Incisão

| domingo, 11 de setembro de 2016 | 0 comentários |
Chegou feito trovões debaixo de sussurros
Dos dedos e cantos –– quase murros ––
De trovadores antigos, também amantes.
Noite após noite, pulavam os médios muros
A falar com aquele que logo estava adiante.

Este brincava que, num dia desses, todos eles
Voltariam com tristes notícias, graves anúncios,
Querendo e não querendo estragar os ênes e os éles
Entre eles. Brincares devotos viram prenúncios!

Metade de mim é não; já a outra, acha que fim,
Porque incerteza é olhos nos grãos de areia;
Porque não saber é insetos envoltos em teia;
Porque dúvida é alívio que nunca tem sim.

Desde então, meu corpo se mostra trêmulo, fraco
E desértica e plana está a minha pequenina alma.
Alguém me diga como volto para o distante íris-arco
Onde o medo, na plateia, era apenas uma palma.

Ah, como eu odeio...

| segunda-feira, 2 de maio de 2016 | 1 comentários |


















Ah, como eu odeio o amor! Como eu o odeio...
Esse que nunca se revela realmente para os meus olhos
Tudo o que tenho dele é o seu extremo receio
Sombras das mãos que se ninam, almas amantes, e seus sonhos

Ah, como eu odeio o amor! Como eu o odeio...
Esse que me mostra que meus braços estão sempre vazios
E o vejo apenas distante das ruas que costumo passar
Do outro lado, sorrindo, bebendo das águas de outros rios

Ah, como eu odeio o amor... Por ele não me amar
Procurei-o pelas terras dos seres humanos e ele não está lá
Encontrei e ouvi, somente, a fome de desejos vãos a gritar

Ah, como eu odeio o amor... Por não ouvir minhas orações
O que eu quero são corações, um que seja, e não muitos corpos
Mas ele só vaga nos lugares onde as pessoas formam multidões.

Dentes

| domingo, 27 de março de 2016 | 0 comentários |
Minhas vidraças se perceberam no reflexo do cristalino espelho
E elas não se reconheceram em seu próprio portador, tão abstrato.
Quanto despertar isso me causou! –– Desci dos meus curtos ombros
Como um satírico rei despojado do trono sobre a sua cabeça.

Quando eu saí do meu concreto corpo, o cinza cobria do céu até a mim.
Era uma manhã bonita para alguém que não era tanto...
De tudo ao redor, o forasteiro de toda aquela beleza era eu.
Então, a luminosidade me perguntou usando a voz dos meus pensamentos:
“Querem todas as estrelas, tão pequenas à distância, serem sóis?”

Sem nunca ter experimentado planetas à minha volta, não respondi.
Admirei, apenas, a dor que tudo aquilo causava em minha extensão
–– Sou Corpo Celeste errante, sem casa, sem luz própria e sentido!
Porque a Simetria não constitui as cordas da minha geometria.

Em algum nó da minha história, contaram-me que era uma profecia
Mas quem recebe os meus queridos sacrifícios é uma antiga mitologia.

O gelado material da carruagem que eu subo sozinho todos os cinco dias
Queima, em preparação, o meu coração com as quentes companhias de viagem
E como um jogo de sobrevivência, imagino-me dentro de uma fantasia infantil:
Tanto me torno invisível e impalpável, quanto me coloco correndo sobre o vento
E com magia nas mãos, não é necessário vigiar as direções –– eu tenho magia nas mãos!

Entretanto, se as crianças são casulos para os impérios futuros,
Por que a minha também não haveria de se quebrar ao meio?
Um trópico mais do que imaginário me cruzou em dois átrios,
De um lado, descia arterial inteligência; doutro, dentes venosos subiam
Maltratados, com o mesmo maltrato que o Tempo causa nos Homens:
Tijolos que, perfurados, não guardam segredos ou cartas, mas a voz afeminada;
Estrada de ouro que brilho algum exala, nem coisa alguma compra.
Que admiráveis pés caminharão sobre os secos e trincados lábios?
Que fortes mãos deixarão pegadas nas vilosas florestas que se derrubam nas brisas?

A violência do meu perfume já não basta para ser disfarce à decomposição
Que vagarosamente denuncia o pecado e a santidade do abandono da carne.
Talvez por isso, não sei, o sal dos meus suores tenha se tornado poeira e cinza,
Inventando de fazer da minha pele um móvel quase quieto e insensível aos toques.
Eu que, assim, a mim mesmo me deserto, ainda não me acostumei com as névoas,
Nem com as tempestades, sinto cócegas nos olhos, nas costas e no rosto, que sangram.
São espinhos juvenis que nascem das rosas apertadas lá onde o chorar era falar;
Feridas, estas, que até hoje mais do que parecem que jamais vão se curar.

Sou capital talhada apenas por vielas envidraçadas demais para ambiciosos pés.  
Sou jardim enfermo, bem frágil, sem mérito da colheita por saudáveis mãos.

