Epicentro

| sábado, 21 de novembro de 2015 | 2 comentários |













Por um curto e também longo período,
Sou o umbigo do mundo
E sinto as ansiosas ondas cavalgando sobre mim.
Um animal selvagem me consome: –– É o perigo chegando!
Mas eu não sei o quem, nem o que, apenas o agora.
Torna-me vassalo de um senhor que não é outro,
Mas é todo e limite; uma matéria que não é pedra, mas carne.
Surjo, então, como hipocentro do meu próprio corpo e, de repente, a Pangeia se divide
Entre o desespero e a vergonha, a luta e o medo, a queda e o vexame.

Este não sou eu: os gritos que escapam se emprestam do meu organismo, mas não sou eu quem 
[grita          
Apesar de estarem próximos, ninguém acredita em mim,
Oferecendo uma ou duas gargalhadas pontiagudas em silêncio.
É nesses ensejos que eu queria ser um passarinho singelo
Abrir as asas sem causar muitas tempestades nos outros lados da vida...
Não sou... E mesmo com o desejo de escapar, desviar sem ver a quem,
São os pequenos pesos dos sonhos futuros, frágeis como a promessa do amanhã,
Que permitem que a destruição me volva o solo para os dolorosos tremores. 

Gostar-te como te gosto

| domingo, 17 de maio de 2015 | 0 comentários |
Vi-te, tão depressa,
Como quando quase se esquece de que gosta
De quem se gosta
(E eu te gosto como te gosto)

Não é preciso aqui dizer
Que desejaria ser o chão pisado,
Por mais que este te acompanhe,
Nem as nuvens que seguem acima,
Mesmo estas capazes de te observarem

O que quero é algo mais real,
Longe das esferas dos versos,
Mais próximo de você –– um de seus lados.

Já me ouvi chamarem de poeta,
Mas discordo –– os poetas criam
E eu... E eu apenas vivo.

Vi-te, tão depressa,
Como quando estala os lábios nas bochechas
De quem se gosta
(E eu te quero selar com estalidos
Mais íntimos do que aquele caminho
Cheio de pessoas desconhecidas,
Mas que as pedras lhe eram conhecidas.
E iguais a elas, foi lá que você
Viu-me, tão descansado,
Como quando se tem a certeza da vinda
De quem se gosta, como eu te gosto).

Pintura

| sábado, 9 de maio de 2015 | 0 comentários |


























Quisera eu, pintar o céu que vejo
Em seus movimentos mais gélidos,
Em seus dormentes mais agitados,
Quase como fosse um pequenino
–– Junção de brincadeira e fuga.
Eu queria marcá-lo, imprimi-lo ali,
Seja na tela de meus olhos,
No fenômeno que se diz a todos,
Mas eu já o deixo abandonado,
Ainda que visto e morada das íris,
Como se já não o visse –– morresse!

Imagens

| quinta-feira, 23 de abril de 2015 | 0 comentários |
Eu queria tirar a foto
Da fotografia.

Complexo de Sísifo

| quarta-feira, 22 de abril de 2015 | 1 comentários |
















Caminhei pelas montanhas de costume.
Arrastei, empurrei e carreguei a Pedra viva
E quando cheguei lá no almejado cume,
Vi a rocha como um irmão simples que decliva.

Não escape de meus vãos, oh, fracas mãos!
O rumo da essência é voltar-se para a Origem
E essencialmente as pedras são também chãos!
Foi no instante em que me percebi vertigem:

Contar os passos à frente para sempre voltarem;
Construir entradas para aqueles todos que saem;
Dentre essas coisas, nada me sobrou de sentido.

Estava, eu, sentado na vitória de um vencido
E, ao precisar descer no lugar que antes era subida,
Esqueci o silêncio que cantava na suave voz da Vida.

