O mal nomeado

| segunda-feira, 14 de março de 2016 | |













Eram parecidas com gotas de insignificância,
Sobre a minha cabeça, facilmente convertidas em brincadeiras chuvosas.
De igual maneira que não se desconfia que a visita venha morar,
Pensei que os estigmas iriam embora depois das lágrimas.
Ainda permanecem em carne viva, como se sorrissem aos céus e ao sol
Aquele sorriso e aquele penteado que não mais posso fazer com os meus lábios e pensamentos.

É infinito, se eu não me recordo dos segundos em que as estações se transformam,
Apenas não me esqueço dos movimentos despreocupados que antes eu fazia.
Deles, nada mais guardo do que as suas boas noites e os elogios.
Aquém disso, os olhos continuam com as belezas eleitas nos tempos infantis.
Uma sorte dentre vários azares de vida para com este invisível e pobre sujeito;
Riqueza única que a morte, condoída, sentiria compaixão em abandonar sob a terra.

Quis muito que ela viesse: me retirasse de casa, deixasse os outros à vontade...
Eu caminharia pelas fronteiras sem limites e pelas praias de nada e coisa alguma,
Longe dos destinos indemarcados, mas tão logo previsíveis, como as ordens e as leis
Que o todo de muitos membros sente os efeitos das suas imprecisas imperfeições.

Nenhuma revelação me foi entregue com leves batidas na porta,
Também, nenhum recado me foi sussurrado delicadamente aos ouvidos.
Todos falam do meu cadáver como se eu já não soubesse da decadência.
O que está por vir me é sentido na pele, para que, então, queimá-la nos alheios olhos?
Desgastada o bastante para ser um fino tecido encobrindo o meu embaraço.
Não sabendo eu se mais pelos nós abraçados outrora ou por não saber como se abraçaram...

O espelho olha mais para mim do que eu mesmo, porque os olhos são, também, espelhos.
Por essa razão, talvez, os meus passos sejam firmes e os fios bem alinhados
Tento disfarçar com a mesma dor com que tento nomear isso que não sei
E, por não saber, me desfaço com a mesma alegria com que se desfaz o meu corpo.

Acordei por detalhes e por desastres, dei nome àquilo que não tinha.
Só espero que os sonos não demorem a chegar, porque ainda que nomeado,
Eu grito, choro, clamo, despejo o suspiro e tenho medo...

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