Poema in-verso

| quarta-feira, 6 de janeiro de 2016 | 0 comentários |
Nesses horários em que não posso, nem consigo, dizer,
eu fico pensando como acontece a troca da palavra pelo interno
e semelhante à certeza, plana como os cantos dos corações ––
construção essa, aliás, bem comum em todas as casas que visitei ––
que escurece com o encaixe perfeito de um outro objeto qualquer e estranho.

In-versamente, já conduzi as letras a um mundo onde todas são sentidos,
quase sem nenhuma febre, sangue coagulado ou nós de cócegas.
Perdoem-me as crianças, mas... Quando mais preciso de minha virtù,
ou seja, torcer as batidas e as substâncias para que haja a alquimia do verbo,
a fortuna me toma pelos braços e me conduz a dança como o cavalheiro que ela é,
tornando-me infante que ainda não aprendeu a versar com os próprios passos.

Fora do corpo, onde tudo isso se derrama ou em sons ou em imagens,
nada desses processos importa, existentes da mesma forma que estrelas ao dia.
Eu, que sinto todos esses moinhos girando cada respirar antigo em novo,
até agora não consegui, nem pude, deixar de pensar nas trocas que acontecem.
Ontem, data tão distante que parece próximo, eu desversava o inverso que era meu,
mas, doentemente, parece que desaprendi a tecer e hoje sou daquilo que a ação repousou
a buscar, noutros verbos e noutros tecidos, o que também pode ser deste pronome.

O depois me ensinou a in-versar aquelas coisas que, antes, eram versos que viam,
moravam e, mais cansados do que quando chegavam, partiam por mim e por aí.
Mas se posso ser infiel, ao menos uma vez, aos meus queridos inversos, serei:
os re-versos viajantes que pernoitavam aqui, tornavam a estadia mais permanente.

Pequena viagem em um breve relato

| segunda-feira, 4 de janeiro de 2016 | 0 comentários |

       A Sorte sentou-se ao meu lado, na direita e na esquerda, tão cuidadosamente que se eu estivesse distraído teria pensado que este dia era o meu último e chegada a hora de ir embora, por fim. Sem muito tempo para algo mais, a bagunça ficaria como está: embaixo o céu, acima o chão e no meio os astros, claro, se invertendo confusamente como sempre fizeram, do mesmo jeito que fariam se eu estivesse aqui. Não façam disso um segredo: anunciem aos moradores daqui! Proclamem a todos o meu antigo corpo e mostrem como eu não pertenço mais a ele, nem sequer a eles! Aos ouvidos amigos, gritem que festejem, porque agora eu me instruí a voar, mas aos inimigos, sussurrem que chorem, porque acabam de perder a outra margem, tão imperiosa para que um rio se equilibre. Como a Morte ainda não estava preparada para ir comigo, muito menos para vir a uma conversa amigável, coube a mim o ofício de continuar a ser um fruto em maturação na Árvore da Vida. Quando a iminência da minha queda deixou de ser os nós das raízes lá do alto, foi que a Sorte se permitiu a descoberta pelos seus próprios olhos. Diferente de Suas familiares, como a Morte ou a Esperança, que facilmente chegam e nos levam o que querem, para terras sem leis, horizontes e sem fronteiras, Ela é aquela que chega devagar, mostrando-se, de repente, na percepção dos detalhes brilhantes do dia, na conquista do desejo não conhecido ou no olhar que se direciona aos caminhos atrás e se nota que eles também se direcionam, irrelutantes, até a sua precisa e atual medida. Satisfação... Eu estou satisfeito com o meu sabor desses dias, mesmo sabendo que o núcleo deste perfume é impossível de compor a cantata de minha ciência e, por isso, ainda o procuro; e por isso, ainda posso procurá-lo.
