Mais de um oceano

| domingo, 22 de março de 2015 | |
Hoje eu quero chorar mais de um oceano
Não consigo, porque já quem chora é a minha alma
Mas ainda sim, sinto as marés cheias e as ondas agitadas
Elas querem tanto se tornar mais de um oceano

São terras estranhas, essas que caminho há três dias
Nebulosas, cegas, partes de mim desconhecidas por mim
Sem direção, sem companhia; eu estou tão sozinho e perdido
Elas querem tanto que eu aprenda a andar junto delas

Foi como um fino fio de sombra furando o céu iluminado
E dentro dessa iluminura existiam mais e mais sombras
Que escorreram pelas paredes celestes, pelo chão do mar
E por mim e por mim e, de novo, por mim...
Ele quer tanto que eu aprenda a voar além dele

Longe do perfume marítimo, me caminha do chão adiante
O cheiro amargo que cresce quando me afasto do acostumeiro
Lindo é ver os grãos de açúcar brincar com os meus salgados pés
Criando combinações agridoces nos meus vários poros vitais
No mar, tudo são tonalidades de azul e eu era apenas um homem
Agora, no litoral e um pouco mais ali, pareço poder ser muitos

Talvez eu tenha descoberto, lá fora, os tesouros escondidos
Sob a areia deste querer se desatar em mais de um oceano
As idas e vindas das águas cantam tão bem que eu me fiz achar
Que somente dentro do espírito era possível existir o espírito
Nesta estadia, escolhi palavras e elas escolheram um certo eu
Os demais se silenciaram em cada uma das partes periféricas
Levantando-se, então, vilarejos, vilas e algumas pequenas cidades
E de onde me criei, eu via o alto, mas nunca se conseguia o afora
Eu visitava outras regiões, mas elas eram sempre aguadas
Enquanto eu saboreava tudo com os olhos de uma única oceania

Passadas as monções e os climas etários, A Menina e O Menino,
Envelheci com as pernas que estavam habituadas a me sustentar
Deslembrando que o coração também tem suas as faces e fases
E que a eternidade é tecida dos matrimônios desses mesmos ciclos
Eu antevi, através deles, a viagem para ser eterno e abri o meu peito
Igual as mãos que desenterram a vida a procura de seu centro
Mal se sabia que trilhas distintas conseguissem beijar velhos passos
E sendo eu, um pigmeu que aprisiona um gigante de se expandir,
Tanto quis, como agora ainda o quero e sempre haverei de querer
Ser praia, deserto, oásis, um país inteiro e, logo, o próprio mundo
Ser tudo –– ser palavras, movimentos, sons, imagens e formas e cores
Dos sentimentos, cruzando pelas ideias a chegar às oceanografias

É por isso que amanhã, hoje e ontem eu quero demais chorar
Enchentes lagrimais que descem as estreitas ruas almosas 
Por absurdos serem jamais para perguntas nunca formuladas
Há tempo para tudo: para o quem, o onde, o por que e o como
A dor é que também quero ser Tempo –– todos os eus no agora.

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