O mal nomeado

| segunda-feira, 14 de março de 2016 | 0 comentários |













Eram parecidas com gotas de insignificância,
Sobre a minha cabeça, facilmente convertidas em brincadeiras chuvosas.
De igual maneira que não se desconfia que a visita venha morar,
Pensei que os estigmas iriam embora depois das lágrimas.
Ainda permanecem em carne viva, como se sorrissem aos céus e ao sol
Aquele sorriso e aquele penteado que não mais posso fazer com os meus lábios e pensamentos.

É infinito, se eu não me recordo dos segundos em que as estações se transformam,
Apenas não me esqueço dos movimentos despreocupados que antes eu fazia.
Deles, nada mais guardo do que as suas boas noites e os elogios.
Aquém disso, os olhos continuam com as belezas eleitas nos tempos infantis.
Uma sorte dentre vários azares de vida para com este invisível e pobre sujeito;
Riqueza única que a morte, condoída, sentiria compaixão em abandonar sob a terra.

Quis muito que ela viesse: me retirasse de casa, deixasse os outros à vontade...
Eu caminharia pelas fronteiras sem limites e pelas praias de nada e coisa alguma,
Longe dos destinos indemarcados, mas tão logo previsíveis, como as ordens e as leis
Que o todo de muitos membros sente os efeitos das suas imprecisas imperfeições.

Nenhuma revelação me foi entregue com leves batidas na porta,
Também, nenhum recado me foi sussurrado delicadamente aos ouvidos.
Todos falam do meu cadáver como se eu já não soubesse da decadência.
O que está por vir me é sentido na pele, para que, então, queimá-la nos alheios olhos?
Desgastada o bastante para ser um fino tecido encobrindo o meu embaraço.
Não sabendo eu se mais pelos nós abraçados outrora ou por não saber como se abraçaram...

O espelho olha mais para mim do que eu mesmo, porque os olhos são, também, espelhos.
Por essa razão, talvez, os meus passos sejam firmes e os fios bem alinhados
Tento disfarçar com a mesma dor com que tento nomear isso que não sei
E, por não saber, me desfaço com a mesma alegria com que se desfaz o meu corpo.

Acordei por detalhes e por desastres, dei nome àquilo que não tinha.
Só espero que os sonos não demorem a chegar, porque ainda que nomeado,
Eu grito, choro, clamo, despejo o suspiro e tenho medo...

