Das companhias mais vivas que as noites

| domingo, 19 de maio de 2013 | |
       O lugar já era conhecido dele, havendo algumas mudanças significativas na estrutura física, na colocação dos móveis e outras brincadeiras que a mente insiste em fazer, tirando das coisas, as formas e posições corretas, mas nenhuma delas era tão engraçada quanto aquela que estava viva, que caminhava intimamente pelo espaço, que conversava, ria e permanecia ao lado dele. Um amigo... Acredite, ele tinha um amigo e não era qualquer um: garoto muito bonito, de aproximados vinte anos, olhos azuis como se uma gota de cada oceano tivesse se juntado para formá-los, repousados em molduras que se tornavam humildes quando a alegria lhe dobrava os lábios e esses, eram de um rosado suave, harmônico com o tecido brancamente brilhante que lhe cobria o corpo – nem as nuvens, que chamam a atenção das crianças, conseguiam aparecer com ele perto. Os lisos fios que lhe coroavam eram noites acastanhadas tão vivas, que ao olhá-los por muito tempo, você poderia dizer que estava sonhando; sobrancelhas que abraçavam perfeitamente o olhar e o nariz que fazia a percepção de seus observadores escorregarem por todo o rosto, tendo a certeza de que ali estava um pedaço perdido de perfeição. Deixando de lado as feições do amigo, mesmo eu querendo detalhá-las um pouco mais, prossigamos na história.
       Palavras trocadas, gargalhadas jogadas sobre os objetos da casa, toda aquela situação de amizade entre eles dava a impressão de cotidiano. Era meio ilógico isso, se analisarmos que ele não tinha ideia de como tudo aquilo tinha se construído; mas esqueça esse detalhe, porque essa preocupação de tentar encontrar razão para as coisas todas está presente apenas em nós que vivemos presos ao chão por conta de algumas leis; onde ele estava, elas eram muito menores do que simples lendas. Parecia que os dias e dias sempre foram assim: os anteriores eram sentidos por completo e os futuros o prometiam a mesma tranquilidade e calma no convívio com o amigo. Nada poderia desatá-lo daquele mundo...
       Até que o susto causado por mãos nervosas, vociferando uma mistura de ordem e clamor, desfez toda aquela conquista que de tão singela que era se auto-explicava. O despertar da mãe veio a tona atrasado demais para o horário convencional do filho, o que a fez se desesperar para na tentativa de trazê-lo à consciência para, dessa maneira, se arrumar o mais rápido que conseguisse. Despertou meio tonto, mas logo ficou de pé; enquanto se vestia, o sonho insistia em preenchê-lo a mente. Ele sabia, não era pela ausência de lembranças oníricas na maioria das suas noites, a perturbação que o sonho causou vinha de algo ainda obscuro, talvez fosse pelo desprendimento de emoções desconhecidas ou pela dor de ter sido desperto e visto que tudo não passou de uma viagem dentro de si mesmo; era uma força que o puxava para dentro, tendo apenas como resultado a vontade de retornar, de estar lá para sempre. Quem sabe isso seja o que as pessoas costumam chamar de saudade, pensou ele –  tal sentimento não era habitual nele, pelo menos não como na boa parte das descrições. Depois de alguns minutos, despediu-se da mãe e começou, apressado, a sua não muito curta caminhada; como ainda era muito cedo, as ruas estavam quase vazias, aparecendo uma ou outra viva alma pelo caminho, fazendo ele ouvir os seus próprios passos que o diziam o quanto o sonho foi agradável e o perguntavam o porquê dele ter acabado. Ele conseguiu chegar antes que os portões fossem trancados; esse dia estava mais triste do que o normal.
