O semeador

| quarta-feira, 26 de outubro de 2011 | 0 comentários |

       Não é importante citar o quando e o onde isto aconteceu, porque tempo e espaço não são coisas que o coração compreende; não quando esse quer desenterrar uma lembrança ou inventar uma fé em um futuro incerto. E para compreender o que está por vir é necessário enxergar com o coração, não única e simplesmente com os olhos e a mente.
       Era um menino de aproximados cinco anos de idade. Vestia-se com roupas muito gastas, às vezes rasgadas, outras manchadas, mas sempre bem colocadas. Mesmo sendo coxo e tendo no rosto uma deformação, ele não deixava de ser lindo; talvez nem fosse tanto, mas a alegria que ele exibia tornava as coisas mais amenas. Ele surgia todos os dias naquela mesma rua, naquele mesmo horário, junto de sua cestinha coberta por um fino pano florido. A rua era extensa, permanecia deserta e apresentava grandiosas e bonitas casas. Sua chegada era tímida, porque ele sabia que não podia competir, de qualquer maneira, com nenhuma delas. Como era muito pequeno, logo ele arranjava algo para alcançar as campanhias. No primeiro dia em que ele começou suas visitas, apenas uma das casas abriu suas portas:

      - Com quem... - A empregada parou sem entender a razão de uma criança estar na frente da porta, mas continuou - O que você quer menino?

       - A senhora é a dona da casa? - Perguntou o menino que até então estava de cabeça baixa mexendo em sua cestinha - Se a senhora não for, poderia chamar o dono? Porque tenho um presente para ele - E levantou o rosto sorrindo para a mulher.

       A mulher ficou assombrada, não imaginava que o rosto de uma criança poderia repousar marcas tão profundas. Ela se refez, tentando não passar o susto ao falar com o menino:

     - Não... Não, sou a empregada. Mas não posso incomodar meu chefe por causa de uma criança - Sumindo atrás da porta, começou a fechá-la.

      - Por favor, por favor... Peça que ele venha até aqui. Fale que é algo muito importante, um presente, mas que só posso dizer a ele o que é - Disse sorrindo.

       - Está bem. Só não prometo que ele virá.

       Os motivos que a fizeram fechar a porta querendo que ela abrisse novamente foram maiores do que a pena que sentia do menino; os passos rápidos em busca do seu chefe mostravam isso. Enquanto ela dizia quem o esperava lá fora, ele já arrumava todos os materiais que seriam precisos. Apesar da empregada ser muito querida pelo chefe e ter uma ótima persuasão, ele era um bom homem, foi isso que o fez ir verificar que presente era esse:

       - Prazer linda criança, eu sou o dono da casa -  O homem era alto, tinha uma voz forte, agradável e nos lábios um sorriso sincero aparecia. Os olhos dele pareciam pequenos quando sorria - Minha empregada me disse que você me esperava. E que tinha um presente para mim... Hum, que presente é esse?

      - Muito obrigado por ter me recebido, senhor. São flores - Ao falar isso, mostrou um pacote de sementes - Eu queria plantá-las na frente da sua casa. Não precisa pagar. Mas um aviso senhor, eu cuidarei delas até conseguir semear todas as casas da rua. Quando isso acontecer, as flores serão totalmente suas. Posso, senhor?

        - Claro, claro!

