Fora de curso

| segunda-feira, 30 de maio de 2011 | |
       Você sorri uma e pela última vez engana o mundo que há muito tempo está cansado de carregar a sua sombra. Em alguns momentos você a vê grande demais para os seus olhos, em outros, muito pequena para os seus frios dedos. Assim você segura a linha que o tempo te entrega e costura toda escuridão em sua alma. A agulha mergulhada em lágrimas não torna menos dolorosos os passos guiados pela noite, mas você caminha da mesma maneira. Cada centímetro andado é colorido pelas estrelas que caem das suas mãos; aos poucos você percebe que está ficando sem cor e as coisas continuam vivendo. E dessa distância entre seu coração e o chão, você vê os sonhos que nunca te visitaram, as rosas que não mais deixam os espinhos brincarem com os seus gritos. Nuvens passam, deixam um cinza daquilo que em outros tempos já foi branco e as flores de plástico que iluminavam a sua vida não estão mais ali. Mas ainda chove e mesmo que o som da sua fuga seja ouvido, restará uma gota atrás dos seus pensamentos. As manchas que nascem quando se aperta os olhos não são profundas o bastante para abandonar esse algo que nem ao menos você conhece; por mais que tente, elas não saberão o seu nome. Como as sujeiras que o chão recebe tão normalmente, você está perdido e assim permanecerá. Amanheceres que são levados nos bicos dos pássaros que voam longe do seu olhar. Eles não deixam que você decore como é aquela luz, para quando cair finja estar acima de si mesmo. Vozes sem reflexos que saem do vazio de onde deveria estar as suas asas; o anjo que você nunca foi. E todos os cantos silenciosos das palavras que você se recusa a encarar; elas sempre te acompanham.
       Esse você sou eu.

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