Último dia de Maio

| sexta-feira, 3 de junho de 2011 | |
       Quando as folhas começaram a se deitar em uma realidade um tanto distante de sua luz, eu pendurei as coisas que te traziam até mim nas árvores secas que pareciam tocar o céu. Nelas, meu coração pulsava mais rápido, as cores gargalhavam mais saborosas e os sons se tornavam mais vivos. Tudo isso acontecia dentro do silêncio e ali nada era apressado, apenas um sorriso seu que eu inventei se mexer. E isso fazia com que eu caísse, nunca chegando ao chão. Nesse sonho, era como se a minha respiração fosse a brisa que refresca a sua pele; como se minhas lágrimas fossem as chuvas em que você brinca e que a sua não lembrança de mim fosse a força que acorda o sol todas as manhãs; mesmo não a conhecendo, você sabe que ela está lá. Eu estou aqui e você não sabe.
       Dias e noites morriam e eram amorosamente enterrados sob os meus pensamentos. Palavras que nasciam das estrelas que pertenciam aos seus olhos; eu nunca as vi em uma escuridão estrelada, nem nos momentos em que as nuvens se cortam ao sair do caminho. Antes que os sonos me cobrissem, minhas mãos tremiam à textura dos seus passos por trás da minha espera. A porta nunca me pareceu tão sólida nesses dias. E quando as pétalas da chegada me acordaram brilhando, eu soube que você estava lá.
       Mas o relógio que em outras estações era tão grande, naquele instante se fez menor que os segundos em que estivesse ao seu lado. O amarelo faminto envelheceu como laranja e o horizonte às minhas costas permaneceu ali, sem ser visto. Finos raios vespertinos busquei para enfeitar a sua visão; eles eram leves demais para pertencer apenas a mim. E o calor me deixou, sozinho eu não consegui fazer suas aquelas horas, mas eu sei que foram. Vozes me desenharam a história e eu as li em forma de palavras. Você não sumiu, mesmo as horas sussurrando a vinda de outro amanhecer.
       Eu guardei em mim as páginas que não deveriam estar brancas, esperando as manchas que viriam moldar a inocência. Mais longe da presença da sua primavera, eu não poderia sentir o cheiro das flores. Isso não significa que não penso em você em meio a todo o cansaço, mas há os dias que não me percebem. E no último dia de Maio te encontrei na ausência e fiz dela a minha maneira de adormecer o que não foi seu. Tudo foi seu e eu estou aqui.

0 comentários:

Postar um comentário