       Tanto imagino, pelos ouvidos que avistam até melhor quando se enterram por debaixo das epidermes, quanto aprendi, porque me avisaram silenciosamente e me ensinaram pouco a pouco, que a Sorte não brinda as suas crianças por merecimento, mas diz as lendas e os mitos que é por uma desconhecida afinidade. Mas quem dos respirantes já não merece a redenção por simplesmente sentir que sente a própria respiração? Em alguns momentos, eu me entristeço por meu rosto não ter carregado traços firmes o bastante para o agrado instantâneo dEla –– é notável, quando se anda pelas ruas, as linhas que Ela desenhou e as que desdenhou ––, noutras fases, surge um tédio quase apaixonável em razão de haver mundos que, apesar de cobiçados, nunca existirão ao redor de minha sombra e do ser que a produz e a contém; entre momentos e episódios, há intervalos em que, fora a tristeza e a tediosa amante, dou-me conta da história de mim mesmo, sendo eu o Fim e o Começo. Não é que deixo de observar que existam vidas mais verdes, violetas e laranjas que a minha, que parece não passar dos tons azuis, vermelhos e amarelados, nem de admitir que, por demais, essas composições são mais próximas de um paraíso do que as subsistentes manchas em mim, mas pude entender as decadências que experimentei antes e que me surgem hoje como amargos chocolates, da mesma maneira que me orgulho do inferno que me forjou, tornando-me lugar onde as chamas são substância e a forma, o crepitar delas.
       Toda origem termina quando a madeira e a faísca se casam: é o primeiro passo da genealogia dos universos singulares. De uns que se tornam dois, se expandem para um terceiro ou quarto e disso se segue até quando o Infinito for capaz de nos dizer, sem saber, eu, se somos nós, mesmo, capazes de ouvi-Lo. Cada lenho e cada fagulha criam, ao dançarem, naturezas únicas que crescem até se transmutarem em outros lenhos e fagulhas, para se explodirem em novas naturezas únicas: apesar de todos saberem o que deve ser feito em tal jogo, ninguém desvelou as suas profundas regras; ninguém sabe qual, nem o preço da falta a ser dividido, muito menos o número de cúmplices que se juntarão à próxima fotografia. Ela aparece aqui, em todos nós, mas depois de darem à luz que desejavam, as fogueiras, vendo as suas criações, suavizam o calor e, assim, tornam-se Lares. E entre paredes gigantes, sob tetos ondulados e sobre um firme chão, os Deuses instruem as crianças sobre a grandeza dEles através da pequenez delas. Esses presentes, que são encontrados no barulho dos olhares, nas repetições dos gestos, nas nuances das vozes, não são entregues apenas com as pétalas do sim e da ternura, mas também com os espinhos do não e do castigo, do mesmo modo com os acertos e erros dos mesmos Deuses, porque está no destino dEles mostrar que vitórias e fracassos são lábios de uma igual boca. Além de tudo isso, eu ainda tenho algumas muitas e eternas coisas a agradecer aos Deuses que são e regem esta casa, à minha héstia e ao meu ares, que tantos sacrifícios, às vezes singelos, outros, pomposos, colocaram em meu altar. Nos frágeis outonos, época em que os pequenos ouros secam e se derramam à espera dos pés alheios que os quebrarão, sem esquecer, por gentileza, dos sobreviventes que são levados para bem longe pelos não tão inocentes ventos sazonais, Eles me enchiam a casa de brinquedos, livros, de amores e diamantes, desses que saem do coração, vêm a morar na cabeça e mesmo que não os lembremos em tamanho, estão lá, transluzindo-se nos valores que nossos dedos espontaneamente contam, semelhantes aos dias primaveris que vivemos juntos, mas que não posso voltar, porque nesses tempos, eu era deveras pouco de mim. Dessas brincadeiras perigosas, o que restou foram apenas os perigos irreversíveis, porém, ao contrário das Grandes Guerras que se aproximavam, as fantasias dadas a mim não me serviam como uma cegueira branca, mas sim para me apontar que, escolhendo eu ser todas ou nenhuma delas, eu teria abraços divinos que me acolheriam como os templos fazem aos desesperados. Se hoje sou o semideus que me tornei, é porque tive Deuses que trabalharam a lustrar a minha alma o quão bom quanto conseguiram, para que eu me deparasse com a minha excêntrica radiação. Em particular, nunca vejo por completo os mistérios que são planejados pelo acaso, mas acho que este, quem escreve, deu certo ou, se não, ao menos tentará realizar o que acha. Para que a minha héstia pudesse ouvir os meus girassóis e o meu ares pudesse ler as minhas batalhas, eu seria um dia beija-flor, a contar segredos que em meus jardins levantam, e em outro, soldado, a transformar lágrimas e dores em suor e raiva, porque é triste saber que minha Deusa não ouvirá as canções que canto, enquanto o meu Deus não lerá as cartas que conto. É justamente porque os meus Deuses me deram o fôlego e as chances, que pude respirar com a delicadeza de uma epidemia incurável e arriscar com a tranquilidade de um pássaro que busca pousar no horizonte.
