Dentes

| domingo, 27 de março de 2016 | |
Minhas vidraças se perceberam no reflexo do cristalino espelho
E elas não se reconheceram em seu próprio portador, tão abstrato.
Quanto despertar isso me causou! –– Desci dos meus curtos ombros
Como um satírico rei despojado do trono sobre a sua cabeça.

Quando eu saí do meu concreto corpo, o cinza cobria do céu até a mim.
Era uma manhã bonita para alguém que não era tanto...
De tudo ao redor, o forasteiro de toda aquela beleza era eu.
Então, a luminosidade me perguntou usando a voz dos meus pensamentos:
“Querem todas as estrelas, tão pequenas à distância, serem sóis?”

Sem nunca ter experimentado planetas à minha volta, não respondi.
Admirei, apenas, a dor que tudo aquilo causava em minha extensão
–– Sou Corpo Celeste errante, sem casa, sem luz própria e sentido!
Porque a Simetria não constitui as cordas da minha geometria.

Em algum nó da minha história, contaram-me que era uma profecia
Mas quem recebe os meus queridos sacrifícios é uma antiga mitologia.

O gelado material da carruagem que eu subo sozinho todos os cinco dias
Queima, em preparação, o meu coração com as quentes companhias de viagem
E como um jogo de sobrevivência, imagino-me dentro de uma fantasia infantil:
Tanto me torno invisível e impalpável, quanto me coloco correndo sobre o vento
E com magia nas mãos, não é necessário vigiar as direções –– eu tenho magia nas mãos!

Entretanto, se as crianças são casulos para os impérios futuros,
Por que a minha também não haveria de se quebrar ao meio?
Um trópico mais do que imaginário me cruzou em dois átrios,
De um lado, descia arterial inteligência; doutro, dentes venosos subiam
Maltratados, com o mesmo maltrato que o Tempo causa nos Homens:
Tijolos que, perfurados, não guardam segredos ou cartas, mas a voz afeminada;
Estrada de ouro que brilho algum exala, nem coisa alguma compra.
Que admiráveis pés caminharão sobre os secos e trincados lábios?
Que fortes mãos deixarão pegadas nas vilosas florestas que se derrubam nas brisas?

A violência do meu perfume já não basta para ser disfarce à decomposição
Que vagarosamente denuncia o pecado e a santidade do abandono da carne.
Talvez por isso, não sei, o sal dos meus suores tenha se tornado poeira e cinza,
Inventando de fazer da minha pele um móvel quase quieto e insensível aos toques.
Eu que, assim, a mim mesmo me deserto, ainda não me acostumei com as névoas,
Nem com as tempestades, sinto cócegas nos olhos, nas costas e no rosto, que sangram.
São espinhos juvenis que nascem das rosas apertadas lá onde o chorar era falar;
Feridas, estas, que até hoje mais do que parecem que jamais vão se curar.

Sou capital talhada apenas por vielas envidraçadas demais para ambiciosos pés.  
Sou jardim enfermo, bem frágil, sem mérito da colheita por saudáveis mãos.

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