Seu ombro

| domingo, 2 de outubro de 2011 | |
       Meu corpo está cansado de se expor às claras manhãs que anunciam longos dias; meus pés estão machucados por percorrerem os mesmos caminhos, pelas tentativas de uma mesma vida. Você sabe disso, desses detalhes que me quebram impedindo que eu me levante por inteiro; o quão pesados são os meus pensamentos nesse coração doente e o quanto são confusos os meus sentimentos quando minha mente se arrisca em compreendê-los. Essa é a minha maneira de mentir não estar mais perdido do que já estou, de ter algo mais sólido que incertezas. Mas hoje as luzes brilharam tão intensas que não pude ver o chão que me suporta, nem o céu que antes me dava desejos para o próximo amanhecer. Não sonhando com os passos futuros, sei que você descobre o inocente desespero que aparece em meus sorrisos nas brincadeiras diárias, o valor do silêncio entre as nossas conversas. No fim das guerras matutinas, e das minhas internas, os sobreviventes são sempre você e eu.
       Quando te tiram do seu lugar na minha rotina, meus olhos não ficam claros como deveriam e eu sinto a sua falta. Então logo percebo que sempre estive esperando por você; aquele que chega para abrir as janelas de uma casa escura demais para as noites ensolaradas, que ocupa os abraços vazios de um alguém solitário. Assim você fez ao se aproximar da minha sombra e continua fazendo, por acreditar em uma estrela minha que eu não vejo. Em segredo, as paredes do meu mundo foram desmontadas e no meio da destruição, você cultivou o seu nome em meu peito. As poeiras tinham cheiro de confiança e as nuvens carregadas de alegrias derramavam gotas de amor sobre as ruínas de mim mesmo; recentes paisagens coloridas por você. Talvez seja por isso que a desistência não tenha vindo em outras primaveras, para que eu te encontrasse em um canto maior que meus pesadelos.
       Eles nunca pararam para me observar mais do que um fechar de olhos, mas você ainda está aqui, mesmo depois de ter conhecido os meus espinhos. Isso me faz bem, como nos momentos que ergo meus braços e você não permite que eu caia, nem que os minutos passem através de mim, muito menos que me levem para longe daqui. Eu estou com muito medo dessas coisas que tentam me ensinar e não consigo aprender, porque eu sou uma criança mimada e essas são castigadas até não restarem nada que as façam reais. E de tanto corromperem minha infância, esqueci o que é esperar pela realização. Mas há dias que os pedidos são que eu olhe para frente e não me distraia com a sua voz; eles não entendem que é por essa fenda que ainda respiro, que é por essa linha que ainda me mantenho são. Eu soube que você era um ótimo anjo antes de me visitar, mas sem asas você não é muito diferente disso.
       Às vezes me faço tão intocável, são nessas estações que preciso da sua presença mais perto de mim. Porque ela faz as minhas feridas ficarem com sabor de cicatrizes e lembrando daqueles minutos que o sono te possuiu, foram neles que descansei minhas fraquezas em seu ombro. Nenhuma dor estava curada, mas eu poderia ficar ali eternamente assistindo o fim colocar tudo em seu devido espaço. E apoiado em você, eu já estava em casa. Você me conhece melhor do que meu reflexo, por mais nublado que eu me torne ao ser percebido. Enquanto você salva a minha sensação de existir, suas risadas pedem que as minhas as acompanhem e por isso ainda guardo a lembrança do que é se divertir. Olhando para o seu rosto, eu não tenho certeza da morte. Porque você me faz querer viver.

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