Hipermetropia

| sábado, 12 de março de 2016 | 0 comentários |
       Mais um dia igual aos outros, tanto para ele, quanto para elas. Isso não era problema, nem visto como um fardo por eles, ainda mais porque gostavam do que faziam: elas se alegravam de sair todos os dias da bolsinha delicada que sempre eram colocadas para descansar depois de um dia inteiro de trabalho, enquanto ele podia exercer um pouco, primeiramente, do dom lhe dado gratuitamente pelos céus, como também a sua curiosidade terrena de saber da vida das pessoas; além de conseguir com isso, claro, ganhar o seu sustento que, modéstia à parte, estava melhor do que muitos trabalhos ditos sérios por aí. Apesar de alguns clientes serem assíduos, a maioria eram pessoas desesperadas por respostas ou simplesmente céticas-crentes que desejavam ouvir aquilo que esperavam de outro que parecia ser uma autoridade mais apropriada para a tomada de uma escolha; ah, não esqueçamos também do terceiro grupo que seria o dégradé entre o primeiro e o segundo. De todos eles, o prazer das histórias contadas ali, sejam por meio dos diálogos anteriores ou posteriores às jogadas ou nas próprias, era único e era isso que fazia de cada novo dia, por mais rotineiro que fosse, ser importante.
       Naquele dia, as cartas, com seus poderes distantes de seres descobertos pelas nossas pobrezinhas ciências, desde muito cedo, lá pelas três da madrugada, já começaram a mandar suas vibrações ao endereço do companheiro de jornada para alertá-lo. Elas tinham força o bastante para prolongar o sono dele, deixa-lo largado lá dentro da sonolência até que fosse o horário, se estivesse trabalhando, de voltar para a sua casa, mas quem acha que ter força é tudo nesta vida, mal conhece as leis desta mesma vida e as que norteiam os esforços, os conflitos e os repousos: ao tentarem fazer isso, elas perceberam uma força inversa e de intensidade mais forte que as suas. Pensaram entre si e conversaram resolvendo ir pelos caminhos mais sutis para tentar evitar o que estava por vir, por nada lhes impedirem. Começaram pelos sonhos: entraram por aquelas portas doidas e tentaram mandar as mensagens de maneiras mais claras possíveis, porém, como sabemos, os materiais dos sonhos são inconscientes demais, escuros demais para suportarem holofotes tão desavergonhados nos segredos de toda a gente. Acabou, então, delas, as mensagens, aparecerem muito muxoxas e de tão chatos que se tornaram os sonhos, a mente irritadiça já resolveu por acordar o sonhador. Essa jogada de mestre, que na verdade foi mais de sorte, não tinha sido planejada pelas cartas, mas foi talvez a mais bem-sucedida de todas, porque o sonhador, que não era mais sonhador e sim realista, não tinha o costume de acordar no meio da sua noite de sono. Sentou-se na cama, coçou os cabelos e os olhos e procurou o relógio. Quatro e meia. Será que isso quer dizer alguma coisa?, perguntou mentalmente o rapazote sem dar muita atenção às dicas das cartas. Com um pouco de exagero, é admissível quase imaginar pequenas criaturinhas acenando sobre a cômoda que ficava abaixo do marcador de horas, mas ele, não dando a mínima, trocou o lado do travesseiro, a posição da cabeça e voltou a dormir.
       Com toda a certeza, é bem mais fácil abrir os olhos quando se tem muitas coisas a serem feitas e antes mesmo de você ter terminado de ler a primeira parte dessa frase, ele já havia arrumado a cama, o quarto, feito o café e se vestido. Depois de passar a água adocicada com o pó, no momento em que ele jogou o coador de pano na pia, porque iria lavar tudo só minutos últimos de sair de casa, a borra de café formou figuras premonitórias que, se fossem olhadas como partes de um corpo atraente, teriam evitado muitos males do mundo, como logo veremos. Lá da loja, as cartas se chatearam pela segunda tentativa frustrada, mas a esperança, ao contrário do dito popular, não era a derradeira a morrer só para os seres carnais, mas para os etéreos também. Ele entrou no carro e, costumeiramente, ligou permitindo que as músicas de sua preferência tocassem. Por acreditar nos fluídos ectoplasmáticos, ele não gostava de misturar a energia de sua casa, onde circulava diversões, brigas, lamentos e prazeres, com as energias místicas que manuseava em seu trabalho, por isso preferia alugar um pequeno espaço no centro da cidade para isso. Sua casa não ficava muito longe do local, mas por alguma razão, que sabemos ser a quarta tentativa das cartinhas, porque a terceira tem a ver com os assuntos cantarolados nas músicas, o carro não estava andando tão rápido como ele gostaria e para piorar, os sinais vermelhos pareciam ficar assim justamente de tanto gargalharem do coitado do proletário. Vai, carrinho, vai que já estou atrasado para a primeira cliente, dizia ele em voz baixa para o automóvel que, nem novo, nem velho, não deveria passar por esse constrangimento, colocando sua potência em dúvida; Vai, cartinhas, vai que vocês conseguem, pensavam os anjinhos da guarda, quase como se meditassem, porque Deus não poderia ver que eles torciam para outras forças que não as do destino, ou seja, as dEle, que ficavam em cima dos veículos protegendo cada um dos seus proprietários. Para quem tem asas, quem senta é rei ou superior: o Altíssimo e o Baixíssimo estão aí para não me fazerem de mentiroso e os anjos e os demônios que me confirmem, sempre a trabalhar e nunca descansando, ajudando ou atrapalhando os humanoides. Ao chegar na loja, estacionou o carro do outro lado da rua e a cliente, aos prantos, já esperava sentada no banco de mármore que ficava ao lado da entrada. Abrindo a porta, ouve-se o tilintar do sininho que serve como despertar dos ânimos: as janelas se abrem, as velas e os incensos são acessos, o copo de água enchido entre os dois e as cartas, aborrecidíssimas, sobre a mesa. O dia finalmente começou, não é mesmo?
