Hipermetropia

| sábado, 12 de março de 2016 | |
       Mais um dia igual aos outros, tanto para ele, quanto para elas. Isso não era problema, nem visto como um fardo por eles, ainda mais porque gostavam do que faziam: elas se alegravam de sair todos os dias da bolsinha delicada que sempre eram colocadas para descansar depois de um dia inteiro de trabalho, enquanto ele podia exercer um pouco, primeiramente, do dom lhe dado gratuitamente pelos céus, como também a sua curiosidade terrena de saber da vida das pessoas; além de conseguir com isso, claro, ganhar o seu sustento que, modéstia à parte, estava melhor do que muitos trabalhos ditos sérios por aí. Apesar de alguns clientes serem assíduos, a maioria eram pessoas desesperadas por respostas ou simplesmente céticas-crentes que desejavam ouvir aquilo que esperavam de outro que parecia ser uma autoridade mais apropriada para a tomada de uma escolha; ah, não esqueçamos também do terceiro grupo que seria o dégradé entre o primeiro e o segundo. De todos eles, o prazer das histórias contadas ali, sejam por meio dos diálogos anteriores ou posteriores às jogadas ou nas próprias, era único e era isso que fazia de cada novo dia, por mais rotineiro que fosse, ser importante.
       Naquele dia, as cartas, com seus poderes distantes de seres descobertos pelas nossas pobrezinhas ciências, desde muito cedo, lá pelas três da madrugada, já começaram a mandar suas vibrações ao endereço do companheiro de jornada para alertá-lo. Elas tinham força o bastante para prolongar o sono dele, deixa-lo largado lá dentro da sonolência até que fosse o horário, se estivesse trabalhando, de voltar para a sua casa, mas quem acha que ter força é tudo nesta vida, mal conhece as leis desta mesma vida e as que norteiam os esforços, os conflitos e os repousos: ao tentarem fazer isso, elas perceberam uma força inversa e de intensidade mais forte que as suas. Pensaram entre si e conversaram resolvendo ir pelos caminhos mais sutis para tentar evitar o que estava por vir, por nada lhes impedirem. Começaram pelos sonhos: entraram por aquelas portas doidas e tentaram mandar as mensagens de maneiras mais claras possíveis, porém, como sabemos, os materiais dos sonhos são inconscientes demais, escuros demais para suportarem holofotes tão desavergonhados nos segredos de toda a gente. Acabou, então, delas, as mensagens, aparecerem muito muxoxas e de tão chatos que se tornaram os sonhos, a mente irritadiça já resolveu por acordar o sonhador. Essa jogada de mestre, que na verdade foi mais de sorte, não tinha sido planejada pelas cartas, mas foi talvez a mais bem-sucedida de todas, porque o sonhador, que não era mais sonhador e sim realista, não tinha o costume de acordar no meio da sua noite de sono. Sentou-se na cama, coçou os cabelos e os olhos e procurou o relógio. Quatro e meia. Será que isso quer dizer alguma coisa?, perguntou mentalmente o rapazote sem dar muita atenção às dicas das cartas. Com um pouco de exagero, é admissível quase imaginar pequenas criaturinhas acenando sobre a cômoda que ficava abaixo do marcador de horas, mas ele, não dando a mínima, trocou o lado do travesseiro, a posição da cabeça e voltou a dormir.
       Com toda a certeza, é bem mais fácil abrir os olhos quando se tem muitas coisas a serem feitas e antes mesmo de você ter terminado de ler a primeira parte dessa frase, ele já havia arrumado a cama, o quarto, feito o café e se vestido. Depois de passar a água adocicada com o pó, no momento em que ele jogou o coador de pano na pia, porque iria lavar tudo só minutos últimos de sair de casa, a borra de café formou figuras premonitórias que, se fossem olhadas como partes de um corpo atraente, teriam evitado muitos males do mundo, como logo veremos. Lá da loja, as cartas se chatearam pela segunda tentativa frustrada, mas a esperança, ao contrário do dito popular, não era a derradeira a morrer só para os seres carnais, mas para os etéreos também. Ele entrou no carro e, costumeiramente, ligou permitindo que as músicas de sua preferência tocassem. Por acreditar nos fluídos ectoplasmáticos, ele não gostava de misturar a energia de sua casa, onde circulava diversões, brigas, lamentos e prazeres, com as energias místicas que manuseava em seu trabalho, por isso preferia alugar um pequeno espaço no centro da cidade para isso. Sua casa não ficava muito longe do local, mas por alguma razão, que sabemos ser a quarta tentativa das cartinhas, porque a terceira tem a ver com os assuntos cantarolados nas músicas, o carro não estava andando tão rápido como ele gostaria e para piorar, os sinais vermelhos pareciam ficar assim justamente de tanto gargalharem do coitado do proletário. Vai, carrinho, vai que já estou atrasado para a primeira cliente, dizia ele em voz baixa para o automóvel que, nem novo, nem velho, não deveria passar por esse constrangimento, colocando sua potência em dúvida; Vai, cartinhas, vai que vocês conseguem, pensavam os anjinhos da guarda, quase como se meditassem, porque Deus não poderia ver que eles torciam para outras forças que não as do destino, ou seja, as dEle, que ficavam em cima dos veículos protegendo cada um dos seus proprietários. Para quem tem asas, quem senta é rei ou superior: o Altíssimo e o Baixíssimo estão aí para não me fazerem de mentiroso e os anjos e os demônios que me confirmem, sempre a trabalhar e nunca descansando, ajudando ou atrapalhando os humanoides. Ao chegar na loja, estacionou o carro do outro lado da rua e a cliente, aos prantos, já esperava sentada no banco de mármore que ficava ao lado da entrada. Abrindo a porta, ouve-se o tilintar do sininho que serve como despertar dos ânimos: as janelas se abrem, as velas e os incensos são acessos, o copo de água enchido entre os dois e as cartas, aborrecidíssimas, sobre a mesa. O dia finalmente começou, não é mesmo?
