te amo não respondido. Te amo". Terminado de escrever, deixou a marca de sua boca no papel. O batom tinha cheiro de verdade.
        O engraçado era que ela nunca pegava a sua agenda, muito menos antes de ir almoçar. Mas assim ela fez, colocando dentro a carta dobrada. Ela segurava a agenda perto do seu coração.
        Tentou conter a sua leveza atual, estava andando um pouco apressada demais para ela. Deixou a sua atenção e um pouco de tristeza em sua mesa. Talvez por isso ela foi atropelada sem menor piedade por um carro mais leve que ela. Quem sabe ele não tenha deixado um pouco mais de atenção e tristeza em sua mesa... Com a mesma espontaneidade que o sangue surgia de seu descanso, uma multidão descontrolada se formava em volta da agenda lindamente colocada ao lado dela. E apesar da carta sentir vergonha de aparecer, metade de sua alma estava exposta. Um grande espetáculo onde só existia uma artista...
        Em meio a multidão, sem entender o que estava acontecendo, surge o segundo artista. O portador de todo o amor dela. Ele correu para tentar salvá-la daquele pesadelo; era visível lágrimas em seus olhos. E contra a vontade dele, mas a pedido dela, ele leu, clara e velozmente, a carta. Era lindo o sorriso no rosto dela. Uma mistura de amor e orgulho por conseguir aguentar o tempo que ele precisava.
        Quando a mente dele decifrou a última palavra daquela sincera carta, ela já estava adormecida. Com um sorriso no rosto. E tudo que ele conseguia fazer era abraçá-la e dizer "Eu te amo"...

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