Na rua do poeta sem palavras, há uma árvore podada

| terça-feira, 21 de abril de 2015 | 0 comentários |
      À primeira vez, quando eu cheguei por esses lados da cidade, que fica às costas de onde eu praticamente nasci, olhei para cima sem a pretensão de demarcar os lugares das estrelas e das árvores no céu. O tempo passou e, aos poucos, fui construindo o meu segundo olhar, já se acostumando com as fixações das raízes e os efeitos ilusórios das oscilações luminárias; por onde caminham as nuvens? Devem estar em dias mais ou menos férteis em atenção e aquarelas. Mas hoje, ao me deparar com o terceiro elemento da tríade de meus olhos, percebi que os cabelos verdes e os longos dedos amadeirados de uma das árvores da rua foram arrancados. Talvez os meus ouvidos, mais cedo, estivessem a escutar as lamentações do meu próprio peito no momento em que houve os gritos e os choros da Natureza; então, por isso, não foi apenas eu que outra vez olhei para dentro do céu, mas a altura também me olhou e me descobriu tão egoisticamente. Não para me redimir, mas por uma razão irracional, eu tracei uma linha que seguia o infinito e me perguntei se, do outro lado dessa sensação, existiria alguém traçando uma linha noutra direção que se encontraria com a minha, formando um ângulo de valores preciosos e sinceros. As nuvens agora voltavam a navegar por aqui e pelos bonitos desenhos que formam, logo imaginei que haveria alguma coisa além de eu mesmo; deixei a minha visão para encontrar a visão de um alguém, mesmo que tal busca seja para me encontrar no meio disso tudo, porque da mesma maneira que uma árvore sem suas copas é uma incompletude de existência, o poeta sem palavras é uma solitude última: nada mais ele tem, nem a companhia de si.
       Adeus foi o que eu disse ao agora. É claro que só neste presente é que as letras formaram esse sentido, porque ao acontecer, soou como se o passado tivesse me abraçando de surpresa na forma de canções familiares à minha raça. Tornei-me a fronteira de mim mesmo. Quem sabe, eu ainda seja o céu para aqueles alguns de mim que estão enterrados sob a pele morta, porque por mais que eu queira dizer disto que me encara lá de cima, acabo sempre caindo no mais profundo eu. Quem sabe mesmo, um dia, eu consiga alcançar o alto e ver que o este é o aquele e descobrir, finalmente, que aquele era você, que me observava através da interseção dos infinitos.
       (Olá é o que eu digo ao agora. Nada disso deve ter importância, eu posso simplesmente estar um pouco cansado... O cansaço é a tristeza do corpo, quando a alma já está avessa ao seu molde. Então, prometo descansar quando a paisagem voltar como estava e a árvore crescer como manda o seu destino, reivindicando o seu lugar no céu, perto das estrelas).

Mais de um oceano

| domingo, 22 de março de 2015 | 0 comentários |
Hoje eu quero chorar mais de um oceano
Não consigo, porque já quem chora é a minha alma
Mas ainda sim, sinto as marés cheias e as ondas agitadas
Elas querem tanto se tornar mais de um oceano

São terras estranhas, essas que caminho há três dias
Nebulosas, cegas, partes de mim desconhecidas por mim
Sem direção, sem companhia; eu estou tão sozinho e perdido
Elas querem tanto que eu aprenda a andar junto delas

Foi como um fino fio de sombra furando o céu iluminado
E dentro dessa iluminura existiam mais e mais sombras
Que escorreram pelas paredes celestes, pelo chão do mar
E por mim e por mim e, de novo, por mim...
Ele quer tanto que eu aprenda a voar além dele

Longe do perfume marítimo, me caminha do chão adiante
O cheiro amargo que cresce quando me afasto do acostumeiro
Lindo é ver os grãos de açúcar brincar com os meus salgados pés
Criando combinações agridoces nos meus vários poros vitais
No mar, tudo são tonalidades de azul e eu era apenas um homem
Agora, no litoral e um pouco mais ali, pareço poder ser muitos

Talvez eu tenha descoberto, lá fora, os tesouros escondidos
Sob a areia deste querer se desatar em mais de um oceano
As idas e vindas das águas cantam tão bem que eu me fiz achar
Que somente dentro do espírito era possível existir o espírito
Nesta estadia, escolhi palavras e elas escolheram um certo eu
Os demais se silenciaram em cada uma das partes periféricas
Levantando-se, então, vilarejos, vilas e algumas pequenas cidades
E de onde me criei, eu via o alto, mas nunca se conseguia o afora
Eu visitava outras regiões, mas elas eram sempre aguadas
Enquanto eu saboreava tudo com os olhos de uma única oceania

