Quadro verde

| quinta-feira, 17 de abril de 2014 | 0 comentários |
Todas as manchas se minguaram diante de mim – eis a magia!
Movendo-se como as nébulas no alto das árvores
Invisíveis por natureza, estavam verdes por uma questão de proximidade
E próximo, eu, estava do querer das manchas

Ao dançarem, parecia que me queriam nu, de mente translúcida, de olhos de vidro
Sentado sobre o meu delírio, enxerguei-me em um ponto central
–– Era a língua das águas engolindo as águas
E a ventania se encontrava na sonolência

“Corram! Corram!”, diziam assim, as manchas
Mas de todos os homens e deuses – o que eu sou? – , só a mim cabia a maldição

Aos poucos, o que era completo foi se despedindo, dando-me as costas
Épocas chuvosas acabam aí, quando a neve consegue rabiscar a escura pedra
Até que a sede de antigas figuras nasce em terras inférteis.

Na doença

| domingo, 13 de abril de 2014 | 0 comentários |

Quando nós ficamos doentes, não nos lembramos dos tempos limpos
Assim acontece também com a Vida: ao estarmos vivos, não lembramos
Dos bilhões e bilhões de anos na escuridão, quando não existia o lá fora, nem o aqui dentro
Seria a Vida uma doença? –– Nossa maior e única e verdadeira doença?

Então nós criamos tantas histórias, tantos caminhos e tantas certezas
Apenas para nos distrairmos com nós mesmos, enquanto vamos para lugar nenhum
Como acontece também com a Dor: não A sentindo, não lembramos
De toda a Sua profundidade e substância –– E outra vez:
Um corte na mão esquerda, os pés sangrando e o coração em partes

Tão frágeis, nós somos, sobre estas linhas entre dois nadas
Alguém já conseguiu contar quantas dessas nossas certezas são mentiras?
Ensinaram, ensinam e nos ensinarão somente aquilo que as línguas se acostumaram a dizer
É o que acontece também com o Amor: ao procurá-lo, não lembramos
De todo o resto que sentimos, mas do que nos cochicharam sobre Ele
E se algum dia, quando eu estiver garoto, o meu beijo encontrar um outro beijo igual a mim?

Sobre cravos nos caminhos

| quarta-feira, 9 de abril de 2014 | 0 comentários |


















Você me pergunta se quero conversar sobre alguma coisa
Como se me abrir fosse mais fácil do que entregar um falso: "não, estou bem!"
Minha resposta te pede caminhos que possamos seguir
Não tendo certeza, você me entrega corações, belezas e cravos

Então por favor, comece falando, você é bom nesses assuntos
Essas estradas pesam os meus pés, cansam meus olhos e eles lacrimejam
Porque você não sabe, mas todas as vezes que nasço de novo, eu quero morrer
Porque você não sabe, mas todas as vezes que me vejo no espelho, eu desejo a cegueira
Para que eu finja ter o sorrir tão feliz quanto as pessoas em dias ensolarados
Porque você não sabe, mas todas as vezes que sinto o aroma dos cravos
Sim, eu temo cair na luminosa e escura natureza humana

No fim, ninguém percebe que eu sempre digo muito pouco sobre mim
Mas não se preocupe, há apenas um boulevard entre nós.

Casa Nova

| domingo, 6 de abril de 2014 | 0 comentários |

                                                                          “O poeta faz-se vidente através de um longo, imenso e
                                                      sensato desregramento de todos os sentidos.” – Arthur Rimbaud

       “Eu tenho que passar todas as minhas evidências de um lado para o outro; é como se fosse uma mudança para uma casa nova”, eu disse a ela. Demorei a minha idade em um segundo para que eu entendesse que aquilo que estava acontecendo era muito além de uma pobre comparação para facilitar a imaginação desacostumada de uma mente quieta.
       Nos últimos anos –– desde quando a queda me caiu e me fez subir, subir, subir... ––, eu percebi, e disse isto aos meus amigos, que alguns Sinais se desvestem para mim antes de responderem às incertezas do Amanhã; eles riram, por não me acreditarem, e eu rio, por ter os olhos tolos demais para sentirem as Formas em movimento e se chamando para formarem os próximos tijolos da realidade.  É sempre depois de derramadas que as Silhuetas se colocam de joelhos em oração de misericórdia à minha confiança, tornando-me, sem qualquer interesse ou pergunta, um vidente do passado, um órfão do meu próprio eu. De novo, eu pressinto a aranha pela teia, o hábito pelo dia anterior, os vinte e um pelos vinte; mas atrás das reais coisas ainda resta um fogo vertiginosamente adocicado me dizendo aromas roxos.  Não há nenhum jeito de prová-los –– talvez a minha língua esteja incapaz de me ensinar a enumerá-los para fora ––, porque os acordes dessa pintura dançam apenas para um par, ou um pouco mais que isso, de lembranças por vez.
       Tudo começou naqueles dias de guerra, onde a tinta e o silêncio eram as minhas únicas armas contra as legiões de demônios que me mordiam o eixo.  Apesar da segunda tentativa ser mais corada, e também menos gelada, eu não deixara de me enfraquecer entre as fortalezas, nem de compor o ouro das cabeças, dos dentes e dos passos que o sol, girando no meio ao inteiro, se orgulhava em apontar. Intimidados, eu e minha pobreza procuramos por uma passagem dos fundos... Mesmo se existisse, penso que ela não nos levaria para a caixa necessária. Apressei a primavera para me desabrochar inteligências, enquanto eu seguia o rio gasoso que se construía pelos vários braços e pernas em direção ao católico portal; a maneira como o concreto machucava o céu exorcizava a minha coragem para o segredo e de tudo que eu tive até aquele instante, me sobrava apenas o à frente. Absoluta foi a religião que me atravessou; por pouco não fui emoldurado, feito de vidro, ferro e exemplo, entre paralelos que se completavam em um símbolo do Homem que, diante dos degraus, não deu o seu primeiro verbo. E eu conjuguei as escadas, não sabendo se eram elas de mármore ou de pessoas, para, ao menos, admirar mais de perto o diamante. A bondade desses tempos se fez carne quando o entardecer das batalhas já estava determinado pelo horizonte.
       Se fosse o Altar, a vitória teria me engolido no momento em que o aviso alcançasse a minha alma; dedos com as colunas frágeis estremeceriam a membrana da minha Filosofia. Sim, os templos nasceram certos em minhas mãos e, tão logo respiraram que, quase me desequilibrei de mim mesmo. Ao corrigir a pendular postura, minha pele anunciou aos meridianos que a maciez desse lugar, agora, era líquida; tanta sede doutrinada com a antiga transparência que os meus lábios estranharam o toque da novata ciência. As emanações cabalísticas de outrora, hoje são crônicas que velam os meus ancestrais: quais deles não me acenderiam incensos e me evocariam profecias? E cada tarde e cada ritual e cada noite e cada instrumento eram outros. Eu sorri e me reconheci assim; não era mais um poeta, voltei-me místico!