Guarda-chuva

| domingo, 27 de fevereiro de 2011 | 1 comentários |
       Quando eu os vi, o cinza de mais um dia triste caia sobre todos. Mas minha pele estava um pouco mais fria naquele instante. Talvez fosse por tudo que me fez chegar até ali, ou por aquilo que teria que viver depois que o sol parasse de se esconder. De pouco em pouco, a luz sorria para que ninguém se perdesse no seu próprio caminho. Meus pés molhados pelas lágrimas que se espalhavam pelo chão não acalmavam meus passos, mas os deixavam mais leves. Para que minha alma não perdesse o controle, mais do que já estava perdido.
       Meus olhos tropeçaram naquela imagem diante de mim. Eles caminhavam sem nenhum som, um ao lado do outro. Não se importavam com mais nada além de pularem as poças do que foi um lindo céu. O mais velho ensinava ao menor como não afogar sua história em pequenas tristezas e ele parecia aprender de uma maneira inocente. O guarda-chuva que o mais velho segurava, abraçava os dois, os protegendo amorosamente. Apesar de sermos sozinhos, eles tinham um ao outro.
       Com a distância, eles ficavam mais unidos e eu me tornava parte do silêncio. Meus pensamentos estavam pesados e eu não conseguia abandoná-los. Procurando a mim mesmo, eu tinha que ir em em frente. Eu esperava que aquela imagem permanecesse a mesma. Ainda que ela não existisse para mim durante as noites.

Chuva

| terça-feira, 22 de fevereiro de 2011 | 0 comentários |
Não leve o silêncio que me traz o amanhecer
Dentro de mim mesmo sendo noite
Não quebre meus sonhos com gotas geladas
Apenas me entregue a única maneira de ver o dia
Por inteiro sem que nenhum pedaço caia no céu
Porque os seus passos fazem o medo ter um pouco de mim
Não grite sobre que meus pensamentos
Eles podem não mais pertencer a mim
O cinza que caminha sem destino pode encantá-los
Como as cores vivendo me encantaram uma vez
Não brilhe perto dos meus olhos
Eu poderei nunca mais adormecer

Eu posso viver sem alma se quiser companhia
Mas abrace a escuridão e não diga adeus
Porque se alguma lembrança respirar aqui
Minha distância ficará longe de mim
E assim não conseguirei mais ver o que me desperta.

