Sol Negro

| terça-feira, 10 de julho de 2012 | 0 comentários |
       Mais uma vez, os seus cabelos nascem por trás do horizonte, anunciando que as pequenas estrelas deixaram o céu para descansar. É o momento em que se acordaram os amores do peito, desprendem os pensamentos dos leves tecidos de sonhos, de abrirem os olhos com o toque da realidade. Assim levantei-me, como de costume, ao som da luz matituna que brinca de desenhar girassóis em forma de mulher; o meu relógio diz que eu estou bem, apesar de estar a meio caminho atrasado para um sorriso que já deveria enganar. Ainda cego e sozinho, sendo lavado por lágrimas que nunca foram minhas, vesti-me de minha mais comum fantasia e caminhei em busca de uma vida que estava perdida antes mesmo de eu tocar as nuvens. Por vezes, seus fios tornam-se anoitecidos, como se sentissem saudade de algo que brilhe mais, mas nós sabemos que nada é mais grandioso e encantador quanto você... Ao menos não em meu mundo. Agora correndo, meus passos te chamam, e você está lá, sobre mim, por mais que minhas feridas permaneçam em silêncio.
       Algumas gotas invisíveis de sangue me mostraram que eu me esforcei para te esquecer, mas há coisas que nem mesmo o esforço de uma alma pode apagar. E eu me escondi em um lugar onde existia muito mais do que paredes e pessoas, enquanto você as iluminava e fazia dentro de mim ficar mais frio. Com toda a poeira sujando a chegada as cores em minha visão, um anjo respondeu a orações que meus lábios nunca fizeram: hoje sua coroa ganha mais uma pedra preciosa; hoje seu reino alcança  todos os olhos fechados e meu coração guarda mais uma lembrança de você.
       Tão distantes, como o para sempre e o fim, você e eu sentimos que o Outono se aproxima de suas raízes. Nas sombras em que suas folhas caem, no chão em que elas repousam, estão minhas dores e sorrisos a você. Mesmo se eu tentasse me aproximar mais do que necessário para dar vida às minhas flores, para tornar a escura cegueira em intocável inocência, nossas mãos nunca se amariam, porque a sua presença foi um desenho ensolarado sob as minhas pálpebras, amantes das noites mais tristes. Você respira a um altura que meus pedaços não conseguem alcançar, mas eu ainda te adoro por repousar em meus pesadelos.