Facas únicas

| domingo, 21 de dezembro de 2014 | |

       Sua corrida é ligeira, apesar dos passos serem curtos e tímidos. Tem um certo desespero contido ali, naqueles pés, que se liberta e se abafa ao mesmo tempo em cada novo espaço alcançado pela sua ida. Ela parece não desejar voltar de onde vêm. Quem a vê correr, se é que a veem, duvida se ela quer mesmo sair do lugar; talvez nem devêssemos chamar isso de corrida, mas de um rápido caminhar, de uma afoita marcha. Ela está vestida de um sobretudo negro, sapatos de salto alto, com os cabelos colocados de uma maneira especial para suportar um transparente véu, também negro, que lhe cobre os olhos desconfiados; eles olham para todos os rumos como se esperassem que algo de surpreendentemente ruim aconteça e afete a dama que lhes carregam. Fechado o sobretudo, o seu comprimento, que vai até os joelhos dela, não permite saber o que existe debaixo daqueles tecidos que contêm, em si, a profundidade da noite. O braço direito dela mergulha na parte interior da vestimenta e, sem nenhuma mudança por causa do seu movimentar, permanece como se algo confidencial segurasse a sua mão; já o esquerdo, puxa a mesma parte do sobretudo na tentativa, quase bem sucedida, de tapar a invasão e disfarçá-la. Seu semblante é uma mistura de assombro, preocupação e nojo.
       É uma segunda-feira de serena luz solar, as ruas estão cheias de carros e as calçadas, de pessoas dentro de suas rotinas, como é de se esperar. Ela desvia dos andantes como se dançasse uma música que apenas ela ouvisse –– quem sabe, de fato, ela esteja ouvindo e eu que seja mais um outro surdo para timbres tão específicos. “Os dias todos poderiam ser chuvosos, assim ninguém ficaria por muito tempo fora dos recintos”, pensa ela no momento em que, por pouco, não encosta no ombro da moça à sua frente que parou de andar de repente. Superado o obstáculo no percurso, ela continua a sua trajetória atravessando a rua, enquanto os carros se aglomeram a espera da permissão de colecionarem mais pavimentos. Ela sabe, sabe que todas essas pessoas guardam a mesma coisa que ela; que elas são tão perigosas quanto e é por isso que ela não quer encará-las, encostá-las e conversá-las.
       Do outro lado, ela olha para a calçada paralela a se certificar de que não está sendo seguida. É tanta pressa, semelhante a uma animália que foge do seu predador natural, que ela nem se atreve a observar os reflexos que vão lhe acompanhando, ausente o risco de fixá-los nos próprios espelhos da alma. A humanidade que a provêm é a mesma que a devora. Nota-se pelo jeito impecável de se vestir e se adornar, também pela maneira confiante em que todos os movimentos se equilibram sobre o seu corpo, que o cuidado é uma presença nesta mulher, mas por alguma razão uma de suas pernadas desconversam com a intenção e ela cai de joelhos em meio à aglomeração. O braço esquerdo rapidamente solta o sobretudo e se alonga em direção ao chão para que a queda se estabilize; o direito está como sempre esteve, sem que o seu segredo seja revelado. Poucas pessoas reparam realmente no ocorrido, porém tão logo há o desmoronamento, surge também as suas consequências: pernas distantes se aproximam, preenchendo o alcance visual dela, que ainda mantém a cabeça inclinada.
       Como se a força invisível que lhe amarra a mão direita se desfizesse pelas mordidas do instinto, das cortinas enlutadas saí uma mediana faca que reluz sorrindo para os curiosos. Ela se levanta. As pessoas se afastam. Silêncio. Algumas pisadas para trás são dadas e ela se vira de costas e corre violentamente. Na mão direita a faca, na esquerda, a liberdade –– o seu crime.

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