       A primeira foi embora depois de uma hora de consulta; veio, então, a segunda, os terceiros, um casal que queria saber o sexo do bebê que esperavam e se ele viria com saúde, o quarto e igualmente a sequência já sabida. Algumas sessões duravam menos de quinze minutos, já outras ultrapassavam por demais as duas horas. Nada fora do normal. Mas decorrendo todas elas, algo estava acontecendo que o fazia, por ainda não conseguir entender, perder a quietude mental necessária para uma boa leitura. Colocadas as cartas para responder as questões dos clientes, as intuições que provinham para a interpretação dos arcanos não pareciam fazer sentido com as respostas anteriores ou com os jogos já abertos sobre a mesa. Isso aconteceu todas as vezes daquele dia. Aqui vai um pequeno desvelamento dos segredos ocultos das adivinharias: as cartas são os instrumentos mais portadores de recados que você pode imaginar, isso quer dizer simples e diretamente que elas são mexeriqueiras natas, porém, quando eu falo isso, quero mesmo é alertar que muito além delas revelarem as respostas das perguntas formuladas, elas revelam também as das perguntas não formuladas como também o que quiser saber das pessoas próximas aos curiosos que perguntaram. E eu tanto diria mais que direi: não é apenas das exposições dos pedintes de respostas que as cartas se solidificam, mas também de seus interpretadores. Está tudo ali, basta saber ler. Esse detalhe escapa dos terceiros olhos mais iniciantes aos mais renomados nomes das artes ocultas; esquecem-se que do mesmo modo para conhecer um objeto perfeitamente é preciso mais do que olhá-lo, mas tocá-lo e girá-lo para pode descrever todos os seus lados, decifrar os traços das cartas é espionar o passado, o futuro e o presente de uma pessoa, de uma família e do mundo. Em uma mesma tiragem, é facilmente visto o sexo do bebê, o primeiro beijo dele, da mãe, do pai, sem precisar dizer do adultério do segundo marido da tia do rapaz que lê as cartas para a mãe do bebê e a situação financeira do país quando ele, já adulto, tiver filhos. Se a leitura ficava difícil demais para ser feita, tirava-se mais cartas da pilha para auxiliar, mas quando nem isso era o bastante, ele usava do conhecimento de psicologia que tinha adquirido na extensa exposição que teve ao gênio humano no decorrer da sua prática profissional para se livrar do cliente. Às vezes ele tinha vontade de jogar na cara dos pais, que lhe exigiam tanto um diploma, isso de quem precisa de formação quando se tem contato real com pessoas reais; é assim que se obtém conhecimento verdadeiro, meus caros, e não em sala de aula. Antes de pensar em começar, terminava sempre deixando de lado e dando risadinhas secas para eles.