       A primeira foi embora depois de uma hora de consulta; veio, então, a segunda, os terceiros, um casal que queria saber o sexo do bebê que esperavam e se ele viria com saúde, o quarto e igualmente a sequência já sabida. Algumas sessões duravam menos de quinze minutos, já outras ultrapassavam por demais as duas horas. Nada fora do normal. Mas decorrendo todas elas, algo estava acontecendo que o fazia, por ainda não conseguir entender, perder a quietude mental necessária para uma boa leitura. Colocadas as cartas para responder as questões dos clientes, as intuições que provinham para a interpretação dos arcanos não pareciam fazer sentido com as respostas anteriores ou com os jogos já abertos sobre a mesa. Isso aconteceu todas as vezes daquele dia. Aqui vai um pequeno desvelamento dos segredos ocultos das adivinharias: as cartas são os instrumentos mais portadores de recados que você pode imaginar, isso quer dizer simples e diretamente que elas são mexeriqueiras natas, porém, quando eu falo isso, quero mesmo é alertar que muito além delas revelarem as respostas das perguntas formuladas, elas revelam também as das perguntas não formuladas como também o que quiser saber das pessoas próximas aos curiosos que perguntaram. E eu tanto diria mais que direi: não é apenas das exposições dos pedintes de respostas que as cartas se solidificam, mas também de seus interpretadores. Está tudo ali, basta saber ler. Esse detalhe escapa dos terceiros olhos mais iniciantes aos mais renomados nomes das artes ocultas; esquecem-se que do mesmo modo para conhecer um objeto perfeitamente é preciso mais do que olhá-lo, mas tocá-lo e girá-lo para pode descrever todos os seus lados, decifrar os traços das cartas é espionar o passado, o futuro e o presente de uma pessoa, de uma família e do mundo. Em uma mesma tiragem, é facilmente visto o sexo do bebê, o primeiro beijo dele, da mãe, do pai, sem precisar dizer do adultério do segundo marido da tia do rapaz que lê as cartas para a mãe do bebê e a situação financeira do país quando ele, já adulto, tiver filhos. Se a leitura ficava difícil demais para ser feita, tirava-se mais cartas da pilha para auxiliar, mas quando nem isso era o bastante, ele usava do conhecimento de psicologia que tinha adquirido na extensa exposição que teve ao gênio humano no decorrer da sua prática profissional para se livrar do cliente. Às vezes ele tinha vontade de jogar na cara dos pais, que lhe exigiam tanto um diploma, isso de quem precisa de formação quando se tem contato real com pessoas reais; é assim que se obtém conhecimento verdadeiro, meus caros, e não em sala de aula. Antes de pensar em começar, terminava sempre deixando de lado e dando risadinhas secas para eles.
       Gritos silenciosos foi o que as cartas deram quando, ao terminar a última consulta, ele ia em direção a caixinha onde estava a bolsa delicada de término da jornada diária. Elas não se conformavam que das cinco tentativas de avisá-lo, cinco foram as perdas de paciência. Agora chegamos em uma ocasião extrema, de absoluta tensão, em que as cartas precisam pensar ligeiramente para, perdoem-me o trocadilho, tirarem a carta guardada na manga. De imediato já sabiam o que fariam; aliás, apenas uma delas faria alguma coisa ali: em uma atitude suicida e nada egoísta, uma carta específica do baralho se jogaria no meio do caminho para que ele, por favor, tenha piedade de nós, não desentendesse o recado. Solitariamente a carta soltou as mãozinhas das suas irmãs que choravam, porque, imaginem, ficariam elas descompassadas ao faltar uma numeração da sequência de tão bom gosto. Foi-se, querida e pela eternidade lembrada por seu sacrifício, de braços abertos ao encontro do chão. Nenhuma de suas cartas havia caído antes, mas isso é normal, pensou ele, e agachou-se depressa para pegá-la e a limpou na própria camisa, mal compreendendo ele que acabara de limpar um cadáver que tinha dado o seu suspiro espiritual a ele. Porém, péssima notícia, nada disso significava coisa alguma, porque o que ocorreu foi ele colocar a carta-defunta junto às demais e pronto, vamos para casa!
       O copo d’água foi esvaziado, os incensos e as velas apagados e as janelas fechadas, terminando com a entrada sendo trancada depois do tilintar do sininho permitindo o descansar dos ânimos. Mesmo se as cartas não estivessem desistido, elas sabiam, como desde o princípio, que já não tinha mais jeito de evitar o inevitável, mas elas se sentiam na obrigação de tentar ajudar o seu companheiro de encarnação. Não foi dessa vez, por isso decidiram cobrir os olhos, as bocas e os ouvidos, porque não queriam ser noticiadas com aquilo que previram. Quem diria que as cartas, que de tudo sabem e de todos conhecem, também desejariam a custo ter o controle de tudo? No fim da tarde, como a maioria das lojas acabam fechando, aquela parte do centro ficava quase deserta; quando o rapaz estava no meio da rua indo para o carro, o destino, semelhante a uma criancinha travessa, passou correndo por ele e assoprou as chaves que segurava nas mãos. Elas caíram. Agachando-se para pegá-las, as peças soltas durante todo o dia se juntaram em um quadro perfeito: no sonho, os vários corpos desfigurados, comidos pelos corvos, enquanto corujas levavam os muitos esqueletos que se esbarravam; a foice e o expecto formados na borra do café; os temas de despedida das músicas no carro e sua lentidão; as intuições incompatíveis com algumas cartas abertas e o específico arcano XIII deitado no chão da loja. A epifania, que durou no máximo quinze segundos, veio acompanhada da sensação que todas essas coisas foram obras de energias amigáveis, conhecidas. Ele soube que foram as suas companheiras e então o seu corpo foi arremessado metros à frente por um veículo.
       Morrer não era o problema; morrer nunca será o problema. A dificuldade surge para os que ficam. Por exemplo, o homem que atropelou o rapaz é um cidadão de bem, que nunca descumpriu de seus deveres e nunca cometeu, até agora, nenhum delito. Agora ele está estarrecido e com lágrimas escorrendo fluentemente pelo rosto, não conseguirá superar esse ocorrido, perderá o emprego por causa da depressão desenvolvida e sua mulher irá se separar dele pela insustentabilidade da relação. O rapaz, mesmo ganhando razoavelmente bem, gastava mais do que tinha e quem irá resolver essas pendências terá que ser os seus pais que, há muito tempo, já se achavam sofridos por não sustentarem um filho vivo, pensem na estranheza que será amparar os confortos de um filho morto; dolorosa dor essa de perder um filho que não tem nome. Sem contar que uma dessas dívidas é do próprio local onde o rapazinho trabalhava fazendo suas consultas, porque habituado a pagar o aluguel no término do mês, morrendo matematicamente no coração mensal, ao menos os dias usados do lugar tinham que ser pagos. O locatário, o motorista e os pais, vítimas reais da morte do moço vidente que não se apercebeu da própria morte. Resolvendo aparecer de estopim, como os não convidados das festas mais populares fazem, uma fila de carros crescia e crescia mais cada vez que o tempo corria; uma multidão não parava de se formar ao redor do corpo e do carro, que parecia ser o único público que se alegrava com o espetáculo. Eu poderia não contar, mas como não me cabe esconder, um dos passageiros de um táxi congestionado tem um voo que está saindo nesse minuto que iria levá-lo para discutir a descoberta que fez sobre a cura de uma grave doença; na aglomeração, está um pai que, na empolgação de ver o cadáver, perdeu a hora de buscar o filho que chora e se traumatizará. A cura será divulgada daqui dias mais tarde, caso nada de pior aconteça, e o tal filho esquecível poderá desenvolver aptidões artísticas ou psicopáticas, não sabemos, da única coisa que somos sapientes é que tudo isso poderia ser evitado se o jovenzinho tivesse sido mais atento.

