Nós

| domingo, 28 de agosto de 2011 | |
       Minha mente caiu sem cor no seu desconhecido chão. Apesar de não conseguir vê-lo, eu sabia para onde minhas palavras estavam indo; um velho sonho fantasiado de pesadelo sendo realizado. Tentando imitar o som da chuva, eu desenhava um sorriso em cada recente medo que voltava à minha alma, talvez para que as flores não desbotassem nesse jardim que agora não é somente meu. E não ouvindo se o clamor das minhas lágrimas seriam gritos, sussurros ou simples gotas de um coração perdido ao serem lidas pelos seus anoitecidos olhos, eu senti a real distância que me ligava a você. As lembranças que guardo de você deixaram de ser apenas mentiras contadas a mim mesmo; a minha perda de razão estava clara na escuridão dos meus pecados. Você a levará para sempre consigo e ela virá respirar na superfície da sua memória quando você me ver, seja qual for o disfarce dessa visão.
       Eu procurei as estrelas nesse céu que já me viu sangrar, mas elas não estavam lá. Com o mesmo amor, chamei os meus fantasmas que nunca se cansavam de me acompanhar durante os meus fracassos, mas nenhum deles veio ao meu encontro. Eu estava sozinho, a caminho de uma morte tão silenciosa que poderia ser a última. E de alguma maneira, eu não queria voltar. Todos os firmes passos marcados na incerteza, me entregavam tremores mais calmos do que as mãos esperavam. Além de doces, os imortais venenos me adormeciam com alegrias que não descansavam como os sonos; ao contrário, mantinham acordados os lábios que, na dúvida, permaneciam frios. Senti-me como o anjo que renuncia suas próprias asas, não mais existindo a tristeza de não possuir uma alma; minhas ilusões estavam se tornando o eterno sacrifício. Então rabisquei uma pergunta da qual o último traço foi a sua resposta. O amanhecer não seria o mesmo, nunca mais, porque o Sol veria os segredos que sempre iluminou.
       Você esperou na quietude, imaginando tudo menos o seu nome formando os meus versos. Perdoe-me por ter demorado; por ter chegado atrasado e por não estar vestido adequadamente para uma confissão. Mas essas coisas nascem do desespero e da falta de coragem, por mais que sejam pensadas em noites inteiras de um mês sem esperança. E sabendo que você estava do outro lado, soletrei os sentimentos que tantas vezes mostrei ao silêncio. Derramados aos poucos para que não te afogassem, nem te assombrassem nos lugares que você for para se divertir. Mesmo com o perigo de nada restar em mim e de não me entender, fiz de você a testemunha da destruição das paredes que formavam os meus repetidos dias. Era o fim de algo que nunca teve um início; a despedida de uma história que nunca foi escrita.
       Diante de mim, observei os seus pensamentos se organizarem tão incertos depois da tempestade. Cada tentativa de tornar isso uma conversa comum de domingo era contada por mim. Eu sei, deixei os seus dedos fracos demais para segurar um coração que não fosse seu, mas nesse instante nem eu conhecia o peso do meu mundo. Seus agradecimentos te tornaram o cúmplice das poeiras que deitavam em minha vida; das cinzas que coloriam os meus olhos e do relógio que parecia muito pequeno ao pensar em você. E sob a sua surpresa, você era o vento que espalhava todos os pedaços, ao mesmo tempo que os curava. Não me agradeça, isso também pertence a você. Não se preocupe, eu não te confundirei com o meu reflexo, ainda que o espelho esteja quebrado, sujo e escondido. Atrás de sua condenação, um amargor desceu através da minha garganta, como palavras desnecessárias que fazem sentido. Sim, minhas mãos estão libertas, mas isso não quer dizer que elas não estejam machucadas. Leves o bastante para tocarem as nuvens, mas ainda sem poderem voar, agora tenho que aprender a cultivar no vazio as estações que vivem lá fora.

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