       Ele, a sombra cabisbaixa e inexistente já costumeira no colégio, passou pelo pátio e corredores, subiu as escadas e foi para a classe, mas a porta estava fechada; então bateu, pediu licença ao professor, que havia iniciado uma nova matéria, e foi se sentar na última cadeira da última fila, onde podia se encostar na parede e olhar a vida lá fora através das grandes janelas, ambas familiares a ele. Os seus colegas de classe não o percebiam de fato e, quando o percebiam, faziam questão de apresentá-lo ao mais cruel desprezo que um ser humano pode exalar. Oh, por favor, não me pergunte por que eles faziam isso com ele, eu também não entendo, mas apesar de acreditar que cada um tinha um motivo pessoal, todos compartilhavam de uma mesma linha de, digamos, intuição: a de que ele era muito estranho para o convívio social. Desde a sua aura até os seus movimentos eram sinônimos de estranheza para os altivos maus olhos. Ele aparecia apenas nos momentos necessários; na sala, ficava quieto, escrevia no caderno o que era passado no quadro, ouvia as explicações dos professores, fazia certas anotações em uma agenda que ninguém sabia dizer o que eram e, quando o sinal do intervalo anunciava uma maior liberdade para as loucuras juvenis, se refugiava com as suas coisas na biblioteca – esses anos de convivência ensinaram a ele o que as pessoas são capazes de fazer com uma companhia que julgam ser indesejável. A hora de ir para a casa era indicada quando a manhã começava a desfalecer, nascendo consigo a solidão de voltar sempre sozinho. E hoje, além do capuz, a lembrança do sonho o cobria o rosto.
       Opondo-se ao desconcerto que as calçadas e ruas cheias causavam nele, estar em casa era de grande alívio. Ela era uma pequena continuidade do seu interior, o que nos faz imaginar o quão bom era ficar sob aquele teto e o quanto era doloroso deixá-lo, quase como se o deixado fosse ele próprio, para exercer uma atuação que nem ao menos se preparou, em um outro mundo que mais o parecia um pesadelo; nela, desprendia-se a oferta não só de ter o silêncio e o consolo que desejava, mas de minúcias que o faziam atravessar a tênue linha entre sobreviver e viver. Não tinha ninguém em casa, o que o fez ir direto para o seu quarto; guardou a mochila, tirou os tênis, colocou músicas para tocar e, de início, resolveu ficar um pouco deitado na cama pensando no sonho e em como seria ter um amigo. Sim, ele não tinha amigos. Eu sei, é difícil pensar em alguém sem nenhum amigo, mas ele era assim; os pais achavam isso normal, considerando o jeito reservado do filho... Por falar nos pais dele, a relação deles era interessante, se conheciam bem e isso os facilitava a compreensão nas conversas, piadas e passa-tempos diários; a única coisa importante que eles não sabiam do filho, era em relação a hostilidade que era direcionada a ele pelos colegas de classe. Pensou em contar aos pais, mas achou que era algo muito inútil para se dizer, ainda mais porque sabiam como eles eram, iriam se preocupar e ele não queria isso. Silenciou-se desde então, iria arranjar um modo de aguentar isso e o fato dele não ter amigos não o incomodava, mas admitia que alguma presença não era de mau grado. O barulho da porta o emergiu dos confusos oceanos mentais: sua mãe havia chegado do trabalho.
       Ao menos três vezes por semana, sem dias definidos e variando entre manhãs e tardes, sua mãe não ficava em casa; já as permanências do pai eram dedicadas as últimas horas da noite antes de adentrar a madrugada e algumas domingos inteiros; dia esse que aproveitavam ao máximo, conversando um pouco sobre todos os assuntos, contanto histórias engraçadas ou fazendo qualquer coisa que não os deixassem tão distantes um dos outros. Logo levantou-se, sem muita preguiça, e foi até a sua mãe beijá-la as bochechas, como sempre fazia quando a via ao retornar do colégio ou, no caso, do trabalho. Após os cumprimentos, as comuns perguntas de como estavam e pequenos dizeres de como foram os seus dias, ele a disse que, por conta de um sonho na última noite que o deixou um tanto pensativo, precisava ficar no quarto e que, por isso, trancaria a porta para que nada o atrapalhasse em seus "rabiscos"; não surpresa, a mãe consentiu o resguardo do filho, por tal pedido ser tão do feitio do filho. "Por favor, me avise quando o pai chegar", pediu ele, beijando novamente a bochecha esquerda da mãe e voltando para o quarto.