Poema in-verso

| quarta-feira, 6 de janeiro de 2016 | 0 comentários |
Nesses horários em que não posso, nem consigo, dizer,
eu fico pensando como acontece a troca da palavra pelo interno
e semelhante à certeza, plana como os cantos dos corações ––
construção essa, aliás, bem comum em todas as casas que visitei ––
que escurece com o encaixe perfeito de um outro objeto qualquer e estranho.

In-versamente, já conduzi as letras a um mundo onde todas são sentidos,
quase sem nenhuma febre, sangue coagulado ou nós de cócegas.
Perdoem-me as crianças, mas... Quando mais preciso de minha virtù,
ou seja, torcer as batidas e as substâncias para que haja a alquimia do verbo,
a fortuna me toma pelos braços e me conduz a dança como o cavalheiro que ela é,
tornando-me infante que ainda não aprendeu a versar com os próprios passos.

Fora do corpo, onde tudo isso se derrama ou em sons ou em imagens,
nada desses processos importa, existentes da mesma forma que estrelas ao dia.
Eu, que sinto todos esses moinhos girando cada respirar antigo em novo,
até agora não consegui, nem pude, deixar de pensar nas trocas que acontecem.
Ontem, data tão distante que parece próximo, eu desversava o inverso que era meu,
mas, doentemente, parece que desaprendi a tecer e hoje sou daquilo que a ação repousou
a buscar, noutros verbos e noutros tecidos, o que também pode ser deste pronome.

O depois me ensinou a in-versar aquelas coisas que, antes, eram versos que viam,
moravam e, mais cansados do que quando chegavam, partiam por mim e por aí.
Mas se posso ser infiel, ao menos uma vez, aos meus queridos inversos, serei:
os re-versos viajantes que pernoitavam aqui, tornavam a estadia mais permanente.