Passadas as monções e os climas etários, A Menina e O Menino,
Envelheci com as pernas que estavam habituadas a me sustentar
Deslembrando que o coração também tem suas as faces e fases
E que a eternidade é tecida dos matrimônios desses mesmos ciclos
Eu antevi, através deles, a viagem para ser eterno e abri o meu peito
Igual as mãos que desenterram a vida a procura de seu centro
Mal se sabia que trilhas distintas conseguissem beijar velhos passos
E sendo eu, um pigmeu que aprisiona um gigante de se expandir,
Tanto quis, como agora ainda o quero e sempre haverei de querer
Ser praia, deserto, oásis, um país inteiro e, logo, o próprio mundo
Ser tudo –– ser palavras, movimentos, sons, imagens e formas e cores
Dos sentimentos, cruzando pelas ideias a chegar às oceanografias

É por isso que amanhã, hoje e ontem eu quero demais chorar
Enchentes lagrimais que descem as estreitas ruas almosas 
Por absurdos serem jamais para perguntas nunca formuladas
Há tempo para tudo: para o quem, o onde, o por que e o como
A dor é que também quero ser Tempo –– todos os eus no agora.

Botão caído

| terça-feira, 17 de fevereiro de 2015 | 0 comentários |
Dedicado à musicalidade scalênica

Quando eu cheguei, tão timidamente como uma criança
Que teme o castigo de voltar para a casa ao dia seguinte,
Os corpos borbulhantes já dançavam na superfície da noite.
Por esses lados da cidade, as cerimônias começam muito cedo:
As geladas poções se misturam com as fumaças xamanistas
Formando, assim, uma grande ondulação aonde o vindo, retorna;
E agora indo, segue igual caminho, mas é além do antes e vice-versa

Diversificadas orquestras desfilariam dentro do festivo recinto
No entanto, somente de uma eu queria conhecer a marcha;
Com tanto apetite instrumentivo, eu me permiti voar até lá.
Dias atrás, o convite já me tinha permitido adentrá-lo
Semelhante a uma profecia improferida por tamanha incerteza.
Eu vendi a minha presença e os meus ouvidos e simplesmente fui...
Se o meu sono não cobrisse o sol com negros e espessos cílios
Talvez eu estivesse de pé a ver a multidão à luz do cair vespertino

Desatados os obstáculos divinos à porta do suposto paraíso
(Nenhuma pouca idade, nem metais impreciosos e afins),
Tive como companheira inseparável a fluorescente liberdade
Em seu verde que se atava, para sempre, ao direito braço.
Então, me foi revelado o pequeno mundo dentro do mundo,
Onde o preto é branco e onde o pandemônio é melodia;
Eu quis ficar, mesmo com o anúncio, entregue a prévias horas,
De que a banda que eu esperava já teria marchado o carnaval

Desacreditei o destino e me esqueci do que haveria perdido
E descobri que eram felizes aqueles que não culpam os amigos.
Logo, ao serem abertos os sons, me ancoraram que quem cantava
Era o esperado que eu já nunca mais esperançava visitar:
Eu avistei a terra que nunca me fora prometida ser cumprida
Diante dos meus olhos. E diante dos meus olhos eu a tinha!

Enquanto as guitarras ressonavam na caixa óssea que me guardo,
A minha pele servia de tambores para as inquietas baquetas.
Cada entoar contrabaixo me tornava, de longe, o mais alto
Sendo que a voz ruiva, ah, parecia quase cantar só para mim
 –– Parecia quase cantar só para o todo do mundo ouvir!

As despedidas me pousaram feito um inesperado puxão
Que me arrancou o botão do caríssimo terno que eu vestia
E, também, do peito que eu carregava na queridíssima rosa.
Da mesma forma que me inclinei a encontrar o botão no chão,
Achei a coragem profunda na superfície do instante presente
Rendendo-me a encarar o rosto ruivo da voz ruiva que fez de mim, aceno.

Roda das dores

| domingo, 1 de fevereiro de 2015 | 0 comentários |

Que saudades tenho, eu, de abrir o círculo no chão
E de me sentir, assim, quase um embrião
No núcleo de um ventre que é real como o vento,
Tendo lá a escrita de todo o meu intento

Gritar aos céus em fórmula de oração,
Aos deuses à restauração de tudo que eu invento.
Milagre é quando o homem se torna o convento
Unindo profano e sacro em comunhão

Quisera, eu, sentir novamente aquela esperança,
Ter as fieis mãos preenchidas pelos pais,
Igual fui nos tempos que me chamavam de criança.

