Na rua do poeta sem palavras, há uma árvore podada

| terça-feira, 21 de abril de 2015 | |
      À primeira vez, quando eu cheguei por esses lados da cidade, que fica às costas de onde eu praticamente nasci, olhei para cima sem a pretensão de demarcar os lugares das estrelas e das árvores no céu. O tempo passou e, aos poucos, fui construindo o meu segundo olhar, já se acostumando com as fixações das raízes e os efeitos ilusórios das oscilações luminárias; por onde caminham as nuvens? Devem estar em dias mais ou menos férteis em atenção e aquarelas. Mas hoje, ao me deparar com o terceiro elemento da tríade de meus olhos, percebi que os cabelos verdes e os longos dedos amadeirados de uma das árvores da rua foram arrancados. Talvez os meus ouvidos, mais cedo, estivessem a escutar as lamentações do meu próprio peito no momento em que houve os gritos e os choros da Natureza; então, por isso, não foi apenas eu que outra vez olhei para dentro do céu, mas a altura também me olhou e me descobriu tão egoisticamente. Não para me redimir, mas por uma razão irracional, eu tracei uma linha que seguia o infinito e me perguntei se, do outro lado dessa sensação, existiria alguém traçando uma linha noutra direção que se encontraria com a minha, formando um ângulo de valores preciosos e sinceros. As nuvens agora voltavam a navegar por aqui e pelos bonitos desenhos que formam, logo imaginei que haveria alguma coisa além de eu mesmo; deixei a minha visão para encontrar a visão de um alguém, mesmo que tal busca seja para me encontrar no meio disso tudo, porque da mesma maneira que uma árvore sem suas copas é uma incompletude de existência, o poeta sem palavras é uma solitude última: nada mais ele tem, nem a companhia de si.
       Adeus foi o que eu disse ao agora. É claro que só neste presente é que as letras formaram esse sentido, porque ao acontecer, soou como se o passado tivesse me abraçando de surpresa na forma de canções familiares à minha raça. Tornei-me a fronteira de mim mesmo. Quem sabe, eu ainda seja o céu para aqueles alguns de mim que estão enterrados sob a pele morta, porque por mais que eu queira dizer disto que me encara lá de cima, acabo sempre caindo no mais profundo eu. Quem sabe mesmo, um dia, eu consiga alcançar o alto e ver que o este é o aquele e descobrir, finalmente, que aquele era você, que me observava através da interseção dos infinitos.
       (Olá é o que eu digo ao agora. Nada disso deve ter importância, eu posso simplesmente estar um pouco cansado... O cansaço é a tristeza do corpo, quando a alma já está avessa ao seu molde. Então, prometo descansar quando a paisagem voltar como estava e a árvore crescer como manda o seu destino, reivindicando o seu lugar no céu, perto das estrelas).

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