       Retornado ao que ele chamava de "âmago da casa", colocou-se deitado outra vez a pensar na cama, tentando reviver todas as mínimas peças daquele bondoso presente que ganhou de alguma parte de si; ficou assim por horas e, quando se deu conta de que não relembraria de mais nada, preferiu andar pelo quarto; as músicas continuavam tocando, o que o ajudava a se concentrar melhor nos seus pensamentos e no que eles o faziam sentir. Ah, você se lembra das anotações dele que ninguém sabia do que se tratavam? Pois bem, eram acanhados desenhos, versos, aforismos e textos; ele os fazia, algumas vezes, para correr com o tempo e, outras, para se expressar. Claro, em casa, lugar em que a eternidade, a liberdade e os materiais necessários para se fazer algo mais elaborado eram reais, ele se sentia desacorrentado para se arriscar em seus "rabiscos". Ele andou por toda a extensão ocupando os cantos, observando os objetos que o pareciam estrangeiros ao seu reconhecimento e parou, por fim, de frente à cadeira de sua mesa de desenho. Da gaveta, tirou os lápis coloridos, os apropriados e sentou-se; com os olhos fechados, suspirou um ar que o preencheu o corpo antes que começasse a esculpir na brancura as cores que estavam em sua mente. Se houvesse observadores, todos se encantariam achando que era o papel que deslizava sob a ponta do lápis, tamanha era a cumplicidade dele com aquela superfície; ao olhar o papel, de certa maneira imaginária, ele via o rosto do amigo, como se isso guiasse os caminhos pelos quais os traços deveriam seguir. A agitação e a quietude eram constantes na expressão do desenho, porque ela, a inspiração, não é de toda ação, mas também de silêncio e contenção; é verdade que as mãos não conseguem agarrar, como fazem com a solidez, os sentimentos que transbordam de um coração inspirado, mas é através dos pingos desses sentimentos manchando a anima que o corpo se enche, em repouso, até o movimento. Os pontos já prontos, separados entre vazios, se aproximavam a cada nova cor que cobria as suas distâncias. Em um determinado instante, lá pelo fim da tarde, as crianças brincando, os vizinhos conversando, os sons gerais de uma rua não muito movimentada o fizeram parar com a música e afastar a cadeira; seguiu desenhando de pé e ouvindo todas aquelas vidas sonoras. Quando finalizou os últimos pormenores, a luz ligada há duas ou três casas do relógio, ouviu alguém batendo à sua porta e dizendo "cheguei, meu filho".
       A saída do quarto demorou um pouco, porque a rotina do pai na chegada não era muito breve e sempre a mesma: avisar o seu retorno – com um abraço beijada na esposa e no filho e, caso ele estivesse no quarto, o pai ou a mãe o avisavam –, tomar banho, trocar as roupas do trabalho por outras mais confortáveis e descansar no sofá. Quando o filho apareceu na sala, o pai se colocou sentado para trocar os cumprimentos com ele, o beijando e o abraçando, mas ele imediatamente se despediu; não queria incomodar o descanso do pai, nem ficar para jantar, também estava cansado física e mentalmente, voltando assim para o quarto a olhar o rosto do amigo no papel que tinha deixado de ser branco. Ele ficou acordado durante um longo período pensando sobre o sonho; o relógio mostrava que as horas já estavam seguindo dentro de outro dia e não era bom esperar mais para adormecer, teria que ir à aula, então pôs o desenho na mesa e colocou-se a pedir, seja lá para quem estivesse lá nos céus – se é que existia alguém –, que o sonho voltasse, trazendo consigo o amigo e todo aquele mundo da qual ele sentia pertencer. Não custava nada tentar...