Pequena viagem em um breve relato

| segunda-feira, 4 de janeiro de 2016 | 0 comentários |

       A Sorte sentou-se ao meu lado, na direita e na esquerda, tão cuidadosamente que se eu estivesse distraído teria pensado que este dia era o meu último e chegada a hora de ir embora, por fim. Sem muito tempo para algo mais, a bagunça ficaria como está: embaixo o céu, acima o chão e no meio os astros, claro, se invertendo confusamente como sempre fizeram, do mesmo jeito que fariam se eu estivesse aqui. Não façam disso um segredo: anunciem aos moradores daqui! Proclamem a todos o meu antigo corpo e mostrem como eu não pertenço mais a ele, nem sequer a eles! Aos ouvidos amigos, gritem que festejem, porque agora eu me instruí a voar, mas aos inimigos, sussurrem que chorem, porque acabam de perder a outra margem, tão imperiosa para que um rio se equilibre. Como a Morte ainda não estava preparada para ir comigo, muito menos para vir a uma conversa amigável, coube a mim o ofício de continuar a ser um fruto em maturação na Árvore da Vida. Quando a iminência da minha queda deixou de ser os nós das raízes lá do alto, foi que a Sorte se permitiu a descoberta pelos seus próprios olhos. Diferente de Suas familiares, como a Morte ou a Esperança, que facilmente chegam e nos levam o que querem, para terras sem leis, horizontes e sem fronteiras, Ela é aquela que chega devagar, mostrando-se, de repente, na percepção dos detalhes brilhantes do dia, na conquista do desejo não conhecido ou no olhar que se direciona aos caminhos atrás e se nota que eles também se direcionam, irrelutantes, até a sua precisa e atual medida. Satisfação... Eu estou satisfeito com o meu sabor desses dias, mesmo sabendo que o núcleo deste perfume é impossível de compor a cantata de minha ciência e, por isso, ainda o procuro; e por isso, ainda posso procurá-lo.
       Tanto imagino, pelos ouvidos que avistam até melhor quando se enterram por debaixo das epidermes, quanto aprendi, porque me avisaram silenciosamente e me ensinaram pouco a pouco, que a Sorte não brinda as suas crianças por merecimento, mas diz as lendas e os mitos que é por uma desconhecida afinidade. Mas quem dos respirantes já não merece a redenção por simplesmente sentir que sente a própria respiração? Em alguns momentos, eu me entristeço por meu rosto não ter carregado traços firmes o bastante para o agrado instantâneo dEla –– é notável, quando se anda pelas ruas, as linhas que Ela desenhou e as que desdenhou ––, noutras fases, surge um tédio quase apaixonável em razão de haver mundos que, apesar de cobiçados, nunca existirão ao redor de minha sombra e do ser que a produz e a contém; entre momentos e episódios, há intervalos em que, fora a tristeza e a tediosa amante, dou-me conta da história de mim mesmo, sendo eu o Fim e o Começo. Não é que deixo de observar que existam vidas mais verdes, violetas e laranjas que a minha, que parece não passar dos tons azuis, vermelhos e amarelados, nem de admitir que, por demais, essas composições são mais próximas de um paraíso do que as subsistentes manchas em mim, mas pude entender as decadências que experimentei antes e que me surgem hoje como amargos chocolates, da mesma maneira que me orgulho do inferno que me forjou, tornando-me lugar onde as chamas são substância e a forma, o crepitar delas.
       Toda origem termina quando a madeira e a faísca se casam: é o primeiro passo da genealogia dos universos singulares. De uns que se tornam dois, se expandem para um terceiro ou quarto e disso se segue até quando o Infinito for capaz de nos dizer, sem saber, eu, se somos nós, mesmo, capazes de ouvi-Lo. Cada lenho e cada fagulha criam, ao dançarem, naturezas únicas que crescem até se transmutarem em outros lenhos e fagulhas, para se explodirem em novas naturezas únicas: apesar de todos saberem o que deve ser feito em tal jogo, ninguém desvelou as suas profundas regras; ninguém sabe qual, nem o preço da falta a ser dividido, muito menos o número de cúmplices que se juntarão à próxima fotografia. Ela aparece aqui, em todos nós, mas depois de darem à luz que desejavam, as fogueiras, vendo as suas criações, suavizam o calor e, assim, tornam-se Lares. E entre paredes gigantes, sob tetos ondulados e sobre um firme chão, os Deuses instruem as crianças sobre a grandeza dEles através da pequenez delas. Esses presentes, que são encontrados no barulho dos olhares, nas repetições dos gestos, nas nuances das vozes, não são entregues apenas com as pétalas do sim e da ternura, mas também com os espinhos do não e do castigo, do mesmo modo com os acertos e erros dos mesmos Deuses, porque está no destino dEles mostrar que vitórias e fracassos são lábios de uma igual boca. Além de tudo isso, eu ainda tenho algumas muitas e eternas coisas a agradecer aos Deuses que são e regem esta casa, à minha héstia e ao meu ares, que tantos sacrifícios, às vezes singelos, outros, pomposos, colocaram em meu altar. Nos frágeis outonos, época em que os pequenos ouros secam e se derramam à espera dos pés alheios que os quebrarão, sem esquecer, por gentileza, dos sobreviventes que são levados para bem longe pelos não tão inocentes ventos sazonais, Eles me enchiam a casa de brinquedos, livros, de amores e diamantes, desses que saem do coração, vêm a morar na cabeça e mesmo que não os lembremos em tamanho, estão lá, transluzindo-se nos valores que nossos dedos espontaneamente contam, semelhantes aos dias primaveris que vivemos juntos, mas que não posso voltar, porque nesses tempos, eu era deveras pouco de mim. Dessas brincadeiras perigosas, o que restou foram apenas os perigos irreversíveis, porém, ao contrário das Grandes Guerras que se aproximavam, as fantasias dadas a mim não me serviam como uma cegueira branca, mas sim para me apontar que, escolhendo eu ser todas ou nenhuma delas, eu teria abraços divinos que me acolheriam como os templos fazem aos desesperados. Se hoje sou o semideus que me tornei, é porque tive Deuses que trabalharam a lustrar a minha alma o quão bom quanto conseguiram, para que eu me deparasse com a minha excêntrica radiação. Em particular, nunca vejo por completo os mistérios que são planejados pelo acaso, mas acho que este, quem escreve, deu certo ou, se não, ao menos tentará realizar o que acha. Para que a minha héstia pudesse ouvir os meus girassóis e o meu ares pudesse ler as minhas batalhas, eu seria um dia beija-flor, a contar segredos que em meus jardins levantam, e em outro, soldado, a transformar lágrimas e dores em suor e raiva, porque é triste saber que minha Deusa não ouvirá as canções que canto, enquanto o meu Deus não lerá as cartas que conto. É justamente porque os meus Deuses me deram o fôlego e as chances, que pude respirar com a delicadeza de uma epidemia incurável e arriscar com a tranquilidade de um pássaro que busca pousar no horizonte.