Crescem-se as épocas, perde-se a plena paz:
E doídos por todos os mundanos que nos vêm
Esquecemos que doemos para o Mundo também!

Além-eu

| quinta-feira, 29 de janeiro de 2015 | 1 comentários |



















Perguntei a uma ana de cabelos anoitecidos em espiral
O porquê das dores do mundo me atingirem como as minhas
Tão logo joguei as cartas e a resposta me veio com mais uma dor:
“Porque você é também humano e se importa com o além-si”
Ouçam Humanos! Eis que sou como vocês todos que se espalham

Quem será o terreno Homem que desmontará este coração?
Quem será a mística Mulher que juntará todas as partes no apocalipse?
Hão de nascerem aqueles que um dia sequer me entenderão
Apenas peço que vocês não me temam, sou eu que os temo
Tanto mais que o mar da morte entre os viventes continentes
Ouçam Humanos! Eis que sou como vocês todos que se juntam

Por mais que o rícino da esperança pingue da minha cabeça
Existem coisas maiores para sorrir e outras gigantes para chorar
Eu sou apenas um reflexo perfeito deste mundo que vos fala
Num corpo que a decadência se faz própria em ascendência
Ouçam Humanos! Eis que sou como vocês todos que sobrevivem
A procura de uma sombra que traga algum sentido à violenta luz

Se desde o pequenino ponto a solidez dos algos deveria assim ser
Por qual razão ela mudaria no acompanhar da eterna expansão?
Algum, por favor, encontre as chaves das minhas portas mentais
E ouçam as músicas que as minhas fibras cardíacas tocam e tocam e tocam...
Eu preciso que essas pobres criaturas leiam as páginas da minha alma
Mas, breve e triste, tenho que concordá-la: eu sou humano!
Então, ouçam Humanos! Eis que sou como vocês todos que se matam
E dessa vez não é a menina que diz, é o sozinho e solitário eu.

O anfitrião último

| segunda-feira, 19 de janeiro de 2015 | 0 comentários |
           –– Será uma grande noite! –– disse o anfitrião do banquete.