       Se foi o amigo ou ele que surgiu primeiro, ou juntos, isso é incerto e sem muito mérito de se saber, porque os segredos da noite são inalcançáveis para nós que aprendemos a manter os olhos abertos debaixo do sol; o que importa é que eles se reencontraram, no mesmo cenário e com as mesmas risadas da noite passada. Como você e eu conhecemos muito bem, dentro dos sonhos não percebemos as situações absurdas que somos colocados, o que nos faz agir de forma natural quando tudo é justamente o contrário disso; e ele agiu dessa maneira diante das coisas, tão sutil quanto a chuva em uma época favorável. A amizade deles estava muito longe daquela fase dos cômodos e regras da casa ainda serem desconhecidos, de pedir licença para entrar ou mexer em algo mais íntimo, de cada coisa, dos costumes até as colocações dos móveis, ser notada para não se fazer nada além do aceitável; o corpo do amigo parecia se adequar com equilíbrio àquela moradia, mais do que as brisas que, por ou sem querer, acabam entrando pelas frestas, porém esse equilíbrio não cabia somente à substância, mas também à essência, ocupada sob o peito tanto dele quanto do amigo, e que de tão próximas as realidades, não se sabia qual delas era mais elementar. E as conversas, que era tecidas alegres e sem interrupções, enchiam a sala onde estavam e, de repente, foram ficando cada vez mais baixas, como se os fios que alimentavam os sons estivessem ficando mais curtos, os obrigando a ficar mais perto um do outro:

       – Não entendo... Eu não sei como uma pessoa como você se tornou minha amiga.
       – E como seria uma pessoa como eu? – disse risonho, o amigo.
       – Bonita, engraçada, legal... Pessoas como você costumam me evitar. Aliás, as pessoas todas costumam me evitar. – Era percebido em seus olhos, mesmo eles desviados para o chão, uma amarga incompreensão.
       – Sei disso, mas pense: agora você tem um amigo. Agora você tem a mim. – Na suavidade grave que pertencia a voz do amigo, podia-se sentir um brilho que nunca havia encontrado nas palavras de alguém; eu, que descrevi até aqui essa tragetória, não saberia descrevê-lo. – Ah, e você também é bonito e legal. – Finalizou com um sorriso tímido preso nos lábios.
       – Só se for por dentro. – E os dois riram: o amigo por achar essa conclusão boba e ele por ser grato ao amigo aceitá-lo como era...

       Dessa vez, as mãos que o acordaram estavam mais calmas, levando-o a concluir que o horário em que ele costumava levantar tinha sido antecipado, como sempre acontecia quando sua mãe precisava sair mais cedo para o trabalho. Mas entre o último ato e a completa retomada de consciência, poderia jurar que ouviu um "até amanhã" moldado pela voz do amigo; ele não saberia dizer, de imediato, se isso foi uma impressão causada pela retirada inesperada do sonho ou se foi uma lasca final dele que conseguiu roubar para si. Não adiantaria pensar nisso agora, sua cabeça estava girando e ele ainda tinha que se arrumar; acompanhou a sua mãe até a porta, despediu-se, separou as suas roupas para o colégio e foi tomar banho. Não demorou muito para se arrumar e como seu pai já havia saido – antes mesmo da mãe –, também decidiu mudar a rotinha nesse dia; o extenso caminho do colégio o ajudava a trazer o nítido sonho à frente dos olhos. Ele quis escrever na agenda, mas não se deixou consumir pelo desejo, teria muito tempo para isso; essa é uma das – muitas, ou poucas, depende de quem esteja dizendo –  qualidades de ser solitário: a de ter todo um tempo ininterrupto para você. E a pisada dele ecoou pela classe que, naquele amanhecer recém-nascido, estava apenas com alguns grupos de amigos espalhados por ela; indo para o seu lugar usual, distraído com a tempestade mental que o acometia, acabou esbarrando, de forma muito leve, em um garoto que estava conversando. Desculpou-se rapidamente, se sentou e, ao pegar a sua agenda, olhou em direção ao garoto vítima do pequeno incidente; no semblante dele se imprimia uma raiva contida e seus olhos se fixavam firmes na fisionomia e no objeto em que ele estava nas mãos. Afastando o olhar, assustado, ele abriu a agenda e começou a tingí-la em uma descrição intuitiva sobre o sonho, em uma chance de se acalmar, a espera da entrada de algum professor. Junto com a expectativa vinha a vigilância à figura do garoto que, das extremidades oculares, parecia continuar a observá-lo; o sinal soou e aqueles que eram de outras classes saíram, dentre eles, o garoto.