       Gritos silenciosos foi o que as cartas deram quando, ao terminar a última consulta, ele ia em direção a caixinha onde estava a bolsa delicada de término da jornada diária. Elas não se conformavam que das cinco tentativas de avisá-lo, cinco foram as perdas de paciência. Agora chegamos em uma ocasião extrema, de absoluta tensão, em que as cartas precisam pensar ligeiramente para, perdoem-me o trocadilho, tirarem a carta guardada na manga. De imediato já sabiam o que fariam; aliás, apenas uma delas faria alguma coisa ali: em uma atitude suicida e nada egoísta, uma carta específica do baralho se jogaria no meio do caminho para que ele, por favor, tenha piedade de nós, não desentendesse o recado. Solitariamente a carta soltou as mãozinhas das suas irmãs que choravam, porque, imaginem, ficariam elas descompassadas ao faltar uma numeração da sequência de tão bom gosto. Foi-se, querida e pela eternidade lembrada por seu sacrifício, de braços abertos ao encontro do chão. Nenhuma de suas cartas havia caído antes, mas isso é normal, pensou ele, e agachou-se depressa para pegá-la e a limpou na própria camisa, mal compreendendo ele que acabara de limpar um cadáver que tinha dado o seu suspiro espiritual a ele. Porém, péssima notícia, nada disso significava coisa alguma, porque o que ocorreu foi ele colocar a carta-defunta junto às demais e pronto, vamos para casa!
       O copo d’água foi esvaziado, os incensos e as velas apagados e as janelas fechadas, terminando com a entrada sendo trancada depois do tilintar do sininho permitindo o descansar dos ânimos. Mesmo se as cartas não estivessem desistido, elas sabiam, como desde o princípio, que já não tinha mais jeito de evitar o inevitável, mas elas se sentiam na obrigação de tentar ajudar o seu companheiro de encarnação. Não foi dessa vez, por isso decidiram cobrir os olhos, as bocas e os ouvidos, porque não queriam ser noticiadas com aquilo que previram. Quem diria que as cartas, que de tudo sabem e de todos conhecem, também desejariam a custo ter o controle de tudo? No fim da tarde, como a maioria das lojas acabam fechando, aquela parte do centro ficava quase deserta; quando o rapaz estava no meio da rua indo para o carro, o destino, semelhante a uma criancinha travessa, passou correndo por ele e assoprou as chaves que segurava nas mãos. Elas caíram. Agachando-se para pegá-las, as peças soltas durante todo o dia se juntaram em um quadro perfeito: no sonho, os vários corpos desfigurados, comidos pelos corvos, enquanto corujas levavam os muitos esqueletos que se esbarravam; a foice e o expecto formados na borra do café; os temas de despedida das músicas no carro e sua lentidão; as intuições incompatíveis com algumas cartas abertas e o específico arcano XIII deitado no chão da loja. A epifania, que durou no máximo quinze segundos, veio acompanhada da sensação que todas essas coisas foram obras de energias amigáveis, conhecidas. Ele soube que foram as suas companheiras e então o seu corpo foi arremessado metros à frente por um veículo.
       Morrer não era o problema; morrer nunca será o problema. A dificuldade surge para os que ficam. Por exemplo, o homem que atropelou o rapaz é um cidadão de bem, que nunca descumpriu de seus deveres e nunca cometeu, até agora, nenhum delito. Agora ele está estarrecido e com lágrimas escorrendo fluentemente pelo rosto, não conseguirá superar esse ocorrido, perderá o emprego por causa da depressão desenvolvida e sua mulher irá se separar dele pela insustentabilidade da relação. O rapaz, mesmo ganhando razoavelmente bem, gastava mais do que tinha e quem irá resolver essas pendências terá que ser os seus pais que, há muito tempo, já se achavam sofridos por não sustentarem um filho vivo, pensem na estranheza que será amparar os confortos de um filho morto; dolorosa dor essa de perder um filho que não tem nome. Sem contar que uma dessas dívidas é do próprio local onde o rapazinho trabalhava fazendo suas consultas, porque habituado a pagar o aluguel no término do mês, morrendo matematicamente no coração mensal, ao menos os dias usados do lugar tinham que ser pagos. O locatário, o motorista e os pais, vítimas reais da morte do moço vidente que não se apercebeu da própria morte. Resolvendo aparecer de estopim, como os não convidados das festas mais populares fazem, uma fila de carros crescia e crescia mais cada vez que o tempo corria; uma multidão não parava de se formar ao redor do corpo e do carro, que parecia ser o único público que se alegrava com o espetáculo. Eu poderia não contar, mas como não me cabe esconder, um dos passageiros de um táxi congestionado tem um voo que está saindo nesse minuto que iria levá-lo para discutir a descoberta que fez sobre a cura de uma grave doença; na aglomeração, está um pai que, na empolgação de ver o cadáver, perdeu a hora de buscar o filho que chora e se traumatizará. A cura será divulgada daqui dias mais tarde, caso nada de pior aconteça, e o tal filho esquecível poderá desenvolver aptidões artísticas ou psicopáticas, não sabemos, da única coisa que somos sapientes é que tudo isso poderia ser evitado se o jovenzinho tivesse sido mais atento.

0 comentários:

Postar um comentário