       Tudo já estava quase pronto: a longa mesa, aprontada com os utensílios devidamente arrumados e colocados de acordo com a quantidade de cadeiras que se espalhavam, vestia um tecido branquíssimo bordado com linhas de ouro; os desenhos ficavam em sua borda e pareciam formar figuras como árvores, estrelas e flores, que em algumas partes da textura davam a entender que se misturavam e em outras, que se distinguiam. Os assentos eram da mesma madeira antiga e rústica de onde descansavam os pratos, os talheres e as taças; as arquiteturas dos dois móveis, mas não apenas deles, davam ares de requinte imperial, transformando o que deveriam ser simples cadeiras em acolchoados tronos, enquanto a mesa era quase uma avenida no meio do gigante salão que ansiava pelos seus visitantes. Desde o formato das lâmpadas do lustre, passando pela secura do tapete das escadas, até os mais mínimos detalhes, como os nós dos laços que amarravam os buquês de flores e as velas ou a combinação entre o brilho dos botões dos uniformes usados pelos empregados com as cores que tinham os seus trajes, foram não só pensados, mas também executados para que o convite que aquele lugar fizesse fosse nunca negado, ao ponto dos que ali se alimentariam não quisessem mais desejar nada que estivesse fora daquela sala de desjejum; acabando com as querências mundanas, os escolhidos encontrariam a paz que tantos quaisquer humanos cansam de procurar e nunca ver, sequer, um acenar amigável do desassossego. Ao fundo, ouvia-se um som erudito que dava uma impressão suave e melancólica de que a instrumentação e o coral atraiam, sussurrantes, cada consciência e inconsciência para lhes contar um segredo de sobrevivência, mas, ao mesmo tempo, elas próprias logo se lembravam de que eram, também, artifícios atmosféricos daquela redoma, aparentemente, inofensiva.
       Verdade seja dita: nunca foi do costume deste jovem estar sob os cuidados de um amigo ou familiar anfitrião ou o sê-lo, como está a se a realizar com a vinda da noite por esses lados da cidade. Os feriados podem ser muitos, mas são os dias-santos que forçam os parentes a se juntarem no exercício amoroso de se aguentar e longe destes, aqueles descendentes não canonizados, seja pela falta de reconhecimento da utilidade dos seus milagres para os demais ou pela ausência de dourado na auréola e de humildade na túnica, sempre são esquecidos pelos festejos em seus pobrezinhos oratórios; quando lembrados, por algum impulso culposo que dá ao tom do convite um bem-lhe-quero menor do que o seu contrário, eles são desviados das rodas de homilia para a solitária penitência. Assim ainda sucedia com o jovem nas suas épocas de infantil misserisse, acompanhados, ele e seus pais, pela maldade dos olhares consanguíneos a jorrar, não se sabendo qual menos e o que mais, uma saudade nunca dessentida de indumentárias e modos mais nobres vindo deles e um profundo desgosto pela arrogância intelectual do pequeno para com os seus. O crescimento transmutou o garoto no rapaz que era o mesmo na soberba de sua intolerável inteligência, porém, agora, ele poderia comprar a simpatia que melhor lhe coubesse, da cor que mais lhe agradasse. Nas vistas de alguns, ele já havia comprado e, oh, como o fez bem, corou-lhe as bochechas de vida e aristocracia. E cumprindo o seu domínio sobre os partidários, porque conhecimento e ótimos argumentos é poder, convenceu os seus pais e os seus amigos a viajarem juntos para fora do país, como presente e pedido de desculpas por não poder compartilhar, na ceia, da mesma mesa com eles, mas tornou a avisá-los que depois explicaria o motivo e compensaria a falha. Apesar dele gostar de comemorar algumas datas, umas até inventadas pela vontade de se ajuntarem, com os amigos e os progenitores, eles entendiam as facilitosas manias de desistência deste jovem que tem a natureza um pouco morta para festanças. É pelas razões citadas, dentre inúmeras outras, que o tal desacostume desatou-se em forma de hábito; era a primeira vez tanto dele como anfitrião de um banquete feito especialmente para os seus queridíssimos convidados, quanto do casarão como acolhedora de tamanho evento. Por certo pode ser dito que também a sabedoria popular tem os seus equívocos e, no caso, os mencionados primeiros serão, antes, os últimos.