       As temporadas de serenadas e fantasias solitariamente acompanhadas entram na película quando ela já está elástica o suficiente para ir em direção a um outro e torná-lo parte de si mesmo. Bem-vindo à juventude, querido Amor! Mas saiba que os primeiros sonhos acordados de um entardecido nunca são esquecidos por ele, como também acontece quando as últimas realidades adormecidas se libertam e os carinhos ensolarados que eu sonhava receber só foram interrompidos por um real eclipse total. Então, soube eu que aquela estrela maior que se desenhava em mim, junto com todos os atares, tinha azares e lindo era o Sol Negro, mas incapaz de sustentar uma completa mortalidade. Uma gota é o que separa a cura do veneno e de tanto admirar o altivo, desdenhei o meu próprio caos, que alimentava os anos-e-luzes que subiam, mal sabendo eu que era aquela nuvem disforme, e não a solar e perfeita circunferência dourada, que oferecia, muito mais do que chuva para esta terra se molhar, um espírito a esta fria mecânica se esquentar. Por mais crível que pareça, as minhas mãos não se desfizeram quando colapsei o meu secreto miolo em verdade ao Sol; em vez disso, o desci da coluna que era sustentada às minhas costas, colocando a sua estátua onde eu acabara de marcar um rastro: é o meu apolo, sempre fará os passados de minhas lembranças ficarem com ares de afeição, mas quando eu espiei sinceras curiosidades sob o seu material, nada mais perto do que as minhas aspirações apareceram. Foi assim que eu acordei das românticas arestas e vi o Amor se despedir de mim, sem saber se aquilo que vivi era amor por alguém ou amor pelo Amor. Por fim, cresci como quem anoitece, descobrindo a diversão e o fado que é pintar as próprias iluminuras. Nunca, na história desta fruta, se terá outra vez a fluidez daquela primogênita paixão, porque ao expulsar a transcendência de tais sentimentos, são as carnes e o sangue que colorem a surginte supernova. É um novato princípio, logo se faz necessários imaculados algoritmos para se montar os eternos enigmas e suas peregrinas esfinges: onde era candura que se faça rubro! E o que quer que seja que se arrastava nos palácios celestiais, passou a caçar dentro das cidades mundanas. Ao contrário do que os ascetas pregam, existe uma espécie de beleza rara nessas poluições urbanas e eu, por duas vezes, que nem mesmo acreditava de fato na existência dessas paisagens, apesar delas aparecerem aqui e ali em todas as calçadas, e improvavelmente ser escolhido para compô-las, fui envolto e eleito por fumaças menos justas do que aquela moeda de duas caras. Elas germinaram quase do mesmo lugar, mas em distintos calendários; eram como peripécias de uma aposta que eu havia semeado com o Diabo: caso eu conseguisse a desublimação dos fantasmas, induzindo-os a afáveis presenças, queimaria, ele, as minhas palavras e a partir de então, se ouviria de mim a fonética dos Homens, porém, se eu fizesse dos gregários mais e mais invisíveis, ao ponto de cumprir a maior e mais certa de minhas teóricas profecias, venceria o dito vencido e, como mérito, ganharia os campos inférteis para as promessas seladas com beijos. Quando dei por mim, eis que já haviam se arrastado dois meses e não precisou de mais uma boda para que a primeira fumaça se dissipasse às minhas memórias. Antes de chegar a essa entropia, me perdi em algum segundo entre o anúncio da minha maldição, dita como quem tem a certeza do término –– e eu tinha! –, e a minha assinatura no sim ao começo. Aí, talvez, é que eu tenha errado: o não poderia me ter evitado muitos desgastes fibrosos importantes para se alcançar as idades maiores e, quem sabe, a companhia, os doces e demais coisas tenham me feito uma pessoa melhor. Nenhuma boba criatura veio tirar o prazer revelando isso, mas independente de se ter alegrias ou desventuras, eu tive que sair da Casa dos Dez, quando, do lado avesso, avistei no canto do ciclo, o Diabo lagrimejando pela perda do jogo. Os leves ferimentos não submergiam as gargalhadas que as certezas