Quando crescemos

| terça-feira, 12 de outubro de 2010 | |
        Nosso céu não é mais azul. As nuvens não são mais de algodão-doce, nem um buraco no chão nos faz querer ir para o outro lado do mundo. A Lua não pode mais ser comida, porque descobrimos que ela não é de queijo. A segurança que a mão de uma mãe nos dava já não faz mais sentido. As vontades de sermos um cavaleiro que adormece monstros ou uma princesa que espera pelo seu amado com um vestido rosa se vai na água de algum banho sozinho. Os amigos se tornam diferenças, nossos iguais, e deixam de ser pessoas. Desconhecidos não são mais gigantes, e sim estranhos. O espelho deixa de ser mágico e se torna tudo o que nos preocupa.
        Não sabemos quando ou como isso acontece, porque não somos avisados, sequer preparados. É tudo muito rápido, tão de repente. Um piscar de olhos. Uma batida do coração. E já estamos em um mundo que tudo parece um tanto mais cansativo. Correr em um chão que suja os nossos pés descalços, manchar as roupas com risadas lamasentas.Tudo isso já não é mais diversão, mas inquietação. Porque temos que mostrar nossos tênis e nossas roupas mais caras que a nossa própria alma. Chorar deixa de ser uma coisa comum a todos para se  transformar em fraqueza, porque meninos não choram e meninas o fazem o tempo inteiro. Ignoramos o colo do outro, porque somos fracos demais para admitir que um dia já fizemos isso. Fazer de uma caixa de papelão uma nave espacial, um galho de árvore uma espada ou até mesmo falar o nome do seu personagem favorito como se fosse o seu é proibido. Imaginar, sonhar, são atitudes simplesmente escondidas dentro dos bolsos para que não nos envergonhe na frente da roda de pessoas.
        Deixamos a inocência infantil de fazer cócegas, de nos dar as mãos, de nos colocar no peito do outro apenas para ouvir um coração que não seja o nosso. Tudo isso se tornou incômodo, o abraço um ato assombroso. Talvez pensamos que por trás disso exista um desejo maior, onde nossas mãos não podem tocar, mas nossa mente se divertir. Porque nos importamos com o que vão falar se nos verem abraçados a outra pessoa, seja ela ou ele. Porque há um bom tempo perdemos a nossa linguagem infantil e incompreendida por aqueles que estão mais perto do céu para vivermos em um lugar onde nossas palavras podem levar para mais de um caminho.

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