       Decorreram as aulas, as leituras, as atividades, e quase como uma tradição, ele organizou as suas coisas para a ida à biblioteca, quando o sinal do intervalo ecoou por todo o colégio; a mochila colocada nas costas, a agenda descansada nas braços, seguiu a sua jornada diária fora da classe. Ele gostava de ser rápido, ainda mais quando se tratava de ficar na biblioteca, nunca se ligando muito ao solo, apenas ao desvio das pessoas que poderiam atrapalhar a sua chegada, mas a uma distância razoável do ponto de partida, tropeçou em algo que não havia percebido; o impacto da queda não foi forte, mas foi o suficiente para fazer a sua agenda rolar sobre o chão. Ergueu-se para pegar o seu pertence; uma mão pesado o agarrou pelo braço. Mesmo sabendo que era, precisou virar o rosto para encarar – e acreditar – aquele que o segurava por trás; eis que o medo dele ganhou uma máscara semelhante às feições do garoto atropelado pela sua desatenção matutina. Dois outros garotos o agarraram, um em cada braço, enquanto aquele que parecia ser a autoridade deles pegava a tranquila e querida agenda caída; um incrível silêncio os invadia, como se eles, os envolvidos, soubessem os motivos que os levaram até ali, guiando-os no que aparentava ser uma dança composta minuciosamente pelos três amigos para surpreendê-lo; e ele, que não relutava, sentia-se rendido muito antes disso. A partir daqui, os risinhos que clamam uma vitória começam a ser audíveis: a agenda é aberta, folheada e, quando os dedos percebem a caligrafia já acostumada com as páginas, inicia-se uma recitação, ao ar livre, de fragmentos daquilo que tinha asas, mas nunca se revelava para o azul celeste; você não pode imaginar como as palavras se tornando sonoras o cortavam a vida. Aos poucos, uma multidão foi se formando em volta daquele espetáculo e as risadas cresceram ao nível de gritos gargalhados; quando as fibras do coração são expostas assim, tão violentamente, à pobre almas, nós sabemos, elas são vistas como lacrimosas e fracas vísceras a espera de abutres que as tenham compaixão. E para o triunfante desfecho, o acaso – ou o destino, se você preferir – o presenteou com a irônica cena do garoto, em toda a sua ira, rasgando as páginas lidas – e mais algumas por entusiasmo – com um cuidado próximo à ingenuidade; elas foram jogadas no chão, acompanhadas da agenda e dele. Os estudantes, como se instintivamente sentissem que a brincadeira estava terminada, seguiram a atitude do garoto e de seus dois amigos, sairam do local e voltaram para onde estavam, desfazendo o tumulto; nada havia acontecido. Talvez alguns dos espectadores realmente achassem que os garotos ultrapassaram os limites da sátira e da graça, mas era visível que a plateia desprezava as próprias constelações íntimas para poderem, tranquilos, apontar os dedos para eles, como se aquela criatura sentada no chão fosse o único humano existente. Nós sempre esquecemos disso.