       As temporadas de serenadas e fantasias solitariamente acompanhadas entram na película quando ela já está elástica o suficiente para ir em direção a um outro e torná-lo parte de si mesmo. Bem-vindo à juventude, querido Amor! Mas saiba que os primeiros sonhos acordados de um entardecido nunca são esquecidos por ele, como também acontece quando as últimas realidades adormecidas se libertam e os carinhos ensolarados que eu sonhava receber só foram interrompidos por um real eclipse total. Então, soube eu que aquela estrela maior que se desenhava em mim, junto com todos os atares, tinha azares e lindo era o Sol Negro, mas incapaz de sustentar uma completa mortalidade. Uma gota é o que separa a cura do veneno e de tanto admirar o altivo, desdenhei o meu próprio caos, que alimentava os anos-e-luzes que subiam, mal sabendo eu que era aquela nuvem disforme, e não a solar e perfeita circunferência dourada, que oferecia, muito mais do que chuva para esta terra se molhar, um espírito a esta fria mecânica se esquentar. Por mais crível que pareça, as minhas mãos não se desfizeram quando colapsei o meu secreto miolo em verdade ao Sol; em vez disso, o desci da coluna que era sustentada às minhas costas, colocando a sua estátua onde eu acabara de marcar um rastro: é o meu apolo, sempre fará os passados de minhas lembranças ficarem com ares de afeição, mas quando eu espiei sinceras curiosidades sob o seu material, nada mais perto do que as minhas aspirações apareceram. Foi assim que eu acordei das românticas arestas e vi o Amor se despedir de mim, sem saber se aquilo que vivi era amor por alguém ou amor pelo Amor. Por fim, cresci como quem anoitece, descobrindo a diversão e o fado que é pintar as próprias iluminuras. Nunca, na história desta fruta, se terá outra vez a fluidez daquela primogênita paixão, porque ao expulsar a transcendência de tais sentimentos, são as carnes e o sangue que colorem a surginte supernova. É um novato princípio, logo se faz necessários imaculados algoritmos para se montar os eternos enigmas e suas peregrinas esfinges: onde era candura que se faça rubro! E o que quer que seja que se arrastava nos palácios celestiais, passou a caçar dentro das cidades mundanas. Ao contrário do que os ascetas pregam, existe uma espécie de beleza rara nessas poluições urbanas e eu, por duas vezes, que nem mesmo acreditava de fato na existência dessas paisagens, apesar delas aparecerem aqui e ali em todas as calçadas, e improvavelmente ser escolhido para compô-las, fui envolto e eleito por fumaças menos justas do que aquela moeda de duas caras. Elas germinaram quase do mesmo lugar, mas em distintos calendários; eram como peripécias de uma aposta que eu havia semeado com o Diabo: caso eu conseguisse a desublimação dos fantasmas, induzindo-os a afáveis presenças, queimaria, ele, as minhas palavras e a partir de então, se ouviria de mim a fonética dos Homens, porém, se eu fizesse dos gregários mais e mais invisíveis, ao ponto de cumprir a maior e mais certa de minhas teóricas profecias, venceria o dito vencido e, como mérito, ganharia os campos inférteis para as promessas seladas com beijos. Quando dei por mim, eis que já haviam se arrastado dois meses e não precisou de mais uma boda para que a primeira fumaça se dissipasse às minhas memórias. Antes de chegar a essa entropia, me perdi em algum segundo entre o anúncio da minha maldição, dita como quem tem a certeza do término –– e eu tinha! –, e a minha assinatura no sim ao começo. Aí, talvez, é que eu tenha errado: o não poderia me ter evitado muitos desgastes fibrosos importantes para se alcançar as idades maiores e, quem sabe, a companhia, os doces e demais coisas tenham me feito uma pessoa melhor. Nenhuma boba criatura veio tirar o prazer revelando isso, mas independente de se ter alegrias ou desventuras, eu tive que sair da Casa dos Dez, quando, do lado avesso, avistei no canto do ciclo, o Diabo lagrimejando pela perda do jogo. Os leves ferimentos não submergiam as gargalhadas que as certezas derramavam em minhas atitudes: ele, humilde e humilhado, me pedia para tentar outra vez e eu, ingênuo, aceitei, com a confiança de alguém que, ao abrir a porta, sabe que não gostará da surpresa visita. E aconteceu, de repente, como uma miragem que se permitiria entrar, a segunda fumaça construiu-se diante de mim. Tamanha era a perfeição do cenário que os aromas costuravam que eu, em menos de uma semana, já pensava que poderia salvar os anos que nunca viriam e os povos que se condensavam naqueles predicados. Quatro músicas contínuas de declarações e sorrisos tocaram e, a partir daí, os harmônicos instrumentos de outrora começaram a desafinar, até que na sétima apresentação, os instrumentistas se rasgaram de seus papeis, abandonando as cordas e as chaves a lamentarem sozinhas. Houve silêncio; desde quando eu estava preso aos ecos sem retorno, houve apenas silêncio, e me libertei da segunda fumaça quando ela me libertou das suas mentirosas magias, evanescendo tão foragido quanto a sua erupção. Penso que existem modos mais nobres de ser covarde, mas as mentiras de alguns, mais do que as suas