Enfim

| sábado, 27 de dezembro de 2014 | 0 comentários |
Desconheço o tanto que ainda continuarei aqui
E talvez, realmente, a minha hora esteja chegando
Eu preciso correr –– preencher estes pés com milhas
(Se não, por quais caminhos voltarei quando eu me for?)
Da mesma maneira que eu preciso escrever
–– Sujar a brancura com a minha terrível desgraça
Sem que ela pareça tão feia como, de fato, o é
A Beleza tem dessas pequeninas brincadeiras:
Extasia os olhos com outros Olhos;
Alimenta as bocas com outras Bocas;
Enfim, completa os corpos com outros Corpos
E a alma se transmuta em onde já é morada

Eu preciso escrever –– como se não existisse nada mais
Como se não houvesse amanhãs nas pontas das noites
Porque é verdade que nada existe e que antes do escuro
Há mais escuro, semelhante aquilo que vem depois dele
Se não são as palavras, como terei graça nesse rosto?
Elas são os semblantes de coisas que são invisíveis
E a transparência é quase como a irreal irrealidade
Eu daria metade das palavras que conheço
Para desconhecer a outra metade que ainda conheceria
E devolveria metade da idade que eu aprendi
Para ter a idade que as primaveras me decretaram
Assim, poderia, eu, ser o filho daquele que não quer um pai
Tornando consumada a maior das minhas traições

Eu preciso escrever –– com o perigo de nenhum algo me existir
Nem traço algum, nem contornos e curvatura alguma
Porque esse é o meu rosto, o meu corpo e a minha beleza
Que ninguém mais além de mim conseguirá pensar e sentir
(Se eu não escrever, quais narrativas me ouvirão quando eu me for?)
Enfim, da mesma forma que eu preciso morrer
–– Amenizar essa fantasia majestosa de também persistir
(Se eu não tenho tal vontade, do que sentirei falta quando eu me for?)

Despir-se

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Faz vinte anos que estou com essas roupas
São elas que me foram colocadas ao nascer
De fato, troquei algumas peças ali e aqui
Mas elas nunca me permitiram a pele

Agora, quase aos vigésimos primeiros acordes,
Tais vestimentas parecem não mais me servirem
Talvez seja a hora de ficar um pouco despido
Um ano, dez, ou pelo resto das passagens até o fim
Não sei! Ainda lá não cheguei e aqui está suspenso:
As luzes acesas se mostram, para mim, apagadas
Enquanto o escuro parece me enxergar mais
Com as roupas, vão-se os assuntos profundos
Quem sabe por isso os meus dizeres viraram rasos

Deixar a pele se arrepiar com os ares que vêm
Sejam eles quentes ou frios, agitados ou calados
Sem saber de onde eles nascem e como se deitam

                                                                  Quando a noite chegar, talvez, eu rasgue os tecidos
                                                                  E com a permissão que me atingiria já de prata
                                                                  Eu atire preciosas pedras que, ao longe, me tingirão
                                                                  Se não conseguir, eu sei, posso tentar ao amanhecer
                                                                  Mas mesmo que as luzes dos dias me assustem
                                                                  O corpo que não quer a troca de roupas
                                                                  Obriga as roupas a buscarem um novo corpo.

Facas únicas

| domingo, 21 de dezembro de 2014 | 0 comentários |

       Sua corrida é ligeira, apesar dos passos serem curtos e tímidos. Tem um certo desespero contido ali, naqueles pés, que se liberta e se abafa ao mesmo tempo em cada novo espaço alcançado pela sua ida. Ela parece não desejar voltar de onde vêm. Quem a vê correr, se é que a veem, duvida se ela quer mesmo sair do lugar; talvez nem devêssemos chamar isso de corrida, mas de um rápido caminhar, de uma afoita marcha. Ela está vestida de um sobretudo negro, sapatos de salto alto, com os cabelos colocados de uma maneira especial para suportar um transparente véu, também negro, que lhe cobre os olhos desconfiados; eles olham para todos os rumos como se esperassem que algo de surpreendentemente ruim aconteça e afete a dama que lhes carregam. Fechado o sobretudo, o seu comprimento, que vai até os joelhos dela, não permite saber o que existe debaixo daqueles tecidos que contêm, em si, a profundidade da noite. O braço direito dela mergulha na parte interior da vestimenta e, sem nenhuma mudança por causa do seu movimentar, permanece como se algo confidencial segurasse a sua mão; já o esquerdo, puxa a mesma parte do sobretudo na tentativa, quase bem sucedida, de tapar a invasão e disfarçá-la. Seu semblante é uma mistura de assombro, preocupação e nojo.
       É uma segunda-feira de serena luz solar, as ruas estão cheias de carros e as calçadas, de pessoas dentro de suas rotinas, como é de se esperar. Ela desvia dos andantes como se dançasse uma música que apenas ela ouvisse –– quem sabe, de fato, ela esteja ouvindo e eu que seja mais um outro surdo para timbres tão específicos. “Os dias todos poderiam ser chuvosos, assim ninguém ficaria por muito tempo fora dos recintos”, pensa ela no momento em que, por pouco, não encosta no ombro da moça à sua frente que parou de andar de repente. Superado o obstáculo no percurso, ela continua a sua trajetória atravessando a rua, enquanto os carros se aglomeram a espera da permissão de colecionarem mais pavimentos. Ela sabe, sabe que todas essas pessoas guardam a mesma coisa que ela; que elas são tão perigosas quanto e é por isso que ela não quer encará-las, encostá-las e conversá-las.
       Do outro lado, ela olha para a calçada paralela a se certificar de que não está sendo seguida. É tanta pressa, semelhante a uma animália que foge do seu predador natural, que ela nem se atreve a observar os reflexos que vão lhe acompanhando, ausente o risco de fixá-los nos próprios espelhos da alma. A humanidade que a provêm é a mesma que a devora. Nota-se pelo jeito impecável de se vestir e se adornar, também pela maneira confiante em que todos os movimentos se equilibram sobre o seu corpo, que o cuidado é uma presença nesta mulher, mas por alguma razão uma de suas pernadas desconversam com a intenção e ela cai de joelhos em meio à aglomeração. O braço esquerdo rapidamente solta o sobretudo e se alonga em direção ao chão para que a queda se estabilize; o direito está como sempre esteve, sem que o seu segredo seja revelado. Poucas pessoas reparam realmente no ocorrido, porém tão logo há o desmoronamento, surge também as suas consequências: pernas distantes se aproximam, preenchendo o alcance visual dela, que ainda mantém a cabeça inclinada.
       Como se a força invisível que lhe amarra a mão direita se desfizesse pelas mordidas do instinto, das cortinas enlutadas saí uma mediana faca que reluz sorrindo para os curiosos. Ela se levanta. As pessoas se afastam. Silêncio. Algumas pisadas para trás são dadas e ela se vira de costas e corre violentamente. Na mão direita a faca, na esquerda, a liberdade –– o seu crime.

No escuro

| terça-feira, 16 de dezembro de 2014 | 0 comentários |


















No escuro, te experimentei como se não houvesse
Dia seguinte. Não houve.
A escuridão fez um combinado com nós dois:
“O que os olhos não veem, o coração também sente”
E eu senti o meu coração se desintegrar pelo seu corpo
Enquanto você caminhava, às cegas, pelo meu.