       Da imensa tormenta que estava sentindo, nenhuma emoção podia ser lida em seu corpo, não havendo lágrimas, palidez, nem tremores; ele se levantou, pegou as páginas soltas, sua agenda e, fingindo não ouvir o sinal de retorno às salas, continuou o trajeto à biblioteca. Ao entrar, cumprimentou a conhecida bibliotecária e a pediu permissão para ficar ali até o fim do turno; ela concordou com a condição dele ficar onde não pudesse ser visto. Seu agradecimento se mostrou no sincero sorriso que a entregou ao ir para o fundo de uma estante afastada que pudesse escondê-lo; ele escorregou pela parede se encolhendo no piso, as páginas foram colocadas em seus devidos lugares; agora sim, poderia escrever o que desejava sobre o sonho, como uma maneira de, quem sabe, torná-lo infinito. Os raios solares alaranjaram-se depressa, mas na largura exata para a sossego fazer da desordem um amontoado de palavrinhas que, de tão apressadas, pareciam correr pelas linhas; o fechar a agenda e o colocá-la na mochila foi atrasado propositalmente para que o tumulto no portão fosse esvaziado do desespero de saída daquela aceitável prisão. Despedindo-se da bibliotecária, o capuz erguido e as mãos dentro dos bolsos, seguiu sem sentir o pavimento o levar à sua casa.
       A mesa do almoço estava arrumada, sua mãe o esperava na sala, mas logo que ele chegou, foi para o quarto: não quis se alimentar, disse a ela que estava sem fome e que precisava descansar um pouco. A salvo e sozinho em seu mundo, a mochila deslizou pelas suas costas e ele caiu sobre a cama, permitindo-se o mais macio choro que conseguia libertar daquele fardo; as doídas águas que escorriam, sem pressa, encharcaram o seu travesseiro e o cansaram os olhos. O desague não demorou muito, o que o fez dirigir-se à janela para usar a paisagem como desculpa para um olhar vago e pensamentos fixos; sua história, embaçando o vidro, mesclava-se à todos os elementos que estavam intocáveis do outro lado. Com o passar dos ventos, das pessoas e de todo o resto, o tecido alaranjado do céu foi se desgastando e se adornado de um roxo rosado crepuscular que, de tão belo, o acordou do profundo topor em que se encontrava e se pôs a admirá-lo; o tamanho da beleza daquela decadência vespertina o trouxe à memória o amigo e, da janela, olhou para a sua mesa. Estava lá, o desenho, refletindo o mesmo olhar e sorriso dele, como se o lembrasse que, longe daquelas paredes, havia alguém que esperava pela sua companhia. Recolhida do chão e colocada na cama, a agenda foi retirada da mochila; ele se sentou em sua mesa e, ao lado do desenho, a abriu e nas páginas que contavam sobre o sonho e as leu, até que decorasse todas as palavras e pausas contidas nelas. As batidas na porta, que vieram chamá-lo para o jantar, cessaram o curso da história que ele parecia contar para o seu amigo imóvel no papel; não tendo jantado na noite passado, nem almoçado quando voltou do colégio, não poderia dizer aos pais que não queria, desconfiariam que alguma coisa estaria acontecendo com ele. Apesar dos pensamentos distantes e sem rumo, ele conseguiu agir normalmente, sentando-se com o seu pai, que ouvia o noticiário, enquanto a sua mãe terminava de colocar as refeições à mesa; manteve uma rasa conversa com eles, que durou apenas o tempo que o talher teve para recolher todo o alimento do prato que, aliás, não estava cheio, mas na medida ideal para que não percebessem a sua falta de apetite. Por conta do desempenho diante dos pais, estava exausto quando retornou ao quarto, mas antes de se jogar aos zelos do irmão da morte, ele recostou o desenho em sua cadeira e a puxou de uma maneira que o olhar dele o vigiasse ao lado da cama; adormeceu vendo o amigo sorrir para ele...