derramavam em minhas atitudes: ele, humilde e humilhado, me pedia para tentar outra vez e eu, ingênuo, aceitei, com a confiança de alguém que, ao abrir a porta, sabe que não gostará da surpresa visita. E aconteceu, de repente, como uma miragem que se permitiria entrar, a segunda fumaça construiu-se diante de mim. Tamanha era a perfeição do cenário que os aromas costuravam que eu, em menos de uma semana, já pensava que poderia salvar os anos que nunca viriam e os povos que se condensavam naqueles predicados. Quatro músicas contínuas de declarações e sorrisos tocaram e, a partir daí, os harmônicos instrumentos de outrora começaram a desafinar, até que na sétima apresentação, os instrumentistas se rasgaram de seus papeis, abandonando as cordas e as chaves a lamentarem sozinhas. Houve silêncio; desde quando eu estava preso aos ecos sem retorno, houve apenas silêncio, e me libertei da segunda fumaça quando ela me libertou das suas mentirosas magias, evanescendo tão foragido quanto a sua erupção. Penso que existem modos mais nobres de ser covarde, mas as mentiras de alguns, mais do que as suas verdades, dizem melhor a respeito das intenções do que dos medos. Assim eu soube que nunca tinha tido nada além de coisa alguma daquela fumaça, nem partículas inaladas ou qualquer desmaiar. Talvez pelo decreto de ter sido o último ensaio, tentei correr para ainda guardar algum movimento das imagens, porque apesar de ambas as supernovas terem químicas similares, essa teve as sequelas mais esperançosas, mas, afinal, aceitei a minha preciosa conquista, enquanto o Diabo se conformava com a sua definitiva perda. Ninguém, a não ser eu, poderia provar de modo tão belo, o quão desonesto e bélico é as colisões e as rendições, as entregas sem destinatários, os mortos e os feridos, dos votos que os amantes anunciam ao se entrelaçarem e, reconhecendo isso, os campos devastados da aposta foram dados sem demora. Longe de ser um pagamento infortuno, a aridez deste solo faz próspero os demais e em rápidos instantes, já me reconheci como pertença do deserto, porque ele sempre foi meu e por isso, agora, eu posso ganhar os indesbraváveis impérios.
       Nesse ínterim, onde estou é, ainda, o âmago das colinas que o meu trabalho irá erguer com a argila, a água salina e a paciência, minguando essa quase planície –– embora com tantas depressões ––, enchendo-a de valiosos relevos para quando as asas do meu ângulo forem consistentes a sustentar o meu pessimismo corpo, eu ultrapasse os limites dos limites e me lembre, saudosamente, mas sem nunca ter me esquecido, do chão que me deito e o faço de lar, temperado lar. Todas as coisas se desmembram em durações e se as imaginarmos divididas em dois continua, para melhor compreendermos, sem nos atermos as pequenas eternidades e às grandes finitudes, enquanto decorre a disposição em uma, o cansaço em outra já me espera. Mas como essas mesmas coisas se cumprimentam pelo relógio –– e tudo são consanguíneos e números, em que o norte está no leste e estes no sul, formando juntos o oeste e assim do início ao para sempre ––, não existem querelas entre elas, apenas os ponteiros descompassados que denunciam as canseiras que trazem e as euforias por aquilo que o desejo já trouxe do porvir. E eu, que por muitíssimo tentei fugir dos clichês e dos acertos, sou o centro fixo dos ponteiros e de suas respectivas setas, e caio na evidência de que não é fácil, até porque a única blasfêmia sem um herege é que assim seria, mas também não impossível, tanto que ainda aqui estou. Dentre o zero e o um, muitos atos e desatos hão de ser lapidados, como os momentâneos proêmios de preguiças que ardem as visões e quenturas que escorrem sei lá se do peito ou do coração. Uma fragrância que mesmo há horas em nossas sensações, um bocado gelado que se desfaz na boca permanentemente, que não deixamos a nós de presenciá-la, que não deixamos a nós de vivenciá-lo, é isso que se parece a quietude das ferramentas ao soltarmos as causas e nos refugiarmos nos efeitos.
