Espelho colorido

| quinta-feira, 18 de novembro de 2010 | |
       Eu tentei me construir no espelho. Primeiro eu colori as minhas roupas, minhas mentiras e meus desejos. Eu cortei meus cabelos, sorri e permaneci sorrindo, ao mesmo tempo em que minha alma chorava em algum lugar esquecido. Eu limpei a terra da minha pele, desenhei novos traços, novas formas. Eu cultivei um pouco de neve nesse novo boneco. Ele era tão leve, tão lindo. Se não fosse eu na frente do espelho, não acreditaria que aquele era o meu reflexo.
       Eu me afastei para andar sobre as nuvens, escorregar sobre os raios de Sol, brincar com o vento, porque nada poderia me quebrar... Não com aquele reflexo. Mas quando fui me alimentar do mar, eu vi - mais destruído que a própria imperfeição, mais imperfeito que a própria destruição - o meu reflexo antigo. Onde estão as cores? O sorriso, a neve, a leveza e a beleza, onde está? Eu os fiz no meu espelho e agora eles não estão comigo. Onde estão as mudanças?
       Eu voltei para o meu espelho. Elas estavam lá, todas as mudanças, e me perguntei se eu era o reflexo ou o refletido; se eu era o reflexo do meu próprio reflexo; se eu era uma criação minha ou daquilo que eu encontrei no céu, e enquanto não sei, vou continuar na frente do meu espelho. Porque nele eu estou leve, inteiro, bem desenhado. Pelo menos o meu reflexo ou o que eu sei e acho dele.

1 comentários:

Catarina Eya Says:
20 de novembro de 2010 00:27

O perder-se tem muito mais graça que o encontrar-se. Se você é o reflexo ou o refletido não tem importância, o que há de melhor é o fato de você poder olhar-se e fazer do que vê o que você quer. ;) abraços.

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