1944

| segunda-feira, 1 de agosto de 2011 | |
       Naquele dia a neve estava cinza e caía lentamente, talvez fossem os meus olhos já cansados de abrir e fechar na tentativa de mudar o pesadelo em que eu me deparava, como uma brincadeira que não tinha diversão alguma. Quem sabe as nuvens precisassem daquele branco mais do que eu; quem sabe. Resolvi não pensar muito nisso, o céu era alto demais para me salvar. Não havia mais nada que me fizesse acreditar que isso teria um fim, mas apesar de todas as tristezas e dores, pude encontrar uma - e a única - coisa que me fazia sentir a vida que corria em minhas veias: ele. Em todos os dias de trabalho duro, saber que nunca poderia olhar nos olhos dele tranquilamente; que nunca sorriríamos juntos, nem compartilharímos os passos em um mesmo caminho onde nossos corações cantariam uma canção sem som, embalando o laço que minha mão e a dele formariam. No entanto, vê-lo ao longe desenhava um sorriso dentro de mim, tão certo que não era preciso interpretá-lo; uma estrela que nasce apenas para tornar a noite mais bonita, não menos escura. Por mais que os gritos e o rosto dele fossem sustentados pelo ódio, ainda se conseguia perceber a voz macia e os traços angelicais, de alguém que tem o amor adormecido em algum canto invisível aos demais. Até os olhos que eram rígidos, quando distraídos, mostravam uma inocência que brilhava de maneira tímida. Um pouco de esforço era necessário para ver tudo isso e quando se via, eram os melhores agasalhos para os dias frios. Mas logo esses sonhos despertavam; eu sabia que para ele e seus amigos nada importa, a não ser fazer a nossa segunda pele de listras verticais azul-escuras e brancas pagar um preço muito alto por existir. Ter isso sobre a sua verdadeira pele ali, era o mesmo que ser uma sombra sem corpo; não ter uma alma dentro de si, um coração que bate como qualquer outro. E muitas vezes eu acreditava nisso... Das lágrimas minhas que esse chão sentiu, essas foram as mais pesadas de se tornar reais. Eu sabia que entre nós sempre existiria uma diferença, porque na roupa dele descansava o símbolo que me trazia um pouco da morte. E assim eu o amava, tendo da distância o sabor da sua companhia.
       No meio da grande massa de prisioneiros, onde se encontravam mulheres e homens de todas as idades, um grupo foi selecionado e avisado que seria deslocado para outro local; eu estava entre eles. Então os soldados começaram a nos organizar em uma fila única e espessa; ficando na parte esquerda, eu observei os muitos deles que chegavam para assegurar que não fugíssemos ao destino que só eles conheciam. Quando eu o vi, percebi que vinha em minha direção com pisadas firmes, parando um ou dois passos à minha frente. Enquanto os outros se colocavam em volta dos prisioneiros, ao meu lado ele permaneceu quieto. Por vezes arrumava algo em sua roupa, a arma que em suas costas carregava e eu disfarçadamente tentava guardar cada expressão daquele rosto, cada movimento daquele corpo. Desde o início da caminhada, o silêncio nascido do medo que nos era entregue se juntou a nós como o peso do cansaço em nossos pés. Mas nada era capaz de me distrair como ele, que não raras vezes se virava para olhar os prisioneiros agora que estávamos em movimento. Nos momentos em que ele ficava diante de mim, por um pequeno e rápido segundo, eu podia fingir que a procura era por mim. E eu desviava o rosto sem demora, mais pela vergonha dele me ver naquele estado frágil do que por medo de algo me acontecer. Mesmo assim, eu queria permanecer ali, invisível e inferior ao lado dele, aproveitando os minutos a mais que aquele dia estava me presenteando. A cada passo dado ao encontro do futuro, atrás e longe de nossa visão ficavam o chão, a atmosfera, tudo que estávamos acostumados à três quilômetros passados; aquela parte era muito diferente de onde o meu amor nasceu. Os arames que enfeitavam o nosso estreito e estranho atalho não eram preciosos; eram longos e pertenciam aos soldados, mas eles não nos contavam os seus segredos.
       Surgia diante de nós, mais e mais próximo, um edifício tranquilo, sem nenhum ruído. Ao vermos que na entrada mais soldados nos esperavam, diminuímos os passos, parando assim a nossa marcha. Como de costume, todos eles levantaram o braço direito, esticaram as mãos e gritaram "Heil! Heil! Heil!"; surdo pelas vozes unificadas, eu senti minhas feridas ainda mais vivas. Ele também saudou e sua saudação foi a mais bonita de todas. E antes de entrarmos, um soldado com voz alta e clara, nos comunicou que receberíamos um tratamento desinfectante. Dentro se via salas com portas fechadas e seguindo por um corredor, chegamos em uma escada que descia até uma sala subterrânea. Durante o trajeto, o fantasma mais carnal, a lembrança mais presente fora da minha mente, era o que não deixava me prender a nada em volta de nós. E o mesmo soldado nos pediu que despíssemos nossas roupas para serem limpas enquanto tomássemos banho. Eu não queria que ele me visse daquele jeito, pobre e sem defesa; fechei os olhos ao tirar cada peça, fingindo que dessa maneira ele também não me veria. De cabeça baixa entreguei as coisas para ele, que sorriu e se afastou para deixar tudo com aqueles que pareciam ser os responsáveis pela limpeza. Eles estavam tão educados e aquele sorriso foi tão bem feito; ninguém poderia, nem conseguiria, ter uma alegria tão rosada e doce. Meu coração agora contava ilusões dançantes e eu queria que elas fossem verdadeiras. Uma porta bem encaixada, contendo um médio retângulo de vidro foi aberta para que adentrássemos. Era um espaço amplo, havia chuveiros e as paredes eram lisas e pareciam bem mais grossas que qualquer outra já vista por mim. Quando todos os prisioneiros entraram, a pesada porta foi fechada e o desespero atingiu a todos. A maioria batia forte na porta, alguns ainda tentavam abrir os chuveiros, de onde nenhuma água saia, e eu procurava pelo rosto dele através do vidro. Ele estava lá, olhando o que acontecia dentro do que nos disseram ser um simples banho.
       Alguma coisa começou a tornar o ar mais difícil de encher os pulmões e quanto mais o tempo passava, mais isso era percebido pelos outros. Gritos assombrosos preenchiam toda a sala; pessoas arranhavam as paredes em uma busca por uma fuga que não era possível. Pessoas se contorciam no chão, desmaiavam; mães em pânico por verem suas crianças desacordadas e o meu corpo já estava se tornando um fardo, mas eu ainda queria ficar de pé e tê-lo ao alcance das minhas fantasias. E quando ele olhou para mim, retribui o sorriso que havia me dado pouco antes. Uma lágrima caiu do meu olho direito e eu caí junto com ela.

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