       Aquele pisar tinha uma vibração que poderia ser reconhecida por ele mesmo se o horizonte arrebentasse, unindo a terra e o firmamento em uma só pintura, mas isso não foi preciso acontecer, porque a voz da sua mãe, vinda de algum dos cômodos da casa, o avisou que o seu amigo estava lá; por um nervosismo que eu não sei a causa, ele correu – tão veloz que nem consigo descrever o percurso – para o seu quarto e se escondeu de baixo da cama. Era um quarto diferente do seu, mesmo nunca tendo o visitado nas duas vezes em que esteve ali, tinha uma segura noção de conhecê-lo, e por isso, podia dizê-lo seu; poderia eu, ter deixado que você concluísse que as mudanças do quarto coexistiam com as da casa, próprias das peripécias de um sonho, porém não é um erro lembrar à razão o que as emoções do discorrer de uma história faz escapar da nossa mente. Deitado de uma forma em que seus olhos também suportassem o colchão, ele logo viu as pernas do amigo seguirem na direção da cama; o amigo, do mesmo jeito, mas com o corpo no sentido oposto ao dele, deitou e colocou os seus olhos paralelos aos dele; uma densa vontade de desviar o rosto, berço de uma vergonha de, simplesmente, existir perto do amigo, quase o arrebentou as portas da sua sanidade, contudo não conseguia desvincular daqueles olhos oceânicos que o traziam tanto conforto. Ficaram assim, a se olharem, como se entre eles houvesse uma barreira que separava os dois universos: o sob a cama e o outro fora dela; mas essa barreira foi desfeita quando o amigo disse para conversarem, levantando-se e o esperando na entrada do quarto. Ao sair de baixo da cama, um puxão do amigo para a sala deu o primeiro motivo, daquele dia, para gargalharem e – como já sabemos – conversarem falas duradouras. Não podiam afirmar qual era o humor do dia, mas a principal porta da casa foi aberta quando a fronteira da tarde estava sendo abandonada e os rastros deixados pareciam ter o mesmo sabor daquele crepúsculo que ele havia visto da janela do seu quarto; era a mãe do amigo o chamando para irem embora. Acompanhados por ele ao portão, antes que saíssem, pediu para a mãe do amigo se podia acompanhá-lo até a esquina; a mãe do amigo permitiu e, despedindo-se, foi à frente dos dois para deixá-los na companhia um do outro.
       Eles andaram sem que nenhuma palavra fosse dita, nenhum mínimo ruído fosse despejado; a poeira sobre o concreto, os pássaros e os ventos, todos se calaram – talvez por pura coincidência ou por saberem o que estava por vir – e chegando à esquina que, subentendia-se, o seu amigo partiria e ele permaneceria, o amigo pulou o baixo degrau que o desunia da calçada o levando para o asfalto, em que também era uma desunião dos dois; virando-se para ele, ergueu o braço direito e estendeu a mão, sorrindo, com um sorriso que falava coisas que apenas eles entendiam. Tudo ao seu redor parecia petrificado, nada mais precisaria se mexer para ele perceber que aquilo não passava simplesmente de uma viagem à parte menos iluminada do seu ser; aquilo era real para ele. Seus pais, que o visitaram os pensamentos, deixaram nele um cisco de inquietação, mas pensou, assoprando o incômodo, o resignado sofrimento logo os ocuparia o peito vago; eles pertenciam ao mundo em que estavam. Um toque frágil, mas decidido, foi atado à mão do amigo; avizinhando-se no asfalto, o amigo repousou as mãos do sonhador em sua bochecha direita, como se estivesse, ansiosamente, esperando aquela resposta dele. E então, tão próximos que seus ombros se tocavam, eles atravessaram a rua; abraçados, seguiram para um lugar que não mais me atrevi a incomodar.

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