À primeira companhia: personificação

| sábado, 11 de janeiro de 2014 | |
       Deixei que eles saíssem, festejassem, se desfizessem em fogos como bem queriam; aliás, não existiam razões para prendê-los, era uma mentira deles, um dia de todos eles, e não minha, e não meu. Eu, quase acompanhado, fiquei neste lugar onde o Espaço e o Tempo são condições impostas apenas para além desses limites; alguns não entendem como eu ainda não enlouqueci e os outros tantos não acreditam na maneira em que me entreguei à miséria e à desonra. Para ser sincero, nem eu consigo entender ou acreditar, mas eles não sabem, talvez não queiram saber, que há pontos em que esta minha bolha colide com o Universo deles e, dessas fraturas, tão substancialmente transparentes e sólidas, nascem espelhos que enxergam ao avesso: é seguindo o curso das imagens e dos sons que eu experimento das inverdades deles. Mas quem sou eu para enumerar as ilusões e os erros de um povo? Eu que somente conheço verdades com o formato do meu próprio coração –– um ninguém! Lamento-me muito que do outro lado não dê para ouvir as sinfonias e os silêncios daqui. Sem páginas brancas, com ontens e amanhãs costurados em uma sequência que não sei diferenciar neste presente, eu me sustento nesta grande armilada esfera, enquanto eles continuam a caminhar em linha reta.
       Muitos pensam que não dancei; eu não só dancei, como também corri, brinquei e ouvi... Lá fora, vozes instrumentais amorteciam, em passos, a madrugada que parecia mais uma senhora ao meu lado. Por mais que soubéssemos, eu e ela, que a coloração desta noite se prolongaria por pincéis artificiais, eu me queria sozinho. Que corpo é esse que sobreviveu a mais um fim e agora ronda as paredes do meu mundo, roubando-me a tranquilidade? Eu precisei subir o monte não feito de cetim, de veludo, mas de desconhecimento, para alcançar as frestas que respiraram os ares de antes e depois da meia-noite.
       Sob as falsas luzes vespertinas, havia um rosto, mas eu não o via. A calma, acomodada no laço dos braços, também não imaginava que, em alguma dimensão daquela rua, havia alguém os observando; minhas únicas testemunhas foram as costas dele, que me olhavam e sussurravam primeiras e últimas despedidas. Ninguém poderia me dizer se foram as sombras que o vestiram tão bem ou se foram elas que, envergonhadas com a presença, se disfarçaram com a sua textura. Ele era um deles, apesar do seu andar ter um perfeito equilíbrio para aquelas altas horas. Eu tive vontade de descer dos sonhos, destrancar o relógio e o chamar para que reconhecesse a minha existência; e o que fiz foi diferente: os meus olhos previram o futuro ao segui-lo, porque essa era a direção que o habitava, até o momento em que a esquerda se curvou a ele.
       Os poucos segundos me atingiram iguais a distâncias. São engraçadas, essas coisas que nos fazem sentir... Crescia em mim a certeza de que eu nunca experimentaria o aroma das letras que dão início a quem ele é; mesmo se os pequeninos descobrissem ventos de estações seguintes que nos permitissem trocar notícias sobre nossas identidades, nenhum de nós dois iluminaríamos que, naquele dia de decisivo instante, para ele, aquela escolha não tinha outro dono e que, para mim, muito mais do que pedras se encontraram naquele destino. Desde então, ao se queimarem os quotidianos particulares, construímos contínuos contrários e nos esfriamos. Com quantos semelhantes a ele, dos distantemente pertos aos com milhas de proximidade, eu não alimentarei as chamas? Meu mínimo íntimo se cala.

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