       Com a resposta, o menino foi apressado escolher o lugar da fachada onde plantaria as sementes. Foi vendo-o caminhar que o homem percebeu que além do rosto doloroso, ele também carregava o fardo de ser coxo. Por mais estranho que isso seja, o homem se encantou com toda a cena; decidiu então ficar ali assistindo todo o espetáculo. O menino parecia estar mais em uma brincadeira do que em uma séria ocupação, mas isso não significava que ele a fazia sem dedicação. A pouca idade não anulava a habilidade profissional ao mexer com as sementes; as pequeninas mãos exalavam um carinho maior do que ele ao manusear toda aquela natureza. Eu não sei dizer quanto tempo se passou, porque certamente ambos não tiveram a mesma percepção. Mas já é sabido de todos: quando vemos ou fazemos algo que nos é apreciável, a demora parece muito rápida; um segundo de uma eternidade. Terminado o trabalho, o menino se despediu do homem e esse sabia, ao ouvir o som da porta sendo trancada, que todas as coisas estavam diferentes.
       E ninguém mais quis ser presenteado, não naquele dia. Ele continuou voltando para a sua solitária procissão pela rua nos outros dias, mas as coisas não se faziam tão fáceis assim. Haviam aqueles que nem esperavam a fala do menino terminar para dizerem um "não" e fecharem a porta; outros nem ao menos o ouviam. Alguns chegavam ao ponto de o humilharem, ofenderem e até o empurrarem para longe da entrada da casa. Adultos são dessa maneira, ignoram o que os pequeninos dizem, mesmo quando se pode tocar a verdade na cor dos olhos deles. E se essa verdade colorida os incomoda, eles a afastam de si mesmos até não poderem mais vê-la.
       Diferente das outras portas que nunca se permitiam entrar, uma se fez tão impenetrável quanto os sonhos de outro coração. Era uma das casas mais bonitas, para não dizer a mais, e o seu tamanho era proporcional à sua beleza. Banhada por um branco nunca visto pelo menino, ela parecia brilhar quando o sol também resolvia olhá-la. Os toques amarelos que nela repousavam davam a impressão de serem feitos de ouro, as janelas mostravam cortinas escuras e pequenos desenhos se espalhavam pela construção, chamando a atenção pela delicadeza que eram feitos. A pergunta se aquilo era uma casa ou uma obra de arte passou mais de uma vez pela curiosidade do menino, não ouvindo resposta, ele resolveu não entender, somente tentar semear suas sementinhas.
       Nos primeiros dias, nenhuma alma, boa ou má, apareceu. De início, o menino pensou que os ocupantes poderiam estar ausentes e como havia muitas casas para presentear, foi ao encontro delas. Semanas passaram, boa parte daqueles que o trataram mal, se renderam e permitiram que plantasse em suas fachadas. Esse resultado poderia ter vindo do maravilhoso trabalho dos que permitiram sem recusa o agrado ou, quem sabe, por vizinhos terem elogiado o menino em conversas. E todas as casas estavam jardinadas com as mais belas flores, faltando apenas aquela que nunca abriu suas portas para desejar uma boa vinda, muito menos um gritado adeus. Ele cuidava de todos os jardins como havia prometido aos donos, que sabiam que o cuidado pararia quando a única casa restante fosse semeada, deixando por último essa que ainda não o permitia retornar para lugar algum.
       Sempre que chegava, enquanto tocava a campanhia, ficava admirando a casa que parecia um palácio. Em um desses instantes de admiração, o menino viu a sombra de alguém aparecendo na janela, mas que desapareceu tranquilamente rápido. Ele esperou algum tempo olhando para a porta, achando que iriam atendê-lo, mas ela não se abriu e nenhum barulho indicava que apareceria esse alguém para isso. Com a sua cestinha, o menino sentou na frente de onde poderia ser um confortável lar para as flores; procurava algo dentro dela que parecia não ser pego com muita frequência, mas logo encontrou. Nas mãos do menino se via uma pedra comum, média, que foi colocada sobre a terra. Levantando-se, foi embora esperando o amanhã.
       Os dias seguintes foram todos iguais: voltava, ninguém o atendia, então ele pegava uma pedra e colocava do lado da que foi posta no dia anterior. A sua devoção ao descansar as pedras era a mesma que ele tinha com as flores vizinhas; dava atenção a elas como se pudesse ouvi-las e depois dessa conversa silenciosa, ele deixava aquela rua. Alguns donos das outras casas achavam esse comportamento do menino um tanto estranho, mas como tinham coisas mais sérias para pensarem, não se prenderiam a banais pedras. Com o correr dos dias, as muitas pedras formaram um jardim incomparável aos demais daquele lugar; sua fortaleza nascia da resistência de suas "flores" e sua fraqueza se escondia no instante de que a qualquer momento, por qualquer razão, poderia ser jogada fora como se fosse nada. Até o cinza sorria naquela casa.
       Oferecida a decisiva pedra para o último pedaço de terra daquela fachada, ele olhou o terminado jardim que havia semeado na única casa que lhe entregou apenas a sombra de seu morador. Foi com um olhar triste e uma elevação nos cantos da boca que o menino cumpriu a sua promessa, entregando inteiramente o seu presente para os seus donos. Ele nunca mais retornaria àquela rua, porque cuidaria de todas as coisas que surgiram dentro dele durante aquele tempo ali, guardaria todas as pedras que encontrasse por aí.
       Os moradores nunca souberam de onde, nem para onde foi o menino que insistia em plantar suas sementinhas tão entusiasmado. Mesmo se eu quisesse, também não saberia dizer. Igualmente longe do meu conhecimento está o que os presenteados fizeram com os seus presentes. Suponho que algumas flores devam ter morrido, seja por falta do mesmo carinho que o menino tinha com elas, pela falta de habilidade dos donos ou por puro desprezo dos mesmos. Algumas outras porções devem ter sido bem cuidadas, tornando-se parte das próprias casas. Se o jardim de pedras está sutilmente como foi construído, eu não sei, mas nada disso importa. A sua preocupação aqui deve cair no que foi semeado em você e apenas isso.

