Fora de curso

| segunda-feira, 30 de maio de 2011 | 0 comentários |
       Você sorri uma e pela última vez engana o mundo que há muito tempo está cansado de carregar a sua sombra. Em alguns momentos você a vê grande demais para os seus olhos, em outros, muito pequena para os seus frios dedos. Assim você segura a linha que o tempo te entrega e costura toda escuridão em sua alma. A agulha mergulhada em lágrimas não torna menos dolorosos os passos guiados pela noite, mas você caminha da mesma maneira. Cada centímetro andado é colorido pelas estrelas que caem das suas mãos; aos poucos você percebe que está ficando sem cor e as coisas continuam vivendo. E dessa distância entre seu coração e o chão, você vê os sonhos que nunca te visitaram, as rosas que não mais deixam os espinhos brincarem com os seus gritos. Nuvens passam, deixam um cinza daquilo que em outros tempos já foi branco e as flores de plástico que iluminavam a sua vida não estão mais ali. Mas ainda chove e mesmo que o som da sua fuga seja ouvido, restará uma gota atrás dos seus pensamentos. As manchas que nascem quando se aperta os olhos não são profundas o bastante para abandonar esse algo que nem ao menos você conhece; por mais que tente, elas não saberão o seu nome. Como as sujeiras que o chão recebe tão normalmente, você está perdido e assim permanecerá. Amanheceres que são levados nos bicos dos pássaros que voam longe do seu olhar. Eles não deixam que você decore como é aquela luz, para quando cair finja estar acima de si mesmo. Vozes sem reflexos que saem do vazio de onde deveria estar as suas asas; o anjo que você nunca foi. E todos os cantos silenciosos das palavras que você se recusa a encarar; elas sempre te acompanham.
       Esse você sou eu.

Antes do seu dia

| quinta-feira, 19 de maio de 2011 | 0 comentários |
Hoje as estrelas se vestiram de mais brilho
Para que as primeiras sombras não fossem tão frias
A música pareceu mais alta
Para que a distância entre mim e você fingisse não existir
E tudo se fez mais limpo
Em uma espera que já era conhecida da minha vida
Os minutos ficaram maiores que o normal
Fazendo com que eu sentisse que te encontraria
No próximo abrir dos meus olhos
Ou que você entraria pela minha porta
Com um sorriso que nunca me foi espalhado pela alma
Quando um dia se tornou outro
Eu soube que aqueles longos segundos
Fizeram-me segurar nas mãos do seu dia
E vi que mesmo sendo apenas um
Dentro de mim todos os dias são seus
E as noites também.

Seu lugar secreto

| terça-feira, 17 de maio de 2011 | 0 comentários |












Sua imagem escondida eu guardo
Nas pequenas páginas do meu coração
Brancas como o peso do meu fardo
Tão profundas, é a minha escuridão

Sobre a linha de um sorriso incerto
Duas estrelas em silêncio nascem
E mesmo vivendo em um deserto
Flores as lembranças suas trazem

Não vivida a hora que ali é eterna
Adormecida entre pétalas de dores
Estão as cores que tudo inverna

Em lágrimas vivem os meus louvores
Meus segredos sussurrados não direi
E nesse seu lugar para sempre me verei.

Enquanto

| sábado, 7 de maio de 2011 | 0 comentários |












Nossas diferenças não começam pelas cores dos olhos
Apesar dos meus serem mais claros quando estou triste
Em seu desenho não há rabiscos
Enquanto meus traços de nada são certos
O seu corpo é bem estruturado
Enquanto em mim há apenas uma solidez que pulsa por você
Suas roupas mostram verdades que mesmo querendo não fugiríamos delas
Enquanto as minhas fantasias escondem imperfeitos fantasmas
Seus braços fortes carregam um brilhante objetivo
Enquanto minhas frágeis mãos não constroem nem a certeza do amanhã
Seu caminho te leva a novas vidas
Enquanto minha escuridão me impede de voar
E você vai além do céu e eu não tenho asas
Sonhos são reflexos de você
Enquanto sonos me fazem adormecer
Você encanta almas
Enquanto eu apago estrelas com sorrisos
Eu não existo para você
Enquanto te amo.

Não lugar

| segunda-feira, 2 de maio de 2011 | 1 comentários |
       Eu sinto como se minhas pernas de nada servissem; que todas as direções que me fizeram chegar até aqui foram percorridas apenas por vontades cegas, que nem ao menos sei se foram minhas. E esse não lugar que conquistei com nenhum esforço pertence somente a mim, o único a quem o vazio se cria. Apoiando minhas costas cansadas de um verbo não conjugado em paredes de solidão, percebo que elas não se apoiam em mim. Pesado o amor que a noite me tem e eu caio em um nada que nunca toquei. No céu uma inocência brilha com uma luz tão escura quanto uma fé quebrada em olhos abertos. Em volta de mim, as árvores sem folhas terão frutos brancos ou pretos, minha cesta vazia deles me alimentará até a chegada da morte e assim eu sobreviverei até lá. As pedras que foram plantadas nas concretas nuvens sobre os meus pés assopram ventos não tão quentes quanto as voltas que o rélogio caminha dentro de mim. Os rios que nunca chorei em mim se desaguam e eu respiro em uma eternidade desenhada no fim, mas que não o vejo. Então o procuro na ponta das minhas dores, encontro apenas razões que me fazem real o bastante para querer adormecer. O branco dos calendários escorre para o teto e eles voam para uma queda sem companheiros. Cada dia que em mim se despedi deixando menos ecos dos gritos esquecidos por presenças conhecidas. O som da ausência é vivo como o ar das estrelas que passaram por aqui há tanto tempo, mas que agora não posso juntá-las, nem colá-las no não existir. As coisas estão morando no ontem e não há para onde cair, porque nele eu nunca construi esconderijos.