       Festejei assim como o que holocausto e holocausto assim como o que festejei. Aquele corpo que não pode mais se chamar de meu, fez-se ascendência e, ironicamente, é um pouco deste que teve a experiência da altura. A cerimônia fúnebre, que se espalhava de animados para inanimados semelhante a neblina nas longas noites, isto é, ao se dissolverem no breu, indivíduos e coisas voltam se descortinando as janelas e apercebem que elas sim é que foram cortinadas durante o sereno, realiza-se no interior deste novo organismo na ausência do meu anterior. Todos testemunham, dos amigos aos inimigos, em menor ou maior grau, mais cedo ou mais tarde, tão quanto pelas notícias ou meramente pelas suas implicações, que corro como um rio sem margens e que me voou, flutuando, nem muito superior, sequer muito inferior, porque, afinal, o curso das correntezas agora é um tanto mais que repouso, uma já alameda de pedregulhos, são as próprias ondas esculpidas nos batimentos de um vazio a outro e os meus braços ainda estão a se movimentar como e com os astros.
       A Sorte levantou-se, sem nenhuma lasca de fadiga ou desapontamento, e mostrou um sorriso que me falava “nossas visões e nossas aortas se cruzam formando uma só história; a Árvore da Vida que não sou eu, torna-me e logo torna-te, mas nada disso quer dizer que somos o mesmo fio de um mesmo enredo, tanto ela comigo, quanto eu contigo. A qualquer dos dias, eu posso vir a faltar, você pode vir a não mais me ver, então não dê a licença comum a um pedido, o deixe que não passe, o tranque à porta do seu lado, lembre-se: quando essa pandora abrir, me enxergue no fundo que é transparente; a curva que existe em toda reta, o belisco que falha em todo afago. Não é que não estejamos lá, talvez seja apenas um pouco de timidez da nossa parte e, da sua, indisposições dos globos oculares”. Quem sabe como um último ato, o Seu rosto refletiu o meu e sabendo eu do perigo dEla me desaparecer, escapar da moldura oval de minhas vigilâncias e nem me mandar cartas contando sobre as demais hospedagens, balancei os dedos da erguida palma para mostrá-La todos os velames que me puxaram com os Suas e outras auras para cá, ao mesmo tempo que A agradecia. Eu não poderia querer nada diverso do que foi; nada poderia ser diverso do que foi: a brisa que sempre se esquiva no paladar, as feições que se desentendem e não se dão bem, a ignorância dos Deuses, os amares esfumaçados, os afazeres árduos que, de uma maré a outra, ficam rarefeitos por vezes; enfim, todas as folias, dessas com februras mais lamentosas às mais risonhas, que movem os redemoinhos a girantes, porque sou irmão de tais milagres e, como eles, eu não poderia ser o que sou a não ser tendo sido o que fui, naquilo onde tudo de respostas podem ser dadas e a figura que respondo sou eu. São os efêmeros que não passam, os recordados, e não as recordações, que dilaceram um sentido ao rodopio. Sim, ainda que vitral e mutante, um sentido. Relato este que não foi inventado por mim, mas me contado por Ela para que nunca me perca que il était une fois, a Sorte e eu.