Oscilação

| sábado, 15 de novembro de 2014 | |


Há momentos de inocente brancura
E quando acordo, dessa quase loucura,
Percebo-me indo e vindo,
Descendo e subindo –– alma chiaroscura

Caí como um anjo no inferno
Ou o inferno caiu em mim como um anjo
O amor tropeçou na vida que eu tanjo
Sem avisar que traria o inverno

Como surgiram, em nossa praia, tantos sais?
O nosso futuro vestindo catedrais
Era tão exato que investi os meus vitrais
Mas hoje são dolorosos, os casais
Que podem ser, um ao outro, o cais
Para barcos que não olham para trás

Abri, para os seus pesos, o meu porto
Mas antes, três vezes, eu pensei:
Na primeira, porque sou um lugar torto
E nada disso na minha vida, esperei
À segunda, fui mais cauteloso
Permiti-me nenhum desconforto
Depois, o que havia de isolamento
Tornou-se muito além, delicioso,
Foi esse, o terceiro pensamento!

Desalinhando tudo o que vivi
Por muito pouco, quase não me rendi
Ao rapaz que do horizonte vinha
De encontro a algo que eu nunca previra
Era menino, coração de filho de Rainha
Com alma de guerreiro e medos de criança
E eu só dizia: “seja bem vinda, esperança!”
Vendo que era isso o que eu queria

O soneto estava a descobrir o seu poeta
E o profeta a revelar-se ao seu livreto

Qual dos lados, você e eu , nos vimos a ficar?
Houve um ponto de gravidade, então,
Entre o Eu e o Outro, entre o Sim e o Não
Como calma onda que não volta para o mar
As insonatas palavras pediam mais intimidade
Onde as distâncias ofereciam proximidade
Nunca existiram lados, partes ou oposição
Éramos substância contínua em duas margens
Enquanto eu te descobria, você era escrivão
Enquanto você se revelava, eu, confissão
Naturalmente, foi nascendo muitas imagens
De tangos, morangos, em campos de felicidade

(Era uma vez, uma história encantada
Sobre a Prisão que permanecia trancada
Mesmo não tendo nenhuma fechadura
Sendo ela, tanto inanimada quanto criatura,
Sentindo-se fechada por razões mágicas
Esquecera de suas sinas humanas, trágicas,
Que a preenchiam de invisíveis moradores
Eles, as testemunhas únicas dos seus temores,
Os instrumentistas únicos de seus tambores,
Acompanhavam-na contando, da vida, horrores
Chamando-a, solitária e triste, de perdida!
Era assim, desde nascida, enxergava-se vencida
E, novamente, pelo frio e pela carga das grades
Não fazia precisão de lembrar eternidades
Sabia que dessa maneira como foi, sempre seria,
Que daquela maneira que voltou, sempre iria,
De nada mudaria, nem que algum inquilino chegasse,
Porque mal esperaríamos por onde ele entrasse
Lá dentro, um grande espaço cheio de vento
Entre as grossas barras de aço e de tormento,
Os ares multicores formam um enorme laço
Embora quando saem do seu direito braço
Não achem traço, abraço ou sequer terraço
A aquietar-se em seu canto próprio, a pobre Prisão
Mais nada a se fazer, endureceu o seu pulmão
Sem respiração, não ouviria o som oco do peito
Havia guardado inspiração por demais no seu leito
E junto com a solidão, teria um casamento perfeito
Nem dores ou amores, nem choros ou sabores
Tudo em tranquilidade –– simples amor-fati

Numa meridiana canção do próximo e do distante
A Clave, caminhante, logo veio a seguir adiante
Cruzando todos os silêncios da monótona Prisão
Através dos extensos e concretos vales de maldição
–– É sabido de todos que ao mergulhar, no rio, o seixo,
O chão de água se desmancha em múltiplas ondinas
Até que, dia ou noite, acertam um qualquer queixo
Anunciando, no susto, presciências que são divinas
Isso dito, para aqueles que têm a consciência sã,
Verão que, várias outras cruzadas, a Clave ressoou
Mas como a Prisão é nossa principal anfitriã
Deixemos os detalhes e cuidemos do que restou! ––
A mística Clave era habitante maior da escala solar
Onde notas dançavam com a vontade de acabar
Com o que nela existia de mais bonito: o brilhar
Algumas, mais cruéis, enfiaram-na a ponta que cala
Talvez seja por isso que ela canta mais do que fala
Sozinha na expansão da sua pessoal sonoridade
Estranhou ao adentrar na caladíssima cidade,
Não por ela, cidade, ser muito diferente das demais
Mas por sê-la mais vagabunda do que as suas iguais
E desassossegada com presenças perto das suas cadeias
A Prisão pôs-se a ouvir os sons com as próprias veias
Deu-se início, ao longe, a uma desconfiada conversação:
“Quem ousa estar aqui além de mim?”, disse a Prisão
“Sou eu, a Clave, que por algum acaso ou destino
Fui arrastada até aqui na figura de um menino
Com os portões destrancados, pensei que poderia entrar
E brincar nessas carências que pareciam querer aceitar
Mas perdoe-me a ofensa, eu não queria incomodar”
Um estalido de descobrimento balançou as suas bases
Impreludíveis, a Prisão assustou-se com tamanhas frases
Quis, ela, sentir essas coisas como quem pensa,
E ao recordar que a gênese dessas terras era intensa,
E que era, ela mesma, comensal e vítima de seus frutos
Quis, ela, mais ainda, voltar atrás daqueles minutos
Desinventar entradas, apagar estradas e fugir moinhos
Mas sabendo que nem só de rosas vivem os espinhos,
O desejo de ver o rapazinho, e conhecê-lo, surgiu
Mais do que ser gentil, era o temor se tornando sutil
“Fique na cidade e descanse, porque já anoitece
Nos dias próximos, te contarei o que aqui acontece
Ao acordar, peça à cidade que, até a mim, te traga,
Ela não fará de você um que não sabe onde vaga,
Ou grite baixo, sussurre alto, às árvores e paredes
E pelas melodias saberei quais são as suas sedes”