verdades, dizem melhor a respeito das intenções do que dos medos. Assim eu soube que nunca tinha tido nada além de coisa alguma daquela fumaça, nem partículas inaladas ou qualquer desmaiar. Talvez pelo decreto de ter sido o último ensaio, tentei correr para ainda guardar algum movimento das imagens, porque apesar de ambas as supernovas terem químicas similares, essa teve as sequelas mais esperançosas, mas, afinal, aceitei a minha preciosa conquista, enquanto o Diabo se conformava com a sua definitiva perda. Ninguém, a não ser eu, poderia provar de modo tão belo, o quão desonesto e bélico é as colisões e as rendições, as entregas sem destinatários, os mortos e os feridos, dos votos que os amantes anunciam ao se entrelaçarem e, reconhecendo isso, os campos devastados da aposta foram dados sem demora. Longe de ser um pagamento infortuno, a aridez deste solo faz próspero os demais e em rápidos instantes, já me reconheci como pertença do deserto, porque ele sempre foi meu e por isso, agora, eu posso ganhar os indesbraváveis impérios.
       Nesse ínterim, onde estou é, ainda, o âmago das colinas que o meu trabalho irá erguer com a argila, a água salina e a paciência, minguando essa quase planície –– embora com tantas depressões ––, enchendo-a de valiosos relevos para quando as asas do meu ângulo forem consistentes a sustentar o meu pessimismo corpo, eu ultrapasse os limites dos limites e me lembre, saudosamente, mas sem nunca ter me esquecido, do chão que me deito e o faço de lar, temperado lar. Todas as coisas se desmembram em durações e se as imaginarmos divididas em dois continua, para melhor compreendermos, sem nos atermos as pequenas eternidades e às grandes finitudes, enquanto decorre a disposição em uma, o cansaço em outra já me espera. Mas como essas mesmas coisas se cumprimentam pelo relógio –– e tudo são consanguíneos e números, em que o norte está no leste e estes no sul, formando juntos o oeste e assim do início ao para sempre ––, não existem querelas entre elas, apenas os ponteiros descompassados que denunciam as canseiras que trazem e as euforias por aquilo que o desejo já trouxe do porvir. E eu, que por muitíssimo tentei fugir dos clichês e dos acertos, sou o centro fixo dos ponteiros e de suas respectivas setas, e caio na evidência de que não é fácil, até porque a única blasfêmia sem um herege é que assim seria, mas também não impossível, tanto que ainda aqui estou. Dentre o zero e o um, muitos atos e desatos hão de ser lapidados, como os momentâneos proêmios de preguiças que ardem as visões e quenturas que escorrem sei lá se do peito ou do coração. Uma fragrância que mesmo há horas em nossas sensações, um bocado gelado que se desfaz na boca permanentemente, que não deixamos a nós de presenciá-la, que não deixamos a nós de vivenciá-lo, é isso que se parece a quietude das ferramentas ao soltarmos as causas e nos refugiarmos nos efeitos.
       Festejei assim como o que holocausto e holocausto assim como o que festejei. Aquele corpo que não pode mais se chamar de meu, fez-se ascendência e, ironicamente, é um pouco deste que teve a experiência da altura. A cerimônia fúnebre, que se espalhava de animados para inanimados semelhante a neblina nas longas noites, isto é, ao se dissolverem no breu, indivíduos e coisas voltam se descortinando as janelas e apercebem que elas sim é que foram cortinadas durante o sereno, realiza-se no interior deste novo organismo na ausência do meu anterior. Todos testemunham, dos amigos aos inimigos, em menor ou maior grau, mais cedo ou mais tarde, tão quanto pelas notícias ou meramente pelas suas implicações, que corro como um rio sem margens e que me voou, flutuando, nem muito superior, sequer muito inferior, porque, afinal, o curso das correntezas agora é um tanto mais que repouso, uma já alameda de pedregulhos, são as próprias ondas esculpidas nos batimentos de um vazio a outro e os meus braços ainda estão a se movimentar como e com os astros.
       A Sorte levantou-se, sem nenhuma lasca de fadiga ou desapontamento, e mostrou um sorriso que me falava “nossas visões e nossas aortas se cruzam formando uma só história; a Árvore da Vida que não sou eu, torna-me e logo torna-te, mas nada disso quer dizer que somos o mesmo fio de um mesmo enredo, tanto ela comigo, quanto eu contigo. A qualquer dos dias, eu posso vir a faltar, você pode vir a não mais me ver, então não dê a licença comum a um pedido, o deixe que não passe, o tranque à porta do seu lado, lembre-se: quando essa pandora abrir, me enxergue no fundo que é transparente; a curva que existe em toda reta, o belisco que falha em todo afago. Não é que não estejamos lá, talvez seja apenas um pouco de timidez da nossa parte e, da sua, indisposições dos globos oculares”. Quem sabe como um último ato, o Seu rosto refletiu o meu e sabendo eu do perigo dEla me desaparecer, escapar da moldura oval de minhas vigilâncias e nem me mandar cartas contando sobre as demais hospedagens, balancei os dedos da erguida palma para mostrá-La todos os velames que me puxaram com os Suas e outras auras para cá, ao mesmo tempo que A agradecia. Eu não poderia querer nada diverso do que foi; nada poderia ser diverso do que foi: a brisa que sempre se esquiva no paladar, as feições que se desentendem e não se dão bem, a ignorância dos Deuses, os amares esfumaçados, os afazeres árduos que, de uma maré a outra, ficam rarefeitos por vezes; enfim, todas as folias, dessas com februras mais lamentosas às mais risonhas, que movem os redemoinhos a girantes, porque sou irmão de tais milagres e, como eles, eu não poderia ser o que sou a não ser tendo sido o que fui, naquilo onde tudo de respostas podem ser dadas e a figura que respondo sou eu. São os efêmeros que não passam, os recordados, e não as recordações, que dilaceram um sentido ao rodopio. Sim, ainda que vitral e mutante, um sentido. Relato este que não foi inventado por mim, mas me contado por Ela para que nunca me perca que il était une fois, a Sorte e eu.