A menina que odiava bonecas

| domingo, 20 de fevereiro de 2011 | 0 comentários |
        As coisas ali eram colocadas delicadamente em busca da perfeição. As cortinas tinham as cores e os desenhos reconhecidos pela idade da menina. As janelas ficavam abertas até o último raio de sol não mais existir. Dessa maneira as paredes deixavam tudo muito inocente para aqueles que viam de fora. Somente para aqueles que viam de fora. Um grande guarda-roupa escondia as muitas mentiras que faziam a menina odiar o que odiava. Ele desejava mais roupas que sua própria dona e ela sabia disso. Na escrivaninha repousavam as maquiagens que tornavam a menina o que era. As flores dos lençóis acompanhavam todo o jardim que se espalhavam pelo quarto. Elas nunca morriam, mesmo nas vezes que a menina desejava. E junto com os livros, as bonecas permaneciam quietas para que todos as amassem. Eles as amavam, menos ela. Por isso ela acordava e adormecia com a mesma insatisfação.
       Ela nunca estava sozinha em seu quarto: estava sempre acompanhada pelos olhares que nunca se cansavam, pelos sorrisos que não desapareciam. Pelos sapatos que não sujavam e cabelos que não despenteavam. Talvez isso a incomodasse, eu não sei. Apenas tenho conhecimento de que dentro dela tudo isso acontecia e ela achava isso muito injusto. Elas são perfeitas e nem ao menos têm vida, pensava ela. E os botões dela sabiam que ela tentava sobreviver todos os dias.
       Como qualquer outra menina, abria os olhos. Sem pressa tomava banho e se arrumava para ir à escola. Dentro do guarda-roupa tirava um vestido frágil, depois se maquiava de uma maneira sutil na frente do espelho. Todos os fios de cabelos colocados em seus lugares. A pele branca não precisava de muito cuidado, se destacava em meio a tanta leveza. E para terminar o que já poderia estar acabado, os colares e aneis a faziam brilhar mais. Apesar de estar cansada disso, ela já estava pronta para mais um dia de vida. Os laços nos sapatos dela não disfarçavam a confiança em seus passos.
       Todos queriam ser amigos dela, ter um pouco de sua atenção. As meninas queriam ser como ela, os meninos a queriam como namorada. Sua beleza era impecável e todos deixavam isso claro. Para os professores era uma ótima aluna, para os pais uma educada e carinhosa filha. As amigas diziam que ela era leal e um exemplo a ser seguido. E para os outros, uma menina perfeita. Mas poucos sabiam que ela tinha sido criada para ser assim. Ninguém nunca perguntou se ela realmente aprendeu tudo aquilo. Se ela queria ser assim. Ou se simplesmente por dentro, ela refletia a mesma beleza que o espelho mostrava.
       Depois de mais um dia de aula, ela voltou para sua casa que ficava vazia até o começo da noite. Ainda faltava muito para anoitecer e ela estava cansada demais de sua vida. Ela subiu até o quarto, observou tudo como se soubesse o que queria fazer. Seria a última vez que ele estaria daquela maneira. Sim, ela havia decidido. De novo, desceu, trancou as portas, fechou as todas as janelas e as cobriu com as cortinas. Ela foi para o quarto e se fechou lá dentro.
       As bonecas que permaneciam quietas foram pegas e colocadas na cama. As gavetas foram abertas de uma maneira violenta a procura da própria destruição. Desenhos agressivos e coloridos delas enfeitavam a parede que nunca foram vítimas de nenhum ódio. Os lençóis foram usados para ridicularizar todas que assistiam. E elas permaneciam paradas, sorridentes e perfeitas, assistindo a decadência de sua dona. Ou de sua serva.
       A menina já estava sem forças, pegou as bonecas e começou a destrui-las. Os cabelos além de despenteados agora estavam cortados. Os sorrisos que nunca desapareciam estavam distorcidos e assombrosos. Os olhares incansáveis eram furados e jogados por todas as partes do quarto. E em seus lugares permaneciam uma profunda escuridão.
      Quando já estava terminado, a menina se levantou e observou tudo que tinha feito. Ela se sentia segura no meio daquilo. Mas ela ainda não se sentia sozinha como gostaria. Faltava algo e ela não conseguia ver o que era.
      Então, ao olhar no espelho, viu a última boneca a ser destruída. Nada fez com ela, a não ser adormecer uma tesoura em seu coração. Aos poucos ela foi se deitando, até permanecer inteiramente sozinha. Agora ela é perfeita e sem vida.

Eu sou o não ser

| terça-feira, 15 de fevereiro de 2011 | 0 comentários |












Eu sou Humano
Com seus sentimentos e pensamentos
Eu sou um escritor que não escreve, um exagero não hiperbólico, um filósofo sem filosofias
Eu sou um bêbado que não se contenta com prazeres, mas se embriaga em venenos
Eu sou um Deus sem servos e um servo sem Deus
Eu sou aquele que nasceu para morrer e por isso vivo
Eu sou o que sou, mas nem por isso sei o que sou
Eu sou a compreensão não entendida e a sabedoria não sábia
Eu sou o que o silêncio grita e o que as palavras apagam
Eu sou a cor das linhas, o branco das páginas novas e o amarelo das antigas
Eu sou o que quero ser...
Eu sou, primeiramente, aquilo que não é
Porque quando eu vou ser o que sou, já não sou o que sou.

Lembranças daquilo que nunca passou

| sábado, 12 de fevereiro de 2011 | 0 comentários |
       É um novo amanhecer, mas as sombras dos objetos são as mesmas. Tudo é mais frio quando os passos são novos em uma realidade sólida. O meu corpo não treme mais e eu não estou tão claro quanto a luz que cega os meus olhos. Nada pertence a mim, mesmo as coisas adormecendo em meus braços. E apesar de todas as coisas formarem palavras, eu me sinto como um personagem sem história. Porque eu tive sonhos que me fizeram segurar a mão da noite durante todo tempo. Pequenos fios de lembranças que me pesam. Eu deveria estar descansado agora, mas o conforto não é a melhor verdade para se viver.
       Lá fora os meus passos estão marcados em horas apresadas; meu coração batendo dentro de olhos que me cruzam no caminho. Eu não deveria viver assim, mas a companhia me deixava seguro. E por muito tempo eu tive isso para me fazer continuar; agora o despertar vem um pouco mais cedo, para eu ir um pouco mais devagar e viver um pouco mais rápido...
       Ainda encontro vidas que nasceram das minhas idas e vindas. Elas estão mais inocentes, mais jovens e descansam em outros lugares. E em seus passados outras vidas nascem me dizendo o quanto estou perto de silenciar minha alma. Ninguém sente as minhas partes que deixei para trás e eu sei que terei que salvá-las algum dia. Não sei se conseguirei voltar para onde as vejo tão sozinhas. Eu estou sozinho.
       Além das casas que se esvaziam e dos prédios que crescem. Das paredes que nunca toquei e do céu escuro que vejo sorrir aos poucos, eu não me sinto parte disso. As mentes estão cheias daquilo que ontem não consegui amar. E no meio daquilo que não compreendo, eu terei que aprender amar tudo. Apenas se eu quiser ser um pouco do amanhã. Assim o medo me abraça e não sei se sairei desse eterno tempo que não passou.

Mais do que palavras

| domingo, 6 de fevereiro de 2011 | 0 comentários |
 Ele me deu muito mais do que palavras, meu amor
Você não vê os caminhos que seus olhos me mostram?
E ele me entregou mais uma pedra para mais uma história
Para mais uma estrela ser derrubada do meu céu
Como eu posso saber onde sonho se aqui está tão escuro?
Jogue as pedras para cima, elas podem fingir ser estrelas
Não podem?

E dentro dessa chuva de escuridão sobre mim
Você não sabe, mas sou uma criança insegura
Perguntas vem e me pegam pelas mãos
Como dói brincar com quem não se pode enxergar
Como cansa sorrir para quem não se podem tocar
Já não posso dizer se te amo
Ou se amo os meus próprios desejos costurados em você
Ou meus defeitos não vistos em você
Sorria, eu não os vejo em você
Você esqueceu de ser sincero consigo mesmo?
Acorde, você não tem defeitos.

De um lado da cortina

| quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011 | 0 comentários |
       Atrás da cortina vejo o dia nascendo. Passou tão rápido, foi tão curto. Uma pequena noite para muitos pensamentos. E todas as sombras do amanhecer se alimentam dos sonhos que eu deveria estar amando a muito tempo. Mas não consegui me deitar, estava sozinho demais para voar, porque sei que minhas asas vão desaparecer quando eu acordar.
       As coisas voltam para o lugar de onde nunca saíram e os pássaros voam no mesmo céu. Mas não é sempre que ouço essa canção. Eles a cantam tão próximos de meus sentimentos.
       Não é aquele dia que não sabia quem eu era, já são novas horas, novas luzes. Tudo abraçando as cores que as pertencem para saberem quem são e eu ainda não sei. Um caminho para o fim do mundo pode ser visto nesse chão frio. Eu sinto esse fim pelo tremor do meu corpo, muitas vezes sem precisar tocá-lo. E meu ar vai me deixando e me preenchendo de uma maneira apertada.
       As coisas descansam em seus lugares. Não eu.