A partir disso, o Tempo não mais os acompanhavam
Saia por aí todas as vezes que eles conversavam
Abrigando-se ali, nas costas das cortinas e dos mastros,
Espiando, a deixar rastros, como no céu fazem os astros
Por ocasiões, o relógio diminuía as estações lá fora
Enquanto outras, fazia dos dias uma infinita aurora
A viagem ao urbano núcleo que não foi muito longa
Serviu, para ambos, semelhante a uma milonga
Pintadas de semanas, foram os seguintes passos,
Com a vontade do encontro, a renúncia dos fracassos,
–– E o fracasso do encontro é quando um desgosto
Que começa no rosto, se espalha pela essência
Ou, inversamente, existe pronto o pressuposto
De que nada mais vale a pena do que a una ausência ––
Apesar da estátua desejar a fluidez da anatomia
E do viajante ancorar, em algum fundo, a sua simpatia,
Os dois urgentes aparentavam querer mais milhas
Para se prepararem melhor às destinadas maravilhas
Tanto menor era a alcance dos gritos e sussurros,
Quanto mais altiva, a cantiga que ultrapassava os muros
A harmonia da Clave estremecia as colunas metálicas
Que a Prisão insistia em mantê-las sob peles pálicas
Timbres mântricos que cresciam durante a vinda
Escavavam, nas ruas, novatos timbres incógnitos ainda
A avenida principal, que pulsava em fome de ritmo,
Iniciou-se quando os pés sentiram o material mais íntimo
Duma janela, a Prisão era vista no que parecia ser o castelo
E a Clave estando envolta a um aroma de violoncelo
Passou pelos portais medievais, subiu pelas escadas espirais
Atingindo as alturas das quais se podia tocar às luzes austrais
As costas da Prisão quebraram as feições imaginativas
Que a Clave lapidou na partitura das migratórias estadias
De que tamanho seriam as palavras se derretessem entre elas
De que contorno teriam os ecos se deitassem no interior delas
Quando a Prisão se virou para encarar o convidado secreto
A Clave preferiu fechar os lótus a ver o que já era certo
Cada fluxo daquele quarto teve os mesmos atos de um círculo
Que, não tendo mais começo e fim, cristalizou-se o vínculo
As clavíturas pétalas se desbraçaram a pedido das íris curiosas
E uma diante da outra, finalmente, se sentiam vitoriosas:
A Clave por ter seguido, mesmo sem saber para onde ia;
A Prisão pela licença, a si mesma, de se permitir a companhia
Tão logo as duas se distinguiram do recinto, houve a sinergia
Invadindo o meio cheio de metros que muito angustia
O laçado das peles durou perenitudes dentro de perpetuidades
Quando solto, nenhuma delas eram as mesmas integridades
–– Similar ao córrego que, submergido em um homem,
É transmutado em diversos lençóis que, breve, somem
Dando origem a novos líquidos e homens que também morrem ––
Pararam de sorrir, todos os móveis, com o efeito do ardor
A ouvir, sem acreditarem se possível, o que escaparia ao fulgor:
“Diga-me, como eu soube chegar aqui?”, a Clave perguntou
“Você é um belíssimo menino”, disse a Prisão, que continuou,
“Eu via os signos das suas músicas e as decifrava como poesias
Não pretendia ler os seus segredos, mas te vi minhas melancolias
Por isso a cidade te chamou até aqui: parte dela desaparecida
Não podia vagar por aí abandonada, confusa e sofrida”
A Clave escutou aquilo como se fosse ela própria quem falasse:
Precisou sentar, temendo que o corpo de menino não suportasse
Todo o encargo emocional que os vocábulos lhe acenderam
Nesse ínterim, pelo ambiente, serenatas dedicais se desabotoaram
Do miúdo coração da príncipe Clave, enchendo as grandezas vazias
E de repente: “Olhe à fechadura sem chaves que sempre trazias!”
As trancas se desfizeram como o aperto de um beijo sobre a pele
O que fez a Clave se aproximar à fotográfica espera que se revele
Mas as retinas, fixas apenas no anseio de atravessar a abertura,
Puxaram o resto das curiosidades para o interno da amargura
Ali, nas grades da Prisão, enxergou planetas possíveis e impossíveis
A Prisão sorriu, pensando que esses mundos eram sonhos incríveis...)

Tolo é o pássaro que vive a pensar
Que para o Sul não precisará mais voltar
Quando a invernia começar a cantar
Mesmo eu, de asas pequenas e fracas,
Esperei que as nuvens negras e sacras
Chegassem a limpar as penas inválidas
Mas nunca imaginei que seria tão veloz
Ao ponto de ser um dilúvio atroz
Destruindo as minhas animas cálidas

Agora, com toda a chuva que caiu,
Não sei o que permaneceu ou esvaiu.

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