Embriagado

| quarta-feira, 12 de outubro de 2011 | 0 comentários |













Ontem você disse que levaria sua respiração para longe
Mas as luzes ainda permanecem apagadas esperando você chegar
É assim que vivemos quando você não está aqui
Em silêncio, nós sabemos que você não gosta do escuro
Nem das cortinas que cobrem a porta da frente

Ela tenta encontrar no relógio o minuto em que o seu amor caiu
Porque você não é mais o homem que a salvou de casa
Com o rosto molhado de preocupações, ela destranca o início
Mas até os anjos se cansam de encarar as nuvens por muito tempo
E descansando o corpo sobre sonhos disfarçados de lembranças
Ela adormece, como se nunca houvesse te amado

Os sussurros de outras datas, agora são gritos
Semelhantes às mentiras que hoje têm sons de verdades
Lá fora, você conhece todos os bons lugares para ver o entardecer
Com os melhores e mais gelados venenos embriagando o seu vício
Essa é a fuga que seus lábios escolheram como companhia
Você é o meu reflexo quando olho o que acontece atrás do espelho
Mas enquanto você tropeça nos seus próprios passos
Eu me perco dentro das minhas profundas tristezas

Não se mantendo em linha reta, os olhos parecem sorrir sangue
Cego e de volta ao castelo de areia que você mesmo construiu
Você não lembra em que parte de sua sanidade está guardado o segredo
Assim a razão de continuar se esconde em uma noite engraçada
E outra vez você chega atrasado para uma alergia que acontece na solidão
Uma vida que nunca passou de antigas imagens empoeiradas.

Meu oceano

| segunda-feira, 3 de outubro de 2011 | 0 comentários |
Passos rápidos me fazem cair
Dentro do meu eterno oceano
Desconhecidas ondas que me levam ao fundo
Chamas frias queimam o meu corpo
E minha pele se colore de vermelho e aberração
Quanta alegria os dias que eu podia mergulhar
Sem medo e sozinho em meu próprio sal
E morrer com as minhas lágrimas.

Seu ombro

| domingo, 2 de outubro de 2011 | 0 comentários |
       Meu corpo está cansado de se expor às claras manhãs que anunciam longos dias; meus pés estão machucados por percorrerem os mesmos caminhos, pelas tentativas de uma mesma vida. Você sabe disso, desses detalhes que me quebram impedindo que eu me levante por inteiro; o quão pesados são os meus pensamentos nesse coração doente e o quanto são confusos os meus sentimentos quando minha mente se arrisca em compreendê-los. Essa é a minha maneira de mentir não estar mais perdido do que já estou, de ter algo mais sólido que incertezas. Mas hoje as luzes brilharam tão intensas que não pude ver o chão que me suporta, nem o céu que antes me dava desejos para o próximo amanhecer. Não sonhando com os passos futuros, sei que você descobre o inocente desespero que aparece em meus sorrisos nas brincadeiras diárias, o valor do silêncio entre as nossas conversas. No fim das guerras matutinas, e das minhas internas, os sobreviventes são sempre você e eu.
       Quando te tiram do seu lugar na minha rotina, meus olhos não ficam claros como deveriam e eu sinto a sua falta. Então logo percebo que sempre estive esperando por você; aquele que chega para abrir as janelas de uma casa escura demais para as noites ensolaradas, que ocupa os abraços vazios de um alguém solitário. Assim você fez ao se aproximar da minha sombra e continua fazendo, por acreditar em uma estrela minha que eu não vejo. Em segredo, as paredes do meu mundo foram desmontadas e no meio da destruição, você cultivou o seu nome em meu peito. As poeiras tinham cheiro de confiança e as nuvens carregadas de alegrias derramavam gotas de amor sobre as ruínas de mim mesmo; recentes paisagens coloridas por você. Talvez seja por isso que a desistência não tenha vindo em outras primaveras, para que eu te encontrasse em um canto maior que meus pesadelos.
       Eles nunca pararam para me observar mais do que um fechar de olhos, mas você ainda está aqui, mesmo depois de ter conhecido os meus espinhos. Isso me faz bem, como nos momentos que ergo meus braços e você não permite que eu caia, nem que os minutos passem através de mim, muito menos que me levem para longe daqui. Eu estou com muito medo dessas coisas que tentam me ensinar e não consigo aprender, porque eu sou uma criança mimada e essas são castigadas até não restarem nada que as façam reais. E de tanto corromperem minha infância, esqueci o que é esperar pela realização. Mas há dias que os pedidos são que eu olhe para frente e não me distraia com a sua voz; eles não entendem que é por essa fenda que ainda respiro, que é por essa linha que ainda me mantenho são. Eu soube que você era um ótimo anjo antes de me visitar, mas sem asas você não é muito diferente disso.
       Às vezes me faço tão intocável, são nessas estações que preciso da sua presença mais perto de mim. Porque ela faz as minhas feridas ficarem com sabor de cicatrizes e lembrando daqueles minutos que o sono te possuiu, foram neles que descansei minhas fraquezas em seu ombro. Nenhuma dor estava curada, mas eu poderia ficar ali eternamente assistindo o fim colocar tudo em seu devido espaço. E apoiado em você, eu já estava em casa. Você me conhece melhor do que meu reflexo, por mais nublado que eu me torne ao ser percebido. Enquanto você salva a minha sensação de existir, suas risadas pedem que as minhas as acompanhem e por isso ainda guardo a lembrança do que é se divertir. Olhando para o seu rosto, eu não tenho certeza da morte. Porque você me faz querer viver.