       Ele olhou por uma das várias janelas dos vários corredores da residência que era sua e viu que a escuridão havia domado a tarde nas extensas terras celestiais. Apressou-se para chegar ao quarto. O relógio indicava ser oito horas, sendo que a festa começaria às nove e a meia-noite seria apreciada a ceia, depois que os bons-desejos fossem distribuídos. Para uma ocasião excepcional como esta, seria uma ofensa tamanha para com o destino se outra pessoa, que não fosse o próprio, escolhesse a sua roupa de gala. Igual a um caçador de nuvens, que procura nos contornos a linhagem mais perfeita de lã para, aí sim, capturá-las com o que está por trás do que é visto e brincá-las com o não visto, as mãos do anfitrião intuíram quais das peças equilibravam, sobre a tênue fita, a tragédia e a comédia do existir: os sapatos envernizados eram pretos com brancas minúcias, seguido de uma calça unicamente preta que se fazia rente às pernas, a alongada camisa branca se escondia por detrás do abotoado colete preto, enquanto uma doura gravata borboleta coroava os demais elementos que, por fim, se cobriam por um paletó vermelho tão vivo que parecia dizer “para ser morto, basta estar vivo”. Todo esse ritual que foi se colocar em ordem para as visitas, que incluía além do sorteio das partes da fantasia, o encarná-la também penteado e perfumado, durou uma hora. Nessa breve eternidade, o anfitrião evocou o personagem, maquiou-se com o sorriso nos lábios, as estrelas nos olhos, e se amadeirou, porque determinado aroma lhe oferecia a marca de superioridade. Saiu do quarto. À distância, timidamente invasivo, já era possível pressentir os jardins se movimentando, sendo atravessados em direção a mansão.
       Mais cedo, quando ele inda era si mesmo, andando por todos os meios e cantos com o seu curto e costumeiro pijama, o anfitrião instruiu os funcionários a respeito do que queria para aquele jantar e do que deveriam fazer antes, durante e depois dele; para o cozinheiro chefe, responsável por todas as fanfarras gustativas do que viria a ser o mais memorável festim deste e doutros mundos, foi-lhe encarregado, por ali em uma conversa particular, que se fizesse um duplo do cardápio, um para ele, o dono da casa, e outro para os seus visitantes; um com a função ordinária de cessar a fome provisoriamente e outro, de acabá-la para sempre. O segredo está no tempero. Um sal faz toda a diferença entre a continuidade e o fim.
       Era de fino trato ir receber os vindouros pelas escadas da frente, que davam direto para os abertos hortos, e de cima se via que eles todos vinham, os tios e as tias, os primos e as primas e suas esposas e maridos. Espalhados pelo quintal, que ironicamente tinha a dimensão de caber mais umas quatro ou cinco da mansão que ele mesmo preludiava, alguns carros eram pegos pelos diversos motoristas confiados a cuidá-los para enfileirá-los na garagem do casarão; os que não tinham meios de transporte próprios, vieram através de carros mandados pelo anfitrião, que também não deixavam de admitir a suas estirpes. As gargalhadas e os cumprimentos entre eles já sobem as escadas como se a pedra que foi feita de degraus procedesse do mesmo barro que dividem nas veias; os desejos de boas festas e os questionamentos retóricos de quantos séculos não se encontravam chegaram correndo, embora não dessem esperanças alguma de que evitariam os beijos e abraços das mulheres e os apertos de mãos e as batidas nas costas dos homens. Terminada a obrigação de cumprimentar a cada um dos presentes, dizendo-lhes seus nomes e que o que sentia bem aqui era saudade e não desprezo, estava permitido os comentários e piadinhas desabafadas dos seus tios e primos em relação a sua excentricidade como pessoa. Nada neles havia mudado. Quando adentraram o salão de entrada, o anterior som erudito havia sido trocado para músicas mais dançantes. Tão sincronizadas e invisíveis que as coisas eram que se tinha a sensação que a fidalga casa era um vivente, pensou, mais ou menos dessa maneira, algum dos convidados mais supersticiosos, donde os restantes, de prontidão, consentiram.
       Não foi preciso lhes dizer que ficassem a vontade como se o lugar deles fossem, porque desde que a notícia de que o parente jovenzinho enriquecera se alastrou, semelhante às promíscuas epidemias que vão de corpo a corpo se deliciarem com as saúdes, eles logo se sentiram enriquecidos também. Nem somente de um cômodo se sustenta a estadia de familiares, mas de toda e qualquer porta que estiver destrancada, e como estes não se diferem de nada da lei natural, infestaram quase a total planta da construção e se houvesse um jeito deles serem uns dos muitos tijolos que erguiam as grossas paredes, eles se virariam do avesso apenas para se encaixarem nas lacunas da glória na qual eram inglórios. Com a mesma carência de pudores e burocracias, as bandejas de petiscos flutuavam pelas diversas patas e rapidamente as garrafas de bebidas se esvaziavam, necessitando, então, de serem trocadas para que a felicidade da nação se mantivesse. A alegria fluida, convertida em superficiais conversações e risadas cumpliciosas, servia para o anfitrião, que não era de ter esses vícios orais, como uma fuga para não ter que falar frases muito maiores do que as próximas compridas horas que precisaria ficar até que tudo isso trouxesse um final. Aqueles que não nasceram ontem conhecem os quilométricos discursos dos que se descobrem de bom humor, diagnosticados com uma grave alteração na percepção de realidade. Cento e vinte minutos passados, o anfitrião pediu licença para ir à cozinha, observar o andamento do jantar. Na metade de um horário é possível desvalorizar as reencarnações passadas e futuras de um espírito que não se acha de cadáver presente no zoológico social. As boas-novas vieram com o retorno do senhoril: a ceia viria à mesa em vinte minutos. Hosana ao Rei! Hosanas eternas ao nosso rei!
       A dispersão doou o seu recinto para uma aglomerada movimentação perto da sala onde o apetite seria executado e no momento dela se encaixar entre seus afins, o anfitrião sumiu, à surdina, para caminhar pela mansão, cumprimentando os seus empregados e lhes desejando boas coisas e agradecimentos. No instante em que voltou, as pessoas tinham se saudado e a ceia estava sendo colocada ao alcance dos assentos. Como é de praxe sempre o dono da casa sentar na patriarcal cadeira que, ao mesmo ínterim em que protege, vigia os acertos e as gafes dos seus especiais, o anfitrião lá se colocou de pé antes de arrastar a cadeira para si. De nada tem para acrescentar a narrativa o que está por ser revelado, mas da visão do anfitrião, enxergava-se uma magnífica paisagem que misturava aquela, diante de seu controle, e, ademais, lembranças e mais lembranças de uma biografia inteira; era como se, sem mover a cabeça para trás, pudesse sentir o sabor de todos os seus passos e se arrepiar com os seus acompanhantes, a exemplos, os anseios, os medos, as conquistas... Ele tinha ansiado tanto por esse tribunal, que a ideia da cerimônia lhe tinha sido desvelada quando ainda era apenas um ninguém, porque muito cedo também lhe tinham entregado, eles mesmos, os réus, o veredicto. Culpados. Que lindo era tê-los todos reunidos. Nesse um segundo de deslumbre existencial, a música se cansou de ser dançante e outra vez se tornou erudita. Não querendo, o anfitrião, se delongar muito, poucas palavras foram pronunciadas; tanto grato, quanto agraciado, estava ele, por compartir das companhias de seus parentes nessa comemoração. Um brinde às surpresas que a existência nos dá junto com os novos dias! Assentaram-se e se serviram da comida que cintilava de tão apetitosa. O chefe da cozinha veio pessoalmente montar o cardápio do anfitrião no pedaço da mesa em que ele iria sentar e avisou aos visitantes que não se servissem destes, até porque eram os mesmos que os deles, porém em proporções menores para o senhor. Quem ligaria para essas frescuras, se tenho, eu, um banquete que parece infinito vizinho à minha avareza? Os alimentos já estavam se compondo nos talheres e com o anfitrião não acontecia diferente. Em meados de meio minuto, as aleluias que eles cantavam com as bocas cheias de prazer foram caladas pelas expressões de angústia de quem puxa dos ares clemência, mas tudo o que recebem é a ida daquilo que não serve mais para os pulmões. Coitados! “Requiem aeternam dona eis, Domine,/ Et lux perpetua luceat eis”, cantavam o coral. Os murros dados na mesa, as mãos segurando os pescoços como se esperassem um milagre, os baques das cabeças sobre os pratos; eram fortes os barulhos. Alguns conseguiam até se levantar, em um desfile desesperado, mas não iam muito além, caiam mortos como os seus companheiros. Silêncio. “Repouso eterno dá-lhes, Senhor, e luz perpétua os ilumine”.
       Enquanto comia, o anfitrião recordou-se de uma anedota pessoal que lhe fez rir consigo mesmo. Acalmando o garfo e a faca, ele admirou o salão em toda a sua quietude, chamou um dos mordomos, que parados assistiam a cena, para contá-lo de que estava satisfeito e arrastou a cadeira para ir ao seu aposento. Se nós o conhecêssemos de verdade, saberíamos que atendendo ao seu pedido, não faríamos mais do que mal a nós próprios, concluíram os finados ao se darem conta de que em seus corpos nenhum verbo sobrara. O disfarce não era mais indispensável, então apresentemos novamente o pecador original, o oportuno Caim. Foi uma grande noite. E de braços dados a ela, veio também o júbilo e o cansaço, mas este nada tem a ver com a maldição, forjada em nó, por ele ter atacado o sangue do seu sangue, mesmo porque nenhuma gota foi derramada, não oferecendo razões ao rubro para rezar por justiça. Queria, ele, o anfitrião último daqueles não mais ditos-cujos, dormir como um de seus convidados, sem sonhos, imóvel, para que o anúncio do dia seguinte batesse às vidraças mais rápido que a luz, o acordasse, e lhe aquecesse a pele demonstrando que era ele que se demorava e não os que Deus-os-tenha.

          –– Por favor, limpem a bagunça. –– disse para os empregados que o notavam subir as escadas. Às suas costas, os encarregados do ofício começaram a tirar à mesa como também as suas sobras.