Carta aos três povos

| sábado, 30 de agosto de 2014 | 0 comentários |

       Meu sangue caiu no chão; além das gotas, as muralhas se abriram como grandes portões para a multidão em êxodo. “Quem são eles?”, eu me perguntei tímido e inexperiente, mas nenhum dos indivíduos que constituía aquelas nações parou para me dizer o que estava a acontecer, do porquê das paredes terem abraçado tão facilmente as suas línguas, as suas religiões e sacrifícios. Admiti que permanecesse, apesar de saber que as moradias, se ou quando elas se despedirem, deixarão marcas gritantes no gélido concreto deste país estrangeiro que aqui fala. “Não se preocupe”, dizem, assim, as minhas próprias dores e alegrias. Porém, há segredos divinos que as tais divindades desconhecem? Da afirmação à dúvida; do inamorável ao compromisso; do não desejável à fome...
       Por um pedacinho de eternidade, eu me achei o leite e o mel de uma prometida terra, que era o meu próprio ser, para os seus povos; eu tive a certeza que a magia, o holocausto e a redenção seriam exercidas no altar do meu peito ao mesmo tempo e em harmonia – não que neste presente eu não tenha essas bandeiras nas minhas hastes, no entanto, dentro das fronteiras existe a Guerra, carregada das iguais letras do meu nome e dos idênticos olhos esverdeados, com pele hostil e a forma de passado e medos. Eis o meu Diabo, a minha confusão, a minha loucura! Na única pátria vivente, implodem algumas descomunhões que são comunhões, que continuam a ser o lugar de origem, contudo outros espaços; são como a água e o óleo que não se misturam, tão palpáveis aos olhos, entretanto, ocupantes da mesma percepção. Todo o nítido líquido que me tornei até hoje ameaçado por cacos de poeira que bateram em minha vida muito antes do que ontem; foram eles que repousaram tantos defeitos em minha maneira de caminhar. O que os seus povos sussurraram em seus ouvidos, quando chegaram perto do meu núcleo, pareceram sentenças; até onde o dito solidifica mais do que o não-dito? Eu me senti muito fraco e não menos infantil: temi além do temível e descobri as invisíveis forças que poderiam transformar este território em um meio desconhecido para seus próprios habitantes.
       Quando tudo se fez contrário, os equinócios e solstícios, que outrora eram tão cônjuges, pareceram mais distantes do que dois corações em dois diferentes corpos; ainda que minhas pernas estivessem fundas o bastante para se entregar a crescer ao céu e florescer, eu tive medo dos sonhos que não poderia controlar. No instante em que as lágrimas vermelhas foram apresentadas ao sabor agridoce do chão, choraram comigo, talvez tão mais piedosas pela minha situação do que viria a ser o meu destino – este que parece ter se desenhado sem minhas mãos. Para onde eu, e agora os meus povos, vamos com isso?
       Eu quero ser o Deus e a Deusa para que minhas casas sejam as igrejas e sinagogas e que a natureza seja, também, o meu rosto; mas sou apenas um humano perdido na sensibilidade dos sons, o pequeno assustado demais com o sorriso. Do fundo, na parte mais escura da minha cabeça, ecoam lembranças do outro lado, das épocas em que minha flora estava morta – “se ninguém bebe de uma fonte impura, por que ele haveria de permitir que os seus filhos te bebessem?” –, mas mesmo os exércitos inimigos destruindo as estruturas da minha alma, ela nunca criou tanto ânimo quanto agora; a primeira das batalhas já nasceu e, apesar de pensar, às vezes, que o meu querer é amaldiçoado, desejo que os seus povos estejam comigo, porque tudo isso é como um exorcismo para mim. Além do querer, eu sei que posso ser o salvador deles, recebê-los como histórias distintas que se misturam em mim e, sabendo que tanto eu quanto você trazemos fracassos e vitórias anteriores, também sei que posso tudo contigo, se você me fortalecer – como eu também te fortalecerei! Nunca me arrependerei de ter aberto os meus campos para que os seus povos fizessem morada, porque os deuses me disseram que as suas sementes, escolhendo as minhas terras, criariam jardins suspensos de conteúdo por todo universo. De todos os aprendizes que tive, o amor caminhou através da sua emigração; de todas as esperanças que poderiam ser escolhidas, eu escolhi os três povos. Porque eu me lembro das suas palavras e elas não são vis, então pare de buscar, porque a sua força reside aqui, apenas se permita me permitir.

Fé, Esperança e Amor

| quarta-feira, 13 de agosto de 2014 | 0 comentários |
  Quebrei os templos por dentro,
Insultei os meus deuses,
Mas eles ainda me amam
Eles ainda me cuidam
O que querem, eles, de mim?

Se destruir as sagradas casas
Não os fazem me entregar a Ira,
O que mais devo fazer para consegui-la?

As pontas da Vida nunca ficam soltas
A serpente nunca acaba de se engolir
A roda nunca se descansa do girar

Eu saio dos deuses,
Mas os deuses não saem de mim.
Um chão infinito se joga no meu interior;
Tudo se rasga como a nuvem em boca infante...
Eu os vejo!

Então a Água me enterra
A Terra me sopra
O Fogo me molha
E o Ar me queima
Até que eu encontre a Luz

O brilho toca notas com a minha alma
E nas chaves, se revelam muitas cores
À sua direita, Fé, Esperança e Amor
Enquanto, agora, descanso à minha esquerda

E eu tenho medo
Como o medo me tem,
Mas